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terça-feira, 22 de julho de 2008

A Perspectiva da Totalidade - Ricardo Musse

Texto retirado do artigo "A dialética como discurso do método" disponível em www.fflch.usp.br/sociologia/docentes/docartigos/Ricardo_Tempo%20Social-Scielo.pdf (grifo meu)

Os equívocos da exposição engelsiana da dialética, entretanto, não decorrem apenas de uma indevida incorporação do conhecimento da natureza e da cientificidade que lhe é própria. Segundo Lukács, assentam-se também em uma compreensão incorreta da relação entre Marx e Hegel.
Como se sabe, o último Engels apresenta a metodologia do marxismo como uma confluência na qual um dos troncos consiste na inversão materialista da dialética hegeliana - premissa indispensável para a superação do "platonismo" que lhe é característica. A possibilidade dessa metamorfose, de certo modo, seria fornecida pelo próprio caráter revolucionário do método hegeliano, em flagrante e permanente contradição com o espírito conservador do sistema. O descompasso entre a dialética - incompatível por definição com afirmações absolutas - e o empenho sistemático de Hegel em apresentar sua filosofia como "resumo e compêndio" de uma verdade absoluta impõe, na visão de Engels, o giro materialista como um desdobramento quase diria necessário desse pensamento.
Lukács não rejeita propriamente a tese que considera o materialismo histórico o "herdeiro do idealismo alemão". Antes, procura até mesmo aprofundá-la, e para tanto não hesita em alterar o qualificativo da relação entre Hegel e Marx de "desdobramento" para "prolongamento". Entretanto, ao contrário de Engels, Lukács concede pouca ênfase ao giro materialista. Segundo ele, a maneira como se praticou essa inversão (em Engels e em seus epígonos na Segunda Internacional) não deixou de provocar um enfraquecimento do empenho sistêmico, acarretando uma fragmentação que dispersou o conhecimento em esferas autônomas, à semelhança da teoria de Max Weber.
Em contraposição a esse diagnóstico, Lukács salienta que Marx conseguiu transmudar a dialética hegeliana em "álgebra da revolução" sobretudo porque se ateve à sua matriz principal (totalmente ignorada por Engels), à categoria, ou melhor, ao ponto de vista da totalidade.
O domínio do todo sobre as partes, configurado por meio da apreensão dos múltiplos fenômenos parciais como momentos do todo, como parcelas de um mesmo processo, torna-se, em História e consciência de classe, fator decisivo para a definição do campo marxista. Identificado com a essência do método de Marx, o ponto de vista da totalidade sobrepujaria inclusive outras determinações, consideradas até então suficientes para delimitar suas diferenças diante da ciência burguesa, como o "predomínio de motivos econômicos na explicação da história" ou mesmo a prática de "contrapor à sociedade burguesa conteúdos revolucionários".
Segundo essa perspectiva, que ressalta a importância da categoria "totalidade" para a compreensão da metodologia do materialismo histórico, a aproximação entre Marx e Hegel seria maior que a proximidade entre Marx e a maioria dos teóricos, declaradamente marxistas, da social-democracia:
Mesmo a polêmica materialista contra a concepção "ideológica" da história é dirigida bem mais contra os epígonos de Hegel do que contra o próprio mestre que, a esse respeito, estava muito mais próximo de Marx do que este pôde imaginar em sua luta contra a esclerose "idealista" do método dialético. O idealismo "absoluto" dos epígonos de Hegel chega, com efeito, a dissolver a totalidade primitiva do sistema, a separar a dialética da história viva [...]. Contudo, o materialismo dogmático dos epígonos de Marx repete a mesma dissolução da totalidade concreta da realidade histórica. Se o método dos epígonos de Marx não degenera, como o dos epígonos de Hegel, num esquematismo intelectual vazio, ele se atrofia numa ciência específica e mecanicista, em economia vulgar (Idem, pp. 116-117).
Uma primeira conseqüência de se considerar a dialética conforme a perspectiva da totalidade seria, portanto, a exigência de superar as distinções abstratas sobretudo no que tange à relação entre sujeito e objeto do conhecimento, premissa inicial da constituição de domínios autônomos de pesquisa, separados em decorrência da divisão intelectual do trabalho e da especialização científica. Trata-se de redirecionar o conhecimento para considerar a sociedade uma totalidade, recomendação enfatizada na célebre passagem: "Para o marxismo, em última análise, não há, portanto, uma ciência jurídica, uma economia política e uma história etc. autônomas; mas somente uma ciência histórico-dialética, única e unitária, do desenvolvimento da sociedade como totalidade" (Idem, p. 107).
Certamente, Lukács não ignora a necessidade, durante o processo de elaboração do conhecimento, de isolar e abstrair elementos de um amplo campo de investigação, de focalizar complexos de problemas ou ainda de condensar conceitos de um dado campo de estudos. Para ele, porém, o decisivo consiste em saber se esse isolamento é apenas um meio para o conhecimento do todo, inserido como momento determinado de uma conexão total, ou se o conhecimento abstrato de regiões parciais isoladas preserva sua autonomia, convertendo-se, à maneira da ciência burguesa, em finalidade própria.
No transplante da dialética de Hegel para Marx nem tudo, como seria de se esperar, permanece idêntico. Na medida em que, para Lukács, o método de Marx apresenta-se "como a continuação conseqüente do que Hegel havia almejado, mas que não obtivera concretamente" (Idem, p. 92), o "prolongamento" da dialética hegeliana inclui algumas correções. No que tange à perspectiva da totalidade, a modificação mais substancial diz respeito à necessidade de que essa categoria determine não só o objeto, mas também o sujeito do conhecimento.
A ciência burguesa, em especial a economia clássica, mantém-se presa à consideração dos fenômenos sociais a partir da perspectiva do indivíduo (o agente capitalista). Despreza-se assim, na perspectiva de Lukács, simultaneamente, duas características primordiais da dialética - "a exigência da totalidade tanto como objeto determinado como sujeito que determina".
Hegel, por sua vez, embora encare o objeto como totalidade, só preenche metade dos requisitos, já que hesita entre o "ponto de vista do 'grande homem' e o do espírito abstrato do povo" (Idem, p. 108).
Marx, porém, particularmente em O capital, na medida em que "considera os problemas de toda a sociedade capitalista como problemas das classes que a constituem, sendo a dos capitalistas e a dos proletários apreendidas como conjuntos", atinou para o papel-chave do conceito de classe. Descortina assim um sujeito que, na sociedade moderna, "para se pensar a si mesmo é obrigado a pensar o objeto como totalidade".
Parte-se, portanto, da premissa de que "o ponto de vista do indivíduo não pode levar a nenhuma totalidade, quando muito pode levar a aspectos de um domínio parcial, mas na maioria das vezes somente a algo fragmentário: a 'fatos' desconexos ou a leis parciais abstratas". Nesse diapasão, "a totalidade só pode ser determinada se o sujeito que a determina é ele mesmo uma totalidade" (Idem, p. 107). Lukács reconstitui assim o marxismo como uma forma de saber umbilicalmente vinculada ao proletariado9.
Afinal, uma vez que a superioridade científica e metodológica do ponto de vista de classe sobre a perspectiva individual assenta-se no fato de que "somente a classe, por sua ação, pode penetrar a realidade social e transformá-la em sua totalidade" (Idem, p. 125), a única classe capaz de promover a esperada modificação social, garantindo, ao mesmo tempo, a unidade de teoria e prática, seria o proletariado. Recuperando uma frase célebre de Marx, no Manifesto do Partido Comunista, que identifica o proletariado como executor da sentença de morte proferida pela burguesia contra si mesma, Lukács conclui que o proletariado, "ao reconhecer sua situação, age, e ao combater o capitalismo, reconhece sua situação" (Idem, p. 127).
O giro principal efetivado por Marx em relação ao método de Hegel, portanto, segundo Lukács, não consiste precisamente na passagem do idealismo para o materialismo - como às vezes sugere o próprio Marx, e Engels não cessava de reiterar. O mais decisivo foi a transição do ponto de vista do indivíduo para a perspectiva das classes sociais.
História e consciência de classe ressalta ainda que, ao adotar a perspectiva da totalidade, Marx teria transplantado diretamente de Hegel não apenas a consideração de todos os fenômenos parciais como momentos do todo ou a identidade entre sujeito e objeto, mas também a compreensão do processo dialético como unidade de pensamento e experiência. Segundo ele, esse modo de conceber o vínculo entre lógica e história tornou-se um fator determinante no recente renascimento do marxismo, consagrado nas obras decisivas de Lênin e Rosa Luxemburgo - respectivamente, O estado e a revolução e A acumulação do capital.
Lukács detecta a manifestação dessa unidade de conceito e temporalidade em partes pouco valorizadas e mal compreendidas desses livros, em trechos dedicados a balanços históricos da literatura produzida sobre a questão em pauta, como é o caso dos segundo e terceiro capítulos do livro de Lênin, "A experiência de 1848-1851" e "A experiência da Comuna de Paris (1871)", e da segunda parte do de Rosa, "Exposição histórica do problema".
Diferentemente do ato de "tomar em consideração os precursores", típico da ciência burguesa (mas também dos teóricos da social-democracia), distante da enumeração infindável e despropositada do "especialista", Lênin e Rosa teriam conseguido desenvolver nesses capítulos a tão almejada unidade de teoria e história:
Devido a essa relação com as tradições de método e de exposição referentes a Marx e a Hegel, Lênin fez da história do problema uma história interna das revoluções européias do século XIX; a abordagem histórico-literária dos textos por Rosa Luxemburgo se desenvolve numa história das lutas em torno da possibilidade e da expansão do sistema capitalista (Idem, p. 118).
Esse método, segundo Lukács, está presente em Marx já em "sua primeira obra acabada, completa e madura", Miséria da filosofia, por meio da crítica direta das verdadeiras fontes de Proudhon (Ricardo e Hegel). E estrutura também outros livros de Marx, como O capital e Teorias sobre a mais-valia, ainda que sob uma forma modificada e menos nítida.
Desse modo, o procedimento de reconstruir o processo histórico por meio de um exame dialético da literatura disponível acerca dos temas abordados atesta mais que a pertinência e a eficácia do predomínio da perspectiva da totalidade. Indica também que:
O método filosófico de Hegel, que sempre foi - de maneira mais convincente na Fenomenologia do espírito - história da filosofia e filosofia da história ao mesmo tempo, jamais foi abandonado por Marx em relação a esse ponto essencial. Pois, a unificação hegeliana - dialética - do pensamento e do ser, a concepção de sua unidade como unidade e totalidade de um processo, formam também a essência da filosofia da história do materialismo histórico (Idem, p. 116).
Lukács explicita assim o método inerente, ainda que inconsciente, de Lênin e Rosa Luxemburgo como a realização efetiva do programa do idealismo alemão. Desse modo, não deixa de situar, pelo menos no que tange a essas obras específicas, esses dois autores como pontos inaugurais daquele movimento que a posteridade nomeou como "marxismo ocidental".
A junção, que teria sido promovida desde Marx, de história da filosofia e filosofia da história, do a priori e do a posteriori, da teoria e da experiência, do lógico e do histórico, serve também de guia para quem queira evitar os dilemas em que se enredam as tentativas de, num trânsito de mão única, compreender as formações "ideológicas", típicas da superestrutura, unicamente a partir da base objetiva da sociedade.
Seja qual for o tema em discussão, o método dialético trata sempre do mesmo problema: o conhecimento da totalidade do processo histórico. Sendo assim, os problemas "ideológicos" e "econômicos" perdem para ele sua estranheza mútua e inflexível e se confundem um com o outro. A história de um determinado problema torna-se efetivamente uma história dos problemas. A expressão literária ou científica de um problema aparece como expressão de uma totalidade social, como expressão de suas possibilidades, de seus limites e de seus dilemas. O estudo histórico-literário do problema acaba sendo o mais apto a exprimir a problemática do processo histórico. A história da filosofia torna-se filosofia da história (Idem, p. 117).
É, portanto, sob a égide da filosofia da identidade que a categoria da totalidade justifica, em Lukács, o trânsito de mão dupla entre fenômenos objetivos e subjetivos, economia e superestrutura, que se tornará, a partir de então, uma das marcas distintivas do marxismo ocidental.


Referências Bibliográficas

LUKÁCS, Georg. (2003), História e consciência de classe. Estudos sobre a dialética marxista. São Paulo, Martins Fontes.
ENGELS, Friedrich. (1976), Anti-Dühring. São Paulo, Paz e Terra.
______. (1977a), Do socialismo utópico ao socialismo científico.
HEGEL, G. W. F. (1968), Ciencia de la lógica. Buenos Aires, Solar.
______. (1988), Enciclopédia das ciências filosóficas em epítome. Lisboa, Edições 70.
______. (1992), Fenomenologia do espírito. Petrópolis, Vozes.
MARX, Karl. (1983), O capital. Crítica da economia política. São Paulo, Abril Cultural.
______. (1988), Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis, Vozes.
______. (2004), A miséria da filosofia. São Paulo, Ícone.

sábado, 19 de julho de 2008

A Totalidade Como Categoria Central na Dialética Marxista - Edmilson Carvalho

Artigo extraído da revista Outubro do Instituto de Estudos Socialistas, nº 15, 2007. (grifo meu)

Resumo: O presente artigo constitui um ato de resistência ao ataque e a à supressão de uma categoria entre as mais centrais da gnosiologia dialética marxista, a categoria de totalidade. Para dar conta da tarefa, o autor teve de examinar como a referida categoria foi posta pelos principais pensadores marxistas - o próprio Marx, Engels, Lukács, entre outros - e como e por que ela persiste atual, necessária e insubstituível para pensar as mais diversas esferas da sociabilidade burguesa e o processo, também ele uma totalidade, de sua superação.


Uma das categorias mais fundamentais no processo de produção dialético do conhecimento é a totalidade. Num escrito elaborado na década de 1940, Lukács assim a definia:


A categoria de totalidade significa (...), de um lado, que a realidade objetiva é um todo coerente em que cada elemento está, de uma maneira ou de outra, em relação com cada elemento e, de outro lado, que essas relações formam, na própria realidade objetiva, correlações concretas, conjuntos, unidades, ligados entre si de maneiras completamente diversas, mas sempre determinadas (Lukács, 1967, p.240)(1).

A propósito, lembrava o próprio Lukács que Marx se referia a essa mesma categoria quando havia afirmado que “as condições de produção de toda sociedade formam um todo”.

Apesar do desuso cada vez maior, mais sistemático e crescentemente condicionado por motivos ideológicos, que filósofos, sociólogos, antropólogos, historiadores e até artistas fazem dessa categoria, mais cabalmente nos atuais tempos de descostura e dos pós-modernismos, nunca é demais lembrar e confirmar o estatuto onto-gnosiológico e o valor lógico intrínseco dessa importante categoria, sem a qual qualquer interpretação teórica do mundo fica reduzida a um amontoado incoerente, amorfo e desarticulado de fragmentos, do qual não pode resultar qualquer processo de efetiva produção do conhecimento. (2) Contudo, a categoria de totalidade não pode ser compreendida, construída ou empregada sem que se tomem alguns cuidados filosóficos especiais, sob pena de não ser possível obter a apropriação, no decurso da análise, de nada mais do que uma aparência, dentre todas as demais, quando então, ao invés de contribuir para revelar o âmago concreto e explicativo da realidade, a “categoria” venha a se colocar como um obstáculo intransponível ao alcance do verdadeiro conhecimento dessa mesma realidade. (3) Com efeito, para que a totalidade seja uma categoria dialética, para que possa estar em condições de oferecer a máxima eficácia científica que lhe é inerente, a sua constituição passa, durante cada efetivo exercício da análise, por alguns procedimentos filosóficos que se apresentam como pressupostos imprescindíveis para o alcance do seu pleno e rico significado. Isto quer dizer que o todo pode não passar de mera aparência se for utilizado sem determinado trajeto filosófico de constituição. Esse trajeto teórico (dialético) é o único procedimento capaz de proporcionar estatuto rigorosamente científico à referida categoria.

De início pode ser adiantado que se determinado fato é um todo composto de partes, leis e relações conectadas entre si e em movimento, resulta que a desarticulação e a fragmentação desse todo opera uma amputação do mesmo e elimina a possibilidade de conhece-lo como tal. O conhecimento de uma região do todo não é ainda conhecimento do todo, porque o conhecimento de partes isolados do conjunto não é conhecimento nem das partes e nem do conjunto. Em outras palavras, numa totalidade o conhecimento das partes e do todo pressupõe uma reciprocidade, porque o que confere significado tanto ao todo quanto às diversas partes que o formam são determinações, dispostas em relações, que exatamente perpassam completam a transversalidade do todo, de modo que não pode haver conhecimento de um todo ou de partes dele se, amputada a totalidade, isolados os seus elementos entre si e em relação à totalidade e desconhecidas suas leis, não é possível captar a amplitude de determinações ontológica das partes e da totalidade - determinações que só podem ser apreendidas se a análise percorre a transversalidade essencial do todo.

Ademais, toda totalidade é formada de categorias e relações simples, entre as quais algumas mais fundamentais, que devem ser conhecidas e descortinadas para exatamente dar passagem à reconstituição abstrata do todo; o todo é, portanto, estruturado (4) e hierarquizado e, sem que se tenha percorrido essa estrutura e essa hierarquia, no ato de sua constituição, a partir do que ela possui de essencial, a categoria permanece indeterminada e, por isso mesmo, indefinida - o que conduziria a uma forma empirista de encarar (e apenas descrever) a realidade concreta (deve ficar claro que a estruturação teórica - dialética - da totalidade não é um atributo só do discurso, mas a representação conceitual que parte de uma objetivação que antecede o discurso porque já está na totalidade como real concreto). Como resultado, não se teria conhecimento, mas ideologia.

Para conhecer a transversalidade conectiva do todo não se faz necessário - e nem possível - percorrer, como uma listagem, todas as inumeráveis partes, elementos, momentos e relações do todo, pois se trata de conhecer a lógica que preside a sua conexão. Com efeito, a apreensão da conexão dialética essencial de uma totalidade pode ser descoberta mesmo antes de se ter alcançado o grau máximo de concretude da totalidade. É, com efeito, o que ocorre quando se procede à análise de uma dada totalidade por necessárias aproximações, de degrau em degrau, cobrindo, revelando e completando cada conceito, cada relação, cada conexão e cada categoria desde sua apreensão mais abstrata (e mais simples) à mais concreta (e mais complexa), no curso da qual a lógica essencial que preside a conexão do todo pode ser captada em algum estágio intermediário. O próprio Marx dá inúmeros exemplos da justeza dessa assertiva, que revela uma questão de método, e é esse o procedimento que ele emprega, em O Capital, na construção do próprio conceito de capital. (5) Em O Capital, com efeito, o conceito de capital (entre outros) construído no “Livro I” só serve para elucidar toda a análise teórica intermediária e que, num crescendo, vai atingir sua concretude máxima no “Livro III”, quando aquele conceito inicial deve dar lugar ao conceito de capital finalmente entendido no âmbito das determinações mais concretas - de modo que “(...) os dois primeiros tomos não ultrapassam a análise do ‘capital em geral’, enquanto o terceiro supera esse limite, fazendo a passagem para a análise da ‘pluralidade de capitais’ e de suas inter-relações, ou seja, do capital que existe ‘na realidade’” (Rodolsky, 2001, p.69).

Assim, nesse caso, que evidencia uma necessidade imanente do método (em Marx), a revelação parcial do conceito, de acordo com cada degrau alcançado, nunca é tomada como um conceito acabado e definido, senão no final da análise quando a totalidade foi teoricamente (e completamente) alcançada. Aqui, sim, a totalidade e cada parte estão completadas e a exigência onto-gnosiológica se impõe: o conhecimento concreto das partes e do todo pressupõem-se e aparecem em seu grau conectivo máximo. Porém - e isto dever ser destacado -, o alcance da plenitude conectiva da totalidade, que se faz, no plano teórico, por aproximações dos aspectos mais simples e unilaterais aos mais concretos e complexos, já revela, em determinados estágios da aproximação, o essencial do todo, de maneira que, a partir de certo ponto, as conexões internas do todo já podem ser percebidas - o que também significa, como já foi afirmado anteriormente, que o alcance da compreensão da lógica do todo não implica na consideração e no conhecimento extensivo de todos os seus fatos, momentos e relações, mas na compreensão da sua estrutura dialética, vale dizer, naquela essencialidade que, alcançada a meio caminho do conceito acabado, já caracteriza o todo. Para recorrer ao mesmo exemplo sugerido anteriormente, o conceito de capital, que só se completa no Livro III, quando o “capital em geral” é situado na “pluralidade dos capitais”, portanto no âmbito da concorrência etc., está essencialmente formulado quando, já no Livro I, a sua gênese já está compreendida: a valorização do valor mediante a reconversão da mais-valia.

Uma outra questão da análise da totalidade é a que se refere ao papel fundante e decisivo da contradição nas conexões da totalidade. É óbvio que nem todas as conexões que se espalham através de toda a transversalidade de uma dada totalidade são conexões de forças que se colocam em relação de contradição; mas, por outro lado, as conexões que implicam contradições ou antagonismos são as mais decisivas na definição do caráter e na eclosão de momentos de unidade e ruptura das totalidades em geral. É por demais sabido que o próprio modo de produção capitalista conecta, em um momento para o seu desenvolvimento, em outro, para a sua ruptura, duas categorias fundamentais: trabalho e capital no plano objetivo, proletariado e burguesia no plano de suas respectivas subjetividades. Essa contradição, presente no topo da totalidade abrangente modo de produção, também está presente na outra ponta - a da categoria mais simples (molecular), a mercadoria - desse modo de produção. Também a mercadoria é uma totalidade e, como tal, encerra, na sua objetivação, através da produção capitalista, conexões de outras categorias que se revelam como relações de oposição, tais como: valor e mais-valia, visibilidade e fetiche etc. No caso da totalidade modo de produção capitalista, são incontáveis as conexões que encerram desde a imediata produção da mercadoria, passando por todos os processos (e totalidades) intermediários (troca, circulação simples, circulação de capital etc.), até o momento mais amplo da concorrência e das crises do sistema - contradições que combinam para assegurar o desenvolvimento do capital mais que, em épocas de crise, quando explodem rompendo as respectivas unidades (combinação do salário com a mais-valia para a valorização do valor etc.), podem se manifestar revelando, tanto na teoria quanto na prática, o desacordo interno e imanente desse modo de produção, potência que se coloca como pressuposto objetivo da possibilidade de sua ruptura.

Em adendo, é exatamente a apreensão da lógica que preside as conexões da totalidade - que constitui, portanto, a sua essência, a sua lei -, e que está presente em toda a transversalidade conectiva do todo, que permite a possibilidade de conhecimento, portando, também, de uma relativa predição do movimento do todo. Essa lógica, essa essência, perpassa o passado, o presente e também o futuro da totalidade em movimento. Ao lado do núcleo essencial de um todo, daquilo que constitui o seu “leito remoto”, encontram-se uma infinidade de acidentes, contingências e circunstâncias que também participam da totalidade e do seu movimento. Aqui existem duas ordens e dois ritmos de movimento: o do “leito remoto” e o dos acidentes - o primeiro, lento, o segundo, (muito mais) rápido. A essência do movimento do todo é o que o unifica e que, portanto, articula as contingências, as circunstâncias e os acidentes ao todo. Enquanto o “leito remoto” do todo, aquilo que constitui a sua lei, a sua lógica, a sua necessidade, a sua estrutura, permanece por um tempo maior, as circunstâncias, os acidentes e as contingências mudam, aparecem e desaparecem, muito rapidamente. É exatamente esse “leito remoto”, que antecede e que sucede o estágio presente do movimento do todo, que confere a possibilidade do conhecimento e do reconhecimento do todo na sua constituição pretérita e de uma relativa possibilidade de conhecimento dos desdobramentos futuros - portanto também de predição - da totalidade. Quando uma crise cíclica do sistema do capital acontece, a sua constituição não se dá por força de elementos acidentais ou circunstanciais de uma da conjuntura, mas por efeito de uma lei - a lei da queda tendencial da taxa de lucro etc. -, e é pelo reconhecimento e pelo conhecimento dessa lei que se pode prever certos desdobramentos - sempre em certa medida - essenciais da ordem do capital em crise. Fenômenos acidentais, circunstanciais, contingenciais podem até precipitar, num dado momento, um processo de crise de superprodução, mas jamais dar origem a esse tipo de crise. A análise da lei da crise garante previsões aproximadas de sua duração cíclica, da possibilidade de uma depressão ou de um crack, de uma certa dimensão do desemprego, da ruína e sucateamento de certos segmentos de capitais etc. O grau de acerto em tal tipo de predição vai depender da capacidade de apropriação do máximo de mediações existentes nas relações entre a lei e as circunstâncias presentes no processo de crise. (6)

Do todo exposto, o problema consiste, pois, em saber quais são, em cada caso, as categorias e relações centrais que constituem a essência de uma totalidade (uma realidade concreta e complexa). Era exatamente o que Marx tinha em mente quando escreveu estas palavras nos Grundrisse:


Quando consideramos um determinado país do ponto de vista da economia política, começamos por sua população, pela divisão desta em classes, a cidade, o campo, o mar, os diferentes ramos produtivos, a exportação e a importação, a produção e o consumo anuais, os preços das mercadorias etc. Parece justo começar pelo real e concreto, pela verdadeira suposição; assim, por exemplo, na economia, pela população que é a base e o sujeito da ação social da produção em seu conjunto. Contudo, se examinarmos com maior atenção, isto se revela um procedimento falso. A população é uma abstração caso deixe de lado, por exemplo, as classes que a compõem. Estas classes são, por sua vez, uma palavras vazia se desconheço os elementos sobre os quais repousam, por exemplo, o trabalho assalariado, o capital etc. Estes últimos supõem a troca, a divisão do trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, os preços etc. Se começássemos pela população, teríamos uma representação caótica do conjunto e, necessitando cada vez mais, chegaríamos analiticamente a conceitos cada vez mais simples. Alcançando este ponto, teríamos que empreender novamente a viagem de retorno, até encontrar de novo a população, mas desta vez não teríamos uma representação caótica de um conjunto, mas uma rica totalidade com múltiplas determinações e relações (Marx, 1973, p 20-21).


Colocando a questão nos termos mais gerais dedutíveis do texto, pode-se dizer que Marx se refere, como ele próprio enuncia, à abordagem de “um dado país do ponto de vista da economia política”; mas, por outro lado, é óbvio que o procedimento se enquadra perfeitamente na conceituação do modo de produção capitalista, que é, de resto, o que ele de fato tinha em mente quando tentava, com essas notas (O método da economia política), encontrar caminhos de acesso a tal conceituação, empreendimento que levará a efeito na obra O capital, para cuja elaboração os Grundrisse constituíam parte essencial dos estudos preliminares.

Num caso, teórico - conceituação de modo de produção capitalista -, não é pela população que a investigação deve começar, mas pelas determinações mais simples, constitutivas e fundadoras dessa totalidade. Marx argumenta que não se pode ceder à tentação, como de fato acontecia com a economia política nascente, de começar pela população, porque começar a análise por tal ponto de partida levaria o analista a incorrer no erro de toma-la por um todo homogêneo, indiferenciado, não estruturado, ilógico; portanto, procedimento que o conduziria a erros cumulativos em toda a investigação subseqüente. É obvio que se poderia aduzir que a divisão da população em classes poderia ser feita depois; todavia, Marx argumenta, com perspicácia, que o correto e fecundo para a análise - do “dado país” ou do modo de produção capitalista, que são duas totalidades em si mesmas -, agora, não mais tão somente a população, mas a própria formação social capitalista como um todo - passa por um estágio que deve anteceder à sua abordagem específica e direta, e a questão passa a ser exatamente o problema posto em seus termos mais gerais: o de saber por quais categorias simples e fundantes se deve começar para alcançar uma dada realidade (totalidade) concreta. Assim, muito antes de se chegar à população ou ao conceito de modo de produção (capitalista, no caso), o itinerário está cheio de paradas obrigatórias que vão desaguar não só na população (dividida e formada por classes sociais), como na totalidade que contém e a reproduz na sua especificidade histórica. Trata-se, portanto, de cindir (não obviamente, como se faz com o método cartesiano) o objeto até se chegar a seus elementos mais simples e centrais - noções, conceitos, categorias, leis e relações. Por exemplo: a mercadoria e, dentro dela, trabalho, valor, mais-valia etc., são os elementos simples decisivos, na ausência dos quais, todavia, sem viagem de retorno, jamais o analista lograria caracterizar o todo (população, sociedade etc.) como uma síntese verdadeiramente dialética. Só dessa maneira a categoria totalidade estará pronta e apta para uso científico e, naturalmente, para as exigências da práxis social, (7) porque só desta forma pode-se evitar uma visão caótica do todo, o que só é possível se se descobre as relações, leis e categorias-chave - e, como pressuposto, uma hierarquia de determinações, em processo, entre as mesmas - capazes de dar acesso científico ao entendimento da população e do todo social como uma totalidade uma e articulada, embora contraditória em sua essência. De resto, essa articulação, que se desencadeia por todo o edifício social numa movimentação que não é “funcional”, linear, mecânica, mas dialética, tem, em alguns pontos nodais, suas principais determinações.

Quando a totalidade está assim posta ou reposta, ficam devidamente ressaltados alguns de seus traços constitutivos universais: em primeiro lugar, ela aparece como uma rede de relações, as fundadoras e as demais, a partir de uma determinada centralidade; em segundo, ela também aparece, simultaneamente, como uma unidade concreta das contradições que se chocam no seu interior e que exatamente expressam o seu conteúdo e o seu movimento; em terceiro, fica evidenciado o fato de que qualquer totalidade contém totalidades a ela subordinadas - totalidades internas e inferiores - e está contida em totalidades mais abrangentes, mais complexas e situadas numa escala superior; em quarto, e por último, fica também evidenciado o caráter histórico, portanto transitório, da totalidade, de qualquer totalidade dada. Nisso reside, finalmente, a categoria totalidade do ponto de vista da dialética materialista. É essa categoria que o método de Marx revela: uma totalidade jamais idealizada, porque esse método não finge que constrói o conhecimento, como fazem as grandes formulações idealistas, por meio de uma série de associações, total ou parcialmente arbitrárias, de idéias - porque descoladas dos aspectos decisivos do real concreto, em cuja transformação o sujeito que a pensa age direta e ativamente.

Mas, por onde se deve abordar analiticamente determinada totalidade? Esta é uma questão da maior importância para todos os que realizam investigações de caráter científico, mormente quando se trata da análise de totalidades sociais. No que se refere à questão Karel Kosik tem a seguinte opinião:


Aquilo de onde a ciência inicia a própria exposição já é resultado de uma investigação e de uma apropriação crítico-científica da matéria. O início da exposição já é um início mediato, que contém em embrião a estrutura de toda a obra. Todavia, aquilo que pode, ou melhor, deve constituir o início da exposição, isto é, do desenvolvimento científico (exegese) da problemática, ainda não é conhecida, no início da investigação. O início da exposição e o início da investigação são coisas diferentes. O início da investigação é casual e arbitrário, ao passo que o início da exposição é necessário (1976, p.31).


E, mais adiante, na mesma obra, ele conclui:


O capital, de Marx, começa (...) com a análise da mercadoria. Mas, como a mercadoria é uma célula da sociedade capitalista, como é o início abstrato cujo desenvolvimento reproduz a estrutura interna da sociedade capitalista, tal início da interpretação é o resultado de uma investigação, o resultado da apropriação científica da matéria. Para a sociedade capitalista a mercadoria é a realidade absoluta, visto que ela é a unidade de todas as determinações, o embrião de todas as contradições (...). Todas as determinações ulteriores constituem mais ricas definições ou concretizações deste “absoluto” da sociedade capitalista (...). Na investigação o início é arbitrário... (idem, o. 31-32).

Já da afirmação feita pelo mesmo Kosik, de que a mercadoria é “a realidade absoluta da sociedade capitalista”, e, complementarmente, que “todas as determinações ulteriores constituem mais ricas definições ou concretizações deste ‘absoluto’ da sociedade capitalista”, pode-se deduzir que a assertiva desse autor, acerca da casualidade da investigação científica de uma totalidade, deve ser relativizada.

Toda totalidade tem suas categorias-resumo, suas “unidades de todas determinações”, categorias mais densas e que, por isso mesmo, devem ser colocadas como chaves da própria investigação, e não só da exposição. Em tese, toda absoluta primeira investigação tem, de fato, algo de arbitrário, mas é preciso dar-se conta de que toda verdadeira investigação científica não constitui nem um ato e nem um início isolado e absoluto, antes é também um processo social e histórico de produção do conhecimento, ou seja, quase nunca é uma investigação totalmente nova e sem antecedentes que legasse patamares e pontos de partida criticamente abordáveis - com continuidades e rupturas. Assim, à medida que a própria investigação avança, e que, portanto, as descobertas de categorias sucessivas vão sendo feitas, as categorias-chave vão aparecendo, vão revelando as suas potencialidades no sentido apontado anteriormente e vão dando ordem à investigação à medida que vão revelando o caráter totalizante que possuem, de tal maneira que, depois de certo desenvolvimento da própria investigação, a casualidade vai sendo substituída pela necessidade no mesmo passo em que vão avançando, sucessivamente, as novas conexões entre categorias - fato que, se é verdadeiro para a continuidade de uma mesma investigação, passa a ser mais verdadeiro ainda para investigações futuras “iniciais”, nas quais aquelas categorias tornam-se pontos de partida necessários para os novos esforços e seus respectivos avanços. Seria, de fato, contra-senso e uma concessão ao empirismo manter uma investigação em eterno compasso de casualidade e arbitrariedade, não só depois da descoberta das categorias-chave dentro de um mesmo processo de investigação como entre vários e sucessivos processos de investigação posteriormente iniciados, nos quais aquelas mesmas categorias podem e devem ocupar destaque gnosiológico e lógico; como seria da mesma forma um contra-senso (uma atitude dogmática) não considerar tais categorias passíveis de crítica e portanto, de possíveis revisões de alcance variável. A considerar como legítima a assertiva absoluta de Kosik de que todo processo de investigação é necessariamente casual - e não só, como pensamos, apenas os processos absolutamente pioneiros e iniciais de investigação e, assim mesmo, não de maneira absoluta -, imputa-se à uma investigação, vista como um processo que une esforços de várias procedências e, inclusive, de várias gerações, uma circularidade que estaria se reproduzindo quase sempre do mesmo ponto de partida. No conjunto do processo historio geral de produção do conhecimento, esses inícios absolutos das investigações constituem exceção, não a regra. Cada todo exposto constitui, a nosso ver, uma seqüência de categorias dispostas que deve ser tomada como um ponto de partida necessário a cada nova investigação. E nem é por mero acaso que Marx, no texto que temos diante de nossa vista, insiste em dois métodos de estudo, não só de exposição, da Economia Política: aquele que ele atribui à “nascente economia”, que, a seu juízo, constitui o método falso, e o outro que ele reivindica como o certo, e que parte das categorias simples que constituem a chave para o êxito do processo de totalização teórica. No longo prazo, no plano do desenvolvimento histórico de toda e qualquer ordem de investigação rigorosamente científica, toda investigação tende a coincidir numa mesma ordem categorial, até mesmo quando a análise revela a necessidade de ultrapassagem, parcial ou total, desta ou daquela categoria ou mesmo de eventuais conjuntos de categorias. Destarte, podemos concluir que toda totalidade possui suas categorias-chave e que, no processo de investigação de cada uma delas, deve-se tomar categorias já comprovadamente eficazes para resultados rigorosamente científicos ou, em se tratando da primeira vez e do primeiro esforço de teorização/investigação, deve-se pinçar as categorias-chave à testa da análise tão logo sejam descobertas e identificadas como tais. Dessa forma, o empirismo vai sendo ultrapassado no próprio curso da investigação, à medida que a necessidade vai ultrapassando, nela e com ela, a casualidade aludida.

Deve-se notar, de resto, que no texto aqui analisado, Marx já está definitivamente rompido, distante e diferenciado de Hegel, no que diz respeito às relações entre ser e o pensamento: o pensamento agora não sai em busca de idéias “em si mesmas”, mas de idéias (noções, categorias, conceitos, leis etc.) que são capazes de expressar o mecanismo central de constituição e articulação do real concreto, a essência desse real concreto. Já as duas buscas mais fundamentais estão aqui combinadas numa mesma perspectiva, num mesmo movimento: a dos elementos simples e decisivos do concreto e a do uso abstrato do conceito, dois dos pilares centrais do método dialético de Marx. Cai por terra o princípio hegeliano de que é na idéia que reside esse mecanismo e seu impulso primário. A inversão gnosiológica está definitivamente feita (Cf. Hegel, 1968). O método dialético materialista já está posto e, embora não totalmente desenvolvido, na sua idade maior; e, para concluir, já está colocada, no plano teórico, a questão proposta, a do início da abordagem analítica de determinada totalidade.


Referências bibliográficas

Dosse, François. A História em migalhas - Dos Annales à Nova História. São Paulo: Unicamp, 1994.

Hegel, G. W. F. Ciência de la lógica. Argentina: Solar, 1968.

Kosik, Karel. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969.

Lukács, G. Existencialismo ou marxismo. São Paulo: Senzala, 1967.

Marx, Karl. Borrador. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 1973.

_________. El capital. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 1966.

Rodolsky, Roman. Gênese e estrutura de O Capital de Karl Marx. Rio de Janeiro: UERJ/Contraponto, 2001.


(1) Mais adiante será visto por que a afirmação de Lukács, de que as relações objetivas são “sempre determinadas”, não implica - ou não expressa - um determinismo “objetivo” (absoluto) no qual o elemento subjetivo não esteja presente com sua eficácia específica.

(2) A propósito do impacto negativo causado pelo abandono dessa categoria dialética nos domínios de importantes segmentos da historiografia contemporânea, consultar a obra de François Dosse (1994).

(3) Com efeito, alguns autores e algumas concepções, notadamente no âmbito da sociologia e fora da esfera teórica do marxismo, empregam o conceito de todo ou totalidade sem a observância dos pressupostos de que se fala mais acima. À propósito, escreve Kosik: “(...) a categoria da totalidade atingiu no século XX uma ressonância e notoriedade, mas ao mesmo tempo se viu continuamente exposta ao perigo de ser entendida unilateralmente ou de se transformar no seu oposto, isto é, de deixar de ser um conceito dialético. O sentido principal das modificações introduzidas no conceito de totalidade durante os últimos foi a sua redução a uma exigência metodológica e a uma regra metodológica na investigação da realidade. Essa degeneração do conceito resultava em duas banalidades: que tudo está em conexão com tudo, e que o todo é mais do que as partes” (Kosik, 1969, p.34).

(4) Como se verá em todo este escrito, o termo estrutura não comporta qualquer identificação com o significado que ele recebe em tendências ou escolas que, ao atribuir uma conotação de determinismo absoluto ou da mais completa ausência da ação social ao conceito, na verdade não fazem mais do que proceder a uma inaceitável hipóstase do mesmo.

(5) A esse respeito o leitor pode consultar o excelente livro de Romam Rosdolsky, Gênese e Estrutura de O Capital de Karl Marx, nomeadamente o Apêndice II (Rosdolsky, 2001).

(6) A dificuldade de captar todo um conjunto representativo de mediações num dado processo social sempre foi um grande obstáculo às predições de movimentos, ora para mais, ora para menos, mesmo por parte de leitores de conjunturas em perspectiva, do porte de Marx, Engels, Lênin e Trotsky. A análise desse tipo de dificuldade - a saber: a questão do tratamento que deve ser dado às mediações nas análises e predições pelo método marxista das análises de conjunturas - não será abordada neste estudo, pois se trata de problema complexo que merece, por isso mesmo, uma abordagem à parte.

(7) Essa afirmação não supõe que a elaboração dessas categorias seja um ato que anteceda ou que esteja acima ou fora da práxis social, como uma postura meramente contemplativa - no estilo platônico, por exemplo - da produção do “conhecimento”, mas, ao contrário, simultaneamente nela e com ela. Nos termos do marxismo, não existe coisa mais estranha ou inútil do que um pensamento que elabora distante de uma inserção prática no ato de transformação da realidade que é, simultaneamente, compreendida para ser transformada e transformada para ser continuamente compreendida.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A Totalidade, a Contradição e a Mediação - Leandro Konder

Observação do autor do blog: Este texto, ao nosso ver, se encaixa naquilo que podemos chamar: "marxismo vulgar". O alto nível de abstração em que o autor aborda o tema (sem levar em conta nenhum objeto determinado; como se a totalidade, a contradição e a mediação pairassem no ar), a indeterminação de categorias como a contradição; a falta de referências a O Capital de Marx e ao seu modo de exposição que tornam a totalidade, a mediação e a contradição apreensíveis enquanto momento em que é capturada a lógica do próprio objeto analisado, faz com que este texto do Konder pouco ou nada possa acrescentar, antes confundir. Aconselhamos a leitura de outros textos do blog como:

Da lógica com um grande “L” à lógica de O Capital - Hector Benoit



Capítulos extraídos do livro "O que é dialética" de Leandro Konder (Grifo meu)


Para a dialética marxista, o conhecimento é totalizante e a atividade humana, em geral, é um processo de totalização, que nunca alcança uma etapa definitiva e acabada. Mas o que quer dizer exatamente isso? O que significa totalizante? E o que significa totalização? Vamos trocar a coisa em miúdos.
Qualquer objeto que o homem possa perceber ou criar é parte de um todo. Em cada ação empreendida, o ser humano se defronta, inevitavelmente, com problemas interligados. Por isso, para encaminhar uma solução para os problemas, o ser humano precisa ter uma certa visão de conjunto deles: é a partir da visão do conjunto que a gente pode avaliar a dimensão de cada elemento do quadro. Foi o que Hegel sublinhou quando escreveu: “A verdade é o todo". Se não enxergarmos o todo, podemos atribuir um valor exagerado a uma verdade limitada (transformando-a em mentira), prejudicando a nossa compreensão de uma verdade mais geral.
Exemplo disso: alguém observa que o capitalista X é um homem generoso, progressista, sinceramente preocupado com seus operários. Essa observação pode ser correta. No entanto, é necessário entendê-la dentro de seus limites, para não perdermos de vista o fato de que ela nunca pode ser usada para pretender invalidar outra observação mais abrangente: a de que o sistema capitalista, por sua própria essência, impele os capitalistas em geral, quaisquer que sejam as qualidades humanas deles, a extraírem mais-valia do trabalho de seus operários.
A visão de conjunto - ressalve-se - é sempre provisória e nunca pode pretender esgotar a realidade a que ele se refere. A realidade é sempre mais rica do que o conhecimento que a gente tem dela. Há sempre algo que escapa às nossas sínteses; isso, porém, não nos dispensa do esforço de elaborar sínteses, se quisermos entender melhor a nossa realidade. A síntese é a visão de conjunto que permite ao homem descobrir a estrutura significativa da realidade com que se defronta, numa situação dada. E é essa estrutura significativa - que a visão de conjunto proporciona - que é chamada de totalidade.
A totalidade é mais do que a soma das partes que a constituem. No trabalho, por exemplo, dez pessoas bem entrosadas produzem mais do que a soma das produções individuais de cada uma delas, isoladamente considerada. Na maneira de se articularem e de constituírem uma totalidade, os elementos individuais assumem características que não teriam, caso permanecessem fora do conjunto.
Há totalidades mais abrangentes e totalidades menos abrangentes: as menos abrangentes, é claro, fazem parte das outras. A maior ou menor abrangência de uma totalidade depende do nível' de generalização do pensamento e dos objetivos concretos dos homens em cada situação dada. Se eu estou empenhado em analisar as questões políticas que estão sendo vividas pelo meu país, o nível de totalização que me é necessário é o da visão de conjunto da sociedade brasileira, da sua economia, da sua história, das suas contradições atuais. Se, porém, eu quiser aprofundar a minha análise e quiser entender a situação do Brasil no quadro mundial, vou precisar de um nível de totalização mais abrangente: vou precisar de uma visão de conjunto do capitalismo, da sua gênese, da sua evolução, dos seus impasses no mundo de hoje. E, se eu quiser elevar a minha análise a um plano filosófico, precisarei ter, então, uma visão de conjunto da história da humanidade, quer dizer, tia dinâmica realidade humana como um todo (nível máximo de abrangência da totalização dialética).
É evidente que, na prática, a vida coloca diante de mim problemas que eu tenho de resolver, em geral, sem necessidade de recorrer a cada passo a considerações de filosofia da história (isto é, ao nível de totalização mais abrangente). De certo modo, contudo, mesmo no dia-a-dia, nós estamos sempre, implicitamente, totalizando; estamos sempre trabalhando com totalidades de maior ou menor abrangência.
Para trabalhar dialeticamente com o conceito de totalidade, é muito importante sabermos qual é o nível de totalização exigido pelo conjunto de problemas com que estamos nos defrontando; e é muito importante, também, nunca esquecermos que a totalidade é apenas um momento de um processo de totalização (que, conforme já advertimos, nunca alcança uma etapa definitiva e acabada). Afinal, a dialética - maneira de pensar elaborada em função da necessidade de reconhecermos a constante emergência do novo na realidade humana - negar-se-ia a si mesma, caso cristalizasse ou coagulasse suas sínteses, recusando-se a revê-las, mesmo em face de situações modificadas.
A modificação do todo só se realiza, de fato, após um acúmulo de mudanças nas partes que o compõem. Processam-se alterações setoriais, - quantitativas, até que se alcança um ponto crítico que assinala a transformação qualitativa da totalidade. É a lei dialética da transformação da quantidade em qualidade. Por enquanto, o que devemos sublinhar é que a modificação do todo é mais complicada que a modificação de cada um dos elementos que o integram. E devemos sublinhar outra coisa: cada totalidade tem sua maneira diferente de mudar; as condições da mudança estariam dependendo do caráter da totalidade e do processo específico do qual ela é um momento. Vejamos um exemplo. Observemos a sociedade brasileira. Podemos analisá-la em três níveis distintos. Num primeiro nível, podemos estudar seu regime jurídico-político, suas leis, suas instituições, seu sistema administrativo, a estrutura do seu Estado. Num segundo nível, podemos mergulhar mais fundo e procurar examinar a história da sociedade brasileira, a relação existente entre sua vida política, seus problemas sociais e sua economia; podemos encará-la como formação sócio-econômica. E, finalmente, num terceiro nível, mais geral e mais abstrato, podemos fixar nossa atenção no modo de produção que se acha na base da formação sócio-econômica existente. Na prática, não é possível separar inteiramente as questões que se apresentam num desses níveis das questões que se manifestam nos outros dois; afinal, concretamente, elas são elementos de uma mesma realidade global, que é a sociedade brasileira. No entanto, focalizada no plano de cada uma das diversas totalizações mencionadas, essa realidade nos revela aspectos distintos, que nos ajudam a compor sua verdadeira fisionomia e a orientar de maneira mais realista nossa atividade tendente a transformá-la.
Em 1964, quando foi deposto o Presidente João Goulart, e em 1968, quando foi editado o AI-5, o Brasil sofreu uma importante modificação (em dois episódios): mudou o seu regime jurídico-político. Era necessário reconhecer a mudança qualitativa dessa totalidade, para extrair todas as conseqüências que se impunham, no plano estratégico (e não ficar se iludindo com a idéia de que tinha ocorrido uma mera "quartelada" cujos efeitos seriam passageiros). Ao mesmo tempo, porém, era preciso observar que, como formação sócio-econômica, o Brasil não sofrera nenhuma alteração significativa em 1964.ou em 1968.' A formação sócio-econômica, como totalidade, não muda no mesmo ritmo que o regime jurídico-político.
Ao longo destas últimas décadas, num ritmo bem mais lento que o do regime jurídico-político, a nossa formação sócio-econômica está-se modificando; em certos aspectos, com o crescimento econômico, com o avanço da industrialização, com a modernização conservadora (promovida de "cima" para "baixo"), a nossa formação sócio-econômica já mudou bastante e assumiu, inclusive, características qualitativamente novas. O que se passa, entretanto, com o modo de produção capitalista, no Brasil? Ele apresenta sinais de que está na iminência de sofrer alguma alteração qualitativa? Está na iminência de ser modificado como totalidade? Em vão, os revolucionários impacientes, acicatados pela pressa pequeno-burguesa, cansam-se na busca de indícios de que a "grande crise" do modo de produção capitalista no Brasil está próxima; tudo indica que esse modo de produção continua bastante forte.
Temos, então, três totalidades, elaboradas em três níveis diversos, exprimindo três processos diferentes de totalização e nos revelando três aspectos distintos (todos três importantíssimos) da mesma realidade brasileira.
A esta altura da nossa exposição, o leitor pode indagar: como é que eu posso ter certeza de que estou trabalhando com a totalidade correta, de que estou fazendo a totalização adequada à situação em que me encontro? A única resposta possível a esta pergunta se arrisca a ser decepcionante: não há, no plano puramente teórico, solução para o problema. A teoria é necessária e nos ajuda muito, mas por si só não fornece os critérios suficientes para nós estarmos seguros de agir com acerto. Nenhuma teoria pode ser tão boa a ponto de nos evitar erros. A gente depende, em última análise, da prática - especialmente da prática social - para verificar o maior ou menor acerto do nosso trabalho com os conceitos (e com as totalizações).
A teoria nos ajuda, fornecendo importantes indicações. Em relação à totalidade, por exemplo, a teoria dialética recomenda que nós prestemos atenção ao "recheio" de cada síntese, quer dizer, às contradições e mediações concretas que a síntese encerra.
Na investigação científica da realidade, a gente começa trabalhando com conceitos que são, ainda, sínteses muito abstratas. Marx dá o exemplo da população. A população é um todo, mas o conceito de população permanece vago se nós não conhecemos as classes de que a população se compõe. Só podemos conhecer concretamente as classes entretanto, se estudarmos os elementos sobre os quais elas se apoiam, na existência delas, tais corno o trabalho assalariado, o capital, etc. Tais elementos, por sua vez, supõem o comércio, a divisão do trabalho, os preços, etc. "Se começo pela população, portanto, tenho uma representação caótica do conjunto; depois, através de uma determinação mais precisa, por meio de análises, chego a conceitos cada vez mais simples. Alcançado tal ponto, faço a viagem de volta e retorno à população. Dessa vez, contudo, não terei sob os olhos um amálgama caótico e sim uma totalidade rica em determinações, em relações complexas." Esse texto de Marx é de grande interesse para nós. O ponto de partida - observemos - não é um conceito rudimentar: é uma expressão que designa, ainda confusamente, uma realidade complicada. A análise, portanto, só pode ser orientada com base em uma síntese (mesmo precária) anterior. Uma certa compreensão do todo precede a própria possibilidade de aprofundar o conhecimento das partes.
Mas o texto ainda diz mais: por análise, eu decomponho e recomponho o conhecimento indicado na expressão que me serviu de ponto de partida. No fim, realizada a viagem do mais complexo (ainda abstrato) ao mais simples e feito o retorno do mais simples ao mais complexo (já concreto), a expressão população passa a ter um conteúdo bem determinado. O concreto, portanto, é o resultado de um trabalho. "0 concreto" - insiste Marx - "é concreto porque é a síntese de várias determinações diferentes, é unidade na diversidade." A concepção de Marx, segundo a qual o conhecimento não é um ato e sim um processo, desenvolveu-se em polêmica contra a concepção irracionalista. Os irracionalistas consideram a intuição um instrumento privilegiado do conhecimento humano; para eles, o que é "sacado" intuitivamente já possui valor de verdade, de modo que não existe nenhum motivo para nós trilharmos o trabalhoso caminho indicado por Marx: a impressão genérica obtida no ponto de partida já nos basta. O irracionalismo desestimula o ser humano a realizar o paciente esforço de ir além da aparência, em busca da essência dos fenômenos. E as "totalidades" dos irracionalistas permanecem um tanto vazias, não têm um "recheio" definido.
A dialética é muito mais exigente do que o irracionalismo. Para reconhecer as totalidades em que a realidade está efetivamente articulada (em vez de inventar totalidades e procurar enquadrar nelas a realidade), o pensamento dialético é obrigado a um paciente trabalho: é obrigado a identificar, com esforço, gradualmente, as contradições concretas e as mediações específicas que constituem o "tecido" de cada totalidade, que dão “vida” a cada totalidade.
"A dialética" - observa Carlos Nelson Coutinho - "não pensa o todo negando as partes, nem pensa as partes abstraídas do todo. Ela pensa tanto as contradições entre as partes (a diferença entre elas: a que faz de uma obra de arte algo distinto de um panfleto político) como a união entre elas (o que leva a arte e a política a se relacionarem no seio da sociedade enquanto totalidade)". Os irracionalistas, implicitamente, dispensam-nos desse esforço. Quem achar que já "saciou" intuitivamente o todo não precisará examinar cuidadosamente as partes. Mas também não terá uma compreensão clara das conexões e conflitos internos e ficará com uma totalidade um tanto nebulosa.
Já Hegel criticava a concepção irracionalista que seu ex-amigo Schelling adotara da totalidade (do absoluto), dizendo que se tratava de uma noite na qual todas as vacas eram pardas. Para que o nosso conhecimento avance e o nosso laborioso (e interminável) descobrimento da realidade se aprofunde - quer dizer: para nós podermos ir além das aparências e penetrar na essência dos fenômenos - precisamos realizar operações de síntese e de análise que esclareçam não só a dimensão imediata como também e, sobretudo, a dimensão mediata delas.
A experiência nos ensina que em todos os objetos com os quais lidamos existe uma dimensão imediata (que nós percebemos imediatamente) e existe uma dimensão mediata (que a gente vai descobrindo, construindo ou reconstruindo aos poucos). Vejamos, por exemplo, este livrinho sobre a dialética que está nas mãos do leitor: é uma realidade imediata, palpável, legível; um conjunto de folhas impressas com símbolos gráficos. Mas não é só isso. Se o leitor parar um pouco para pensar sobre ele, verificará que o fato de p livro estar em suas mãos passa por uma série de mediações, é um fato que está mediatizado por outros fatos e por diversas ações humanas.
A mediação mais próxima a ser reconstituída é a do deslocamento do livro: como foi que ele veio parar nas mãos do leitor? O leitor comprou-o numa livraria? Recebeu-o de presente? Está lendo o volume numa biblioteca? Há também uma mediação subjetiva: qual foi o motivo que levou o leitor a se interessar pelo livrinho? Por que este livro e não outro? Quando e como o leitor passou a ter a impressão ou a convicção de que o assunto do livro era digno de atenção e valia a pena lê-lo? Quais foram as experiências pessoais e os condicionamentos culturais que o levaram a isso?
Somente levando em conta essas (e outras) mediações é que poderemos avaliar corretamente toda a significação do fato de o livro estar, agora, neste imediato momento, nas mãos' do leitor.
As mediações, entretanto, obrigam-nos a refletir sobre outro elemento insuprimível da realidade: as contradições. Há muita confusão em torno da palavra contradição. Desde que Hegel expôs pela primeira vez os fundamentos do método dialético, uma das principais objeções formuladas contra ele - uma objeção até hoje repetida - é a de que o conceito de contradição usado pelos dialéticos estaria errado.
Durante séculos, a hegemonia do pensamento metafísico nos acostumou a reconhecermos somente um tipo de contradição: a contradição lógica. A lógica, como toda ciência, ocupa-se da realidade apenas em um determinado nível; para alcançar resultados rigorosos, ela limita o seu campo e trata de uma parte da realidade.
As leis da lógica são certamente válidas, no campo delas; e - nesse campo de validade - a contradição é a manifestação de um defeito no raciocínio.
Existem, porém, dimensões da realidade humana que não se esgotam na disciplina das leis lógicas. Existem aspectos da realidade humana que não podem ser compreendidos isoladamente: se queremos começar a entendê-los, precisamos observar a conexão íntima que existe entre eles e aquilo que eles não são. Henri Lefebvre escreveu, com razão: "Não podemos dizer ao mesmo tempo que determinado objeto é redondo e é quadrado. Mas devemos dizer que o mais só se define com o menos, que a dívida só se define pelo empréstimo".
As conexões íntimas que existem entre realidades diferentes criam unidades contraditórias. Em tais unidades, a contradição é essencial: não é um mero defeito do raciocínio. Num sentido amplo, filosófico, que não se confunde com o sentido que a lógica confere ao termo, a contradição é reconhecida pela dialética como princípio básico do movimento pelo qual os seres existem. A dialética não se contrapõe à lógica, mas vai além da lógica, desbravando um espaço que a lógica não consegue ocupar.