terça-feira, 11 de agosto de 2009

A agonia do capitalismo e a questão do programa - Leon Trotsky

Algumas transcrições de debates com Leon Trotsky sobre a questão do programa, a primeira delas é o famoso "Debate entre Trotsky (Crux) e os membros do SWP sobre a agonia do capitalismo". Retirados de: http://www.archivoleontrotsky.org/phl/www/arquivo/MV20pt/mv20p-12t.pdf (grifo meu)

Questão:
É muito importante precisar alguns pontos sobre a questão do programa em geral. Como podemos construir um verdadeiro programa?

Crux: Alguns companheiros dizem que este rascunho de programa não corresponde suficientemente ao estado de espírito e ao humor dos trabalhadores norte-americanos; é por isso que nós devemos nos perguntar se este programa deve ser adaptado à mentalidade dos trabalhadores, ou, ao contrário, se ele deve corresponder à situação real, econômica e social, que é a deste país. É a questão mais importante.

Nós sabemos que a consciência de cada classe social é determinada pelas condições objetivas, pelas forças produtivas, pelo estado econômico do país, mas esta determinação não se realiza de maneira mecânica. A consciência, em geral, é mais lenta; ela é mais lenta em relação ao desenvolvimento econômico, de um modo que pode ser mais ou menos acentuado. Em tempos de normalidade, quando o desenvolvimento é lento, quando as coisas progridem suavemente, este atraso pode não ter conseqüências catastróficas. Em uma grande medida, este atraso significa que os trabalhadores não estão à altura das tarefas impostas pelas condições objetivas. Quando há uma crise, ao contrário, este atraso pode ser catastrófico. Na Europa, por exemplo, suscitou o fascismo. O fascismo é o castigo a que se expõem os trabalhadores quando eles conseguem tomar o poder.

Hoje os Estados Unidos entram em uma fase análoga e conhecem perigos análogos. A situação objetiva do país é, em todos os aspectos, madura para a Revolução Socialista, e a passagem para o socialismo, mais madura do que na Europa, mais madura talvez que em qualquer outro país do mundo. Mas o atraso político da classe operária norte-americana é extremo. Isto significa que o perigo de uma catástrofe fascista é realmente grande. Esta análise é o ponto de partida de toda nossa atividade. O programa deve exprimir muito mais as tarefas objetivas dos trabalhadores do que seu atraso político. O programa deve dar conta da sociedade tal como ela é, sendo ele próprio um instrumento para lutar contra esta mentalidade política atrasada da classe operária, e para vencê-la.

É por essa razão que devemos, em nosso programa, nos preocuparmos em mostrar toda a amplidão da crise social que abala a sociedade capitalista, na qual os Estados Unidos aparecem em primeiro lugar. Não podemos, por nós mesmos, fixar os prazos ou modificar as circunstâncias que não dependem de nós. Não podemos garantir que as massas resolverão a crise, mas nós devemos dar conta da situação tal como ela é: esta é a tarefa deste programa.

Uma outra questão é a de saber como apresentar o programa para os trabalhadores. É mais uma questão de pedagogia, de escolha dos termos. Ela, a política deve se regular apenas sobre a questão essencial, a do desenvolvimento das forças produtivas e da suspensão deste desenvolvimento pela forma capitalista de organização da propriedade, e seu resultado, o desemprego crescente, o maior de todos os flagelos sociais. As forças produtivas não podem se desenvolver mais. A ciência e a tecnologia se desenvolvem, mas as forças materiais declinam. Isto significa que a humanidade se empobrece mais e mais, que o número de desempregados aumenta. A miséria das massas se aprofunda, as dificuldades tornam-se cada vez maiores, tanto para a burguesia como para os trabalhadores; a burguesia só tem como solução o fascismo; a crise que se aprofunda obriga a burguesia a abolir os vestígios de democracia. O proletariado norte-americano corre grande risco de pagar por sua falta de organização, de vontade e de coragem, com 20 ou 30 anos de purgatório fascista. É então, com o cassetete de aço que a burguesia ensinará aos trabalhadores norte-americanos seu dever revolucionário. A América do Norte verá a experiência européia se reproduzir em escala gigantesca. Nós devemos ter absoluta consciência disto tudo.

Isto é extremamente sério, camaradas. Trata-se do futuro que se apresenta para os trabalhadores norte-americanos. Após a vitória de Hitler, quando Trotsky redigia a brochura “Para onde vai a França?”, os social-democratas franceses riram deste texto: “A França não é a Alemanha”. Mas antes da vitória de Hitler, ele tinha escrito muitas brochuras para prevenir os trabalhadores alemães, e os social-democratas tinham também zombado: “A Alemanha não é a Itália”. Hoje é a França que a cada dia se aproxima mais de um regime fascista. É a mesma coisa com relação aos Estados Unidos. A América do Norte tem reservas de petróleo, são reservas do passado que permitiram a experiência de Roosevelt , mas elas se esgotam... A situação geral é por toda parte igual, o perigo é o mesmo.

É verdade que a classe operária norte-americana tem uma mentalidade pequeno-burguesa, que lhe falta solidariedade que está habituada a um nível de vida elevado, mas a mentalidade da classe operária norte-americana não corresponde à realidade de hoje: ela é reflexo de lembranças de um tempo que acabou.

Hoje, a situação é radicalmente diferente. O que pode fazer um partido revolucionário em face desta situação? Em primeiro lugar, cabe a ele dar uma imagem exata da situação, e das tarefas históricas que dela decorrem, os trabalhadores estejam ou não prontos para assumir estas tarefas. Nossas tarefas não dependem do estado de espírito dos trabalhadores. Elas consistem no desenvolvimento de sua consciência. Eis o que o programa deve formular e apresentar aos trabalhadores avançados.

Alguns dirão: “De acordo, este programa é um programa científico, corresponde à situação real, mas se os trabalhadores não o tomam como seu, ele permanecerá estéril”. Isto pode acontecer. Mas isto significaria somente que os trabalhadores serão esmagados antes que a crise possa ter sido resolvida no sentido da revolução socialista. Se o operário norte-americano não faz seu este programa no tempo necessário, será obrigado a aceitar o programa do fascismo. Quando nos apresentarmos diante da classe operária com o nosso programa, não poderemos fornecer nenhuma garantia quanto à sua recusa, ou a sua aceitação por esta mesma classe operária. Não poderemos fazer que seja nossa essa responsabilidade... nós apenas podemos nos responsabilizar por nós mesmos.

Devemos dizer a verdade aos trabalhadores, é desse modo que ganharemos os melhores elementos. Não sei se esses elementos mais avançados serão capazes que conduzir a classe operária ao poder ; eu espero que sejam capazes disso, mas nada nos pode garantir que ocorra assim.

Mas, mesmo no pior dos casos, se a classe operária não mobiliza todas as suas forças, todos os seus recursos, para a Revolução Socialista, se cair sob a bota do fascismo, os operários mais avançados ainda assim poderão testemunhar: “Este partido nos tinha advertido: era o melhor”. Esta será a marca de uma grande tradição que permanecerá presente na classe operária.

Esta é evidentemente a pior das hipóteses. Mas esta demonstra que todos os argumentos segundo os quais não poderíamos apresentar um tal programa porque não corresponde ele à mentalidade das massas, são falsos argumentos, que apenas revela o medo ressentido dos seus partidários, diante da situação atual.

Evidentemente, se eu fechasse os olhos, poderia redigir um belo programa muito otimista, que todo mundo aceitaria. Mas este programa não corresponderia à situação, e convém a um programa que corresponda antes de tudo à situação objetiva. Creio que este argumento elementar é um elemento definitivo.

A consciência de classe dos trabalhadores está atrasada em relação aos acontecimentos, mas a consciência de classe não é uma coisa que é feita dos mesmos materiais que as usinas, as minas e os trens: ela é feita de uma matéria mais maleável, e sob o impacto da crise, sob o peso de milhões de desempregados, ela pode se modificar.

Hoje, o proletário norte-americano retira algumas vantagens de seu atraso político. Isto pode parecer paradoxal, mas é assim mesmo. Os trabalhadores europeus conheceram uma longa tradição social-democrata, conheceram a tradição do Komintern, e estas tradições são forças conservadoras. Mesmo após numerosas traições, os trabalhadores continuam fiéis a suas organizações, porque estas organizações lhes despertaram pela primeira vez., porque deram a eles uma cultura política. Isto constitui um handicapando se trata de escolher uma orientação nova. Os trabalhadores norte-americanos têm uma vantagem: na sua maioria, não são organizados, e apenas começam a aderir aos sindicatos. Isto dá ao partido revolucionário a possibilidade de os mobilizar para conjuntamente se protegerem dos abalos da crise.

Em que velocidades estes acontecimentos irão se produzir? Ninguém sabe: podemos simplesmente dar a orientação geral que ninguém possa contestar. É somente em seguida que aparece a questão da apresentação deste programa aos trabalhadores: naturalmente, é uma questão muito importante; nós devemos aplicar à política o que sabemos de pedagogia e psicologia das massas, para construir uma ponte para chegar ao espírito dos trabalhadores.

Somente a experiência pode nos ensinar neste domínio. Durante um tempo, devemos nos esforçar de modo a concentrar a atenção dos trabalhadores sobre um ponto preciso: a escala móvel de salários e de horas de trabalho.

O empirismo dos trabalhadores norte-americanos possibilitou aos partidos políticos de obter sucesso com uma ou duas idéias essenciais, como o imposto único, o bimetalismo, etc. Estas idéias são, nas massas, como rastro de pólvora: quando as massas constatam que uma panacéia nada vale, elas se precipitam em direção a uma outra.

Nós, hoje, podemos apresentar um remédio honesto, que não é demagógico, que é parte integrante de nosso programa, e que corresponde totalmente à situação presente.

As estatísticas oficiais anunciam 13 ou 14 milhões de desempregados; na realidade, deve-se calcular entre 16 e 20 milhões. Os jovens particularmente estão submetidos à miséria. Roosevelt enfatiza hoje os trabalhos públicos. Mas nós, nós queremos que todos tenham trabalho, tanto nos trabalhos públicos como nas minas, nas ferrovias, etc... Nós queremos que cada um possa viver de maneira decente; em todo caso, a um nível igual àquele de hoje, e nós exigimos de Roosevelt e de seu brain trust que organizem seu programa de trabalhos públicos de tal maneira que todo mundo possa trabalhar com salários decentes. Isto é possível com a escala móvel de salários e das horas de trabalho. Em toda parte, em todas as localidades, devemos refletir sobre a forma de apresentar estas idéias. Em seguida devemos organizar uma campanha de agitação, de tal maneira que cada um saiba que este é o programa do Socialist Workers Party. Penso que podemos concentrar a atenção dos trabalhadores sobre este ponto. Evidentemente, este não é o único, mas é totalmente adaptado à situação presente: os outros podem ser acrescentados à proporção que esta idéia tome conta das massas. Os burocratas a isto se irão se opor. Se esta idéia tomar conta das massas, as tendências fascistas se organizarão para responder. Então diremos que é preciso desenvolver piquetes de auto-defesa.

Penso que, de início, os trabalhadores adotarão esta reivindicação da escala móvel dos salários e de horas de trabalho. Mas, no fundo, o que é esta reivindicação? Na realidade, é a descrição do sistema de organização do trabalho na sociedade socialista. O número total das horas necessárias, dividido pelo número total de trabalhadores. Mas, se nos apresentarmos, de uma só vez, o sistema socialista, seremos chamados de utópicos pelo norte-americano médio, que nos dirão que estas são idéias emprestadas da Europa. Apresentamos então este sistema como a solução para a crise, que assegurará aos trabalhadores seu direito a se alimentar, a viver em moradias decentes, em condições decentes: este é o próprio programa socialista, na sua forma mais simples, e a mais próxima das massas.

Questão: Como organizar o campo para este programa?

Crux: Poderíamos imaginar esta campanha se desenvolvendo da seguinte maneira: começa-se a agitação, por exemplo em Minneapolis. Vocês ganham um ou dois sindicatos para este programa. Em seguida vocês enviam delegados para outras cidades, para diferentes sindicatos. Quando este programa sair do partido para penetrar nos sindicatos, vocês terão ganhado a metade da batalha. Vocês enviarão delegados a Nova Iorque, a Chicago, aos mesmos sindicatos. Quando obtiverem sucesso vocês convocaram um congresso especial. Isto pressionará os burocratas a tomar posição pro ou contra: o debate será então público, e fornecerá magníficas oportunidades de propaganda.

Questão: Este programa pode ser realizado hoje?

Crux: É mais fácil derrubar o capitalismo do que garantir efetivamente a escala móvel dos salários e das horas de trabalho no quadro do sistema capitalista. Nenhuma de nossas reivindicações será realizada neste quadro, e é esta a razão de as chamarmos de reivindicações transitórias: elas estabelecem uma ponte que nos permite chegar aos trabalhadores, e uma verdadeira ponte para ir até a revolução socialista. Toda questão é saber como mobilizar as massas para o combate: a questão da divisão entre trabalhadores e desempregados, por exemplo, se coloca neste quadro. Devemos encontrar o meio de superar esta divisão. A idéia de uma classe à parte, a classe dos desempregados, dos novos parias, é uma idéia que faz parte da preparação psicológica ao fascismo. Se a classe operária não consegue superar esta divisão, sobretudo ao nível sindical, tudo estará perdido.

Questão: Muitos camaradas não conseguem compreender porque esta reivindicação não pode ser satisfeita.

Crux: É uma questão muito importante. Este programa não é a invenção de um homem. Decorre ele da longa experiência dos bolcheviques. Repito: este programa é a concretização da experiência coletiva dos revolucionários. É a aplicação dos velhos princípios à situação atual. Não é preciso considerá-lo como fixado definitivamente no mármore, mas como adaptável à situação objetiva.

Os revolucionários sempre consideram as reformas e as conquistas como sub-produtos da luta revolucionária. Se nos contentarmos em reivindicar o que podemos obter, a classe dominante nos concederá a décima parte, ou nada. Se pedirmos mais e pudermos impor nossas reivindicações, os capitalistas serão obrigados a conceder o máximo. Quanto mais os trabalhadores sejam combativos e exigentes, mais poderemos exigir e obter. Nossas reivindicações não são slogans estéreis, elas são instrumentos de pressão sobre a burguesia. No passado, durante o período esplendoroso do capitalismo norte-americano, os trabalhadores obtinham vantagens pelo simples fato de terem se lançado empiricamente na luta, com espírito bastante militante. A situação atual é muito diferente.

Os capitalistas não têm uma era de prosperidade aberta diante deles. Não têm medo das greves, tendo em vista o número de trabalhadores a espera de um emprego. È por isso que o programa deve procurar unir as duas partes da classe operária, os trabalhadores e os desempregados. É isto precisamente o que faz a escala móvel dos salários e das horas de trabalho.


Um resumo das reivindicações transitórias (23 de março de 1938)
Trotsky – Nas discussões anteriores, alguns camaradas ficaram com a impressão de que algumas de minhas propostas ou reivindicações eram oportunistas, e outros, que eram demasiado revolucionárias, que não correspondiam à situação objetiva. E essa mistura é muito arriscada; por isso defenderei rapidamente esta aparente contradição.
Qual é a situação geral nos EUA e no mundo todo? A crise econômica não tem precedentes, a crise financeira dos diversos países é a mesma, e o perigo de guerra é iminente. É uma crise social sem precedentes. Durante sete, oito ou nove anos achamos que o capitalismo americano apresentaria uma maior resistência, mas os fatos demonstraram que o capitalismo americano, ou seja, um capitalismo apoplético, talvez esteja mais perto do colapso que nenhum outro. A crise americana é uma crise social, não conjuntural. Esta crise social – agora chamada recessão – ganha contornos de extrema gravidade. Não é o final da recessão.
As dificuldades financeiras dos países – naturalmente, a nação é muito rica e o Estado pode pedir emprestado à nação, mas isso significa que na base da crise financeira temos uma crise do Estado. Podemos dizer que temos uma crise política da classe dominante. A prosperidade desapareceu; ninguém acredita que voltará. E esse fato reflete-se na crise política dos democratas e republicanos. As classes dominantes estão desorganizadas e buscam um novo programa. O programa de Roosevelt é experimental, para não dizer aventureiro, no sentido capitalista. Isso representa uma premissa extraordinariamente fundamental para uma situação revolucionária. Isso vale para o mundo e vale para os EUA, e talvez seja especialmente certo para os EUA.
Agora, a questão do proletariado. Temos uma mudança muito grande na situação da classe operária. Em alguns artigos do Socialist Appeal e do New Internacional li, com grande interesse e alegria, que está aumentando o sentimento do operário americano de que é um operário, que não é o velho espírito explorador de que seria operário temporariamente; agora é um operário permanente, e até mesmo um desempregado permanente. Essa é a base para todos os demais progressos da classe operária. Então tivemos as greves de braços cruzados. Em minha opinião, elas não tiveram precedentes no movimento operário dos EUA. Como resultado desse movimento, a criação e crescimento da CIO. Também temos a tendência a construir o partido operário, a LNPL.
Não conheço suficientemente bem o passado ou o presente do movimento operário da América. Mas, em geral, poderia dizer que em 1924 o movimento era mais imponente; no entanto, as premissas sociais estão agora incomparavelmente mais maduras. Por isso, o significado do partido operário é mais importante hoje. Mas não posso dizer que todas as condições estão dadas no mesmo grau ou no mesmo nível. Podemos dizer, se tomarmos a situação geral do mundo – as contradições imperialistas, a posição do capitalismo americano, a crise e o desemprego, a posição do Estado americano como expressão da economia americana, da burguesia americana, o estado de animo político da classe dominante, a desorientação, e também a posição da classe operária -, podemos dizer, se levarmos tudo isto em consideração, que a premissa está mais madura para a revolução.
À medida que avançamos dessas premissas fundamentais em direção à super-estrutura, à política, percebemos que não estão tão maduras. As contradições internas do capitalismo americano – a crise e o desemprego – estão
incomparavelmente mais maduras para uma revolução que a consciência dos operários americanos. Estes são os dois pólos da situação. Podemos dizer que a situação se caracteriza por um super-amadurecimento de todas as premissas sociais fundamentais para a revolução, fato que pessoalmente não previ há oito ou nove anos.
Por outro lado, graças a essa rapidez e ao aumento da decomposição das condições materiais dos EUA, a consciência das massas – apesar de que aqui também podemos comprovar um progresso notável – continua atrasada em comparação com as condições objetivas. Sabemos que as condições subjetivas – a consciência das massas, o crescimento do partido revolucionário – não são um fator fundamental. Depende da situação objetiva; em última instância, o próprio elemento subjetivo depende das condições objetivas, mas esta dependência não é um processo simples.
Durante o último ano observamos na França um fenômeno muito importante e instrutivo para os camaradas dos EUA. Podemos dizer que a situação era quase tão madura como nos EUA. O movimento operário havia adquirido um ímpeto enorme. Os sindicatos passaram de menos de um milhão para cinco milhões em questão de meses. As greves de braços cruzados na França eram muito mais potentes que nos EUA. Os operários estavam dispostos a fazer qualquer coisa, a chegar ao limite. Por outro lado, vimos o aparato da Frente Popular; pela primeira vez podíamos demonstrar a importância histórica da traição da Komintern. Como a Komintern passara a ser um aparato para a manutenção social do capitalismo, a desproporção entre os fatores objetivos e subjetivos ganhou uma agudeza terrível, e a Frente Popular converteu-se no maior obstáculo para canalizar esta grande corrente revolucionária das massas. E tiveram êxito até certo ponto. Não podemos prever o que acontecerá amanhã, mas na França conseguiram deter o movimento de massas, e agora vemos os resultados: o giro à direita – Blum converte-se num dirigente que forma governos nacionais, a união sagrada para a guerra -, mas é um fenômeno secundário. O mais importante é que temos em todo o mundo, como nos EUA, esta desproporção entre o fator objetivo e o subjetivo, mas nunca foi tão aguda como agora.
Nos EUA temos um movimento de massas para superar esta desproporção; o movimento de Green a Lewis; de Walter a La Guardia. Este é um movimento para superar a contradição fundamental. O PC joga nos EUA o mesmo papel que na França, mas a una escala mais modesta. O rooseveltismo substitui o frente-populismo da França. Nestas condições, nosso partido deve ajudar os operários a superar esta contradição.
Quais são as tarefas? As tarefas estratégicas consistem em ajudar as massas, em adaptar sua consciência política e psicológica à situação objetiva, em superar as tradições nocivas dos operários americanos e adaptá-la [sua consciência] à situação objetiva da crise social de todo o sistema.
Nesta situação – levando em conta a pouca experiência e a criação da CIO, as greves de braços cruzados, etc. – temos todo o direito de ser mais otimistas, mais intrépidos, mais agressivos em nossa estratégia e nossa tática –
não aventureiros -, mas para levantar bandeiras que não estão no vocabulário da classe operária americana.
Qual é o sentido do programa de transição? Podemos chamá-lo um programa de ação, mas para nós, para nossa concepção estratégica, é um programa de transição: é uma ajuda para que as massas possam superar as idéias, métodos e formas herdadas e para adaptar-se às exigências da situação objetiva. Esse programa de transição deve incluir as reivindicações mais simples. Não podemos prever e propor as reivindicações locais e sindicais adaptadas à situação local de uma fábrica, nem o desdobramento dessa reivindicação até a bandeira de criação de um soviete operário.
Ambos são pontos extremos do desenvolvimento de nosso programa de transição para encontrar os passos que conduzam as massas à idéia da conquista revolucionária do poder. Por isso, algumas reivindicações parecem muito oportunistas, porque estão adaptadas à consciência atual dos operários. Por isso, outras reivindicações parecem demasiado revolucionárias, porque refletem mais a situação objetiva do que a consciência atual dos operários. Nosso dever é reduzir ao máximo possível essa brecha entre os fatores objetivos e subjetivos. Por isso, não podemos subestimar a importância do programa de transição.
Vocês podem argumentar que não podemos prever a medida e o ritmo das coisas e que possivelmente a burguesia encontrará um recesso político – não está excluído -, mas então seremos obrigados a fazer uma retirada estratégica. No entanto, na situação atual, devemos estar preparados para uma ofensiva estratégica, não para uma retirada. Essa ofensiva estratégica deve estar guiada pela idéia da criação de sovietes operários, para a criação de um governo operário e camponês. Não proponho que se lance imediatamente a bandeira dos sovietes – por muitas razões, e especialmente porque a palavra não tem para os operários americanos a importância que teve para os operários russos – para prosseguir daí em direção à ditadura do proletariado. É muito provável que,
da mesma forma que vimos nos EUA as greves de braços cruzados, vejamos também uma forma nova, algo equivalente aos sovietes. Provavelmente não tenha esse nome. A certa altura, os sovietes podem ser substituídos pelos comitês de fábrica, depois passar da escala local para a escala nacional. Não podemos adivinhar, mas nossa orientação estratégica para o próximo período vai em direção aos sovietes. Todo o programa de transição deve preencher os vazios que existam entre as condições do presente e os sovietes do futuro” (…).


Como as mudanças econômicas influem no ânimo das massas(20 de julho de 1938)

Pergunta - Que influência pode ter a “prosperidade”, um crescimento econômico do capitalismo americano no próximo período, sobre nossa atividade baseada no programa de transição?

Trotsky – É muito difícil responder, porque é uma equação com muitos elementos e magnitudes desconhecidas. A primeira questão é se uma melhoria conjuntural é provável no futuro próximo. É muito difícil responder, especialmente para uma pessoa que não acompanha os dados diariamente. Como vejo no New York Times, os especialistas estão muito indecisos sobre a questão. No New York Times do último domingo, o índice de negócios mostrava uma tendência muito confusa. Durante a última semana houve uma perda, duas semanas antes, um ascenso, e assim sucessivamente.
Se considerarmos o marco geral, vemos que começou uma nova crise, que há uma linha descendente quase vertical até janeiro deste ano, depois a linha fica vacilante, uma linha em ziguezague, mas com tendência geral descendente. No entanto, a queda durante este ano é sem dúvida mais lenta que durante os nove meses do ano passado.
Se examinarmos o período precedente, que começou com a débâcle de 1929, vemos que a crise continuou quase três anos e meio antes de que começara o ascenso, com alguns altos e baixos mais leves, que duraram quatro anos e meio – foi a “prosperidade” de Roosevelt. Assim, o último ciclo foi de 8 anos, 3 anos e meio de crise e 4 anos e meio de relativa “prosperidade”. Considera-se um período de oito anos como um prazo normal para um ciclo capitalista.
Agora, a nova crise começou em agosto de 1937, e em nove meses atingiu o ponto que a anterior havia atingido em dois anos e meio. É difícil emitir agora um prognóstico sobre a volta e o momento de um novo crescimento. Se considerarmos a nova “débâcle” do ponto de vista de sua intensidade, repito, a crise fez o trabalho de dois anos e meio; no entanto, não atingiu o ponto mais baixo da crise anterior. Se considerarmos a nova crise do ponto de vista da duração – nove anos, ou sete ou oito -, seria muito cedo para um novo movimento ascendente. Por isso, repito, este prognóstico é difícil. É inevitável que a nova crise chegue ao mesmo ponto – o ponto mais baixo – o mesmo que a crise anterior? É provável, mas não é absolutamente seguro.
A característica do novo ciclo é que a “prosperidade” não atingiu o ponto superior da precedente, mas daí não se pode tirar uma conclusão, de forma abstrata, sobre o futuro. O que caracteriza a prosperidade de Roosevelt é que foi um movimento principalmente das indústrias leves, não da construção ou das indústrias pesadas. Isso fez com que esse movimento evoluísse de forma muito limitada. Essa é justamente a razão pela qual a débâcle chegou de forma tão catastrófica, porque o novo ciclo não tinha uma base sólida nas indústrias pesadas, especialmente nas de construção, que se caracterizam por novos investimentos com uma perspectiva de longo prazo, etc.
Agora podemos supor teoricamente que o novo movimento ascendente abarcará, além das indústrias de construção, as indústrias pesadas em geral porque, apesar do consumo durante o último período, a maquinaria não foi renovada suficientemente e agora a demanda será maior do que foi durante a última conjuntura. É possível que provoque um movimento ascendente maior e mais sólido que o anterior. Isso não é em absoluto contraditório com nossa análise geral de um capitalismo decadente, enfermo, que produz cada vez mais miséria. Essa possibilidade teórica se apóia, até certo ponto, nos investimentos militares em trabalhos de utilidade pública. Isso significa, de um amplo ponto de vista histórico, que a nação se empobrece para permitir melhores conjunturas no presente e no futuro. Podemos comparar tal conjuntura com um enorme dispêndio para o organismo geral. Pode-se considerar possível una nova conjuntura pré-bélica, mas quando terá início? Continuará o movimento descendente? É possível, provável. Nesse sentido, teremos no próximo período não 13 ou 14 milhões, mas 15 milhões de desempregados. Nesse sentido, tudo o que dissemos sobre o programa de transição será reforçado em cada um de seus aspectos, mas adotamos a hipótese de um novo movimento ascendente nos próximos meses, em seis meses ou um ano. Tal movimento pode ser inevitável.
À primeira questão - se esse movimento ascendente pode ser mais favorável para a perspectiva geral de nosso partido - creio que podemos respondercom um sim categórico, que seria mais favorável para nós. Não pode haver razão alguma para crer que o capitalismo americano pode, por si próprio, converter-se no próximo período em um capitalismo firme e saudável, que possa absorver os 13 milhões de desempregados. Mas, se formularmos a pergunta de uma forma simples e aritmética, se em um ou dois anos as indústrias absorverem 4 milhões dos 13 milhões de desempregados, deixando ainda 9 milhões no desemprego, e se tal fato seria favorável do ponto de vista do movimento revolucionário, creio que também podemos responder com um sim categórico.
Temos uma situação no país – uma situação muito revolucionária num país muito conservador -, com um atraso subjetivo na consciência da classe operária. Nessa situação, as mudanças na economia – elevações ou quedas acentuadas - têm um caráter secundário do ponto de vista histórico, mas de imediato exercem um efeito profundo sobre a vida de milhões de operários.
Hoje têm uma grande importância. Tais sacudidas são de uma importância revolucionária enorme. Questionam o seu conservadorismo; os obrigam a buscar a razão disso, qual é a perspectiva. E cada sacudida impulsiona alguma parcela dos trabalhadores ao caminho revolucionário.
Mais concretamente, agora os operários americanos estão num impasse – um beco sem saída. O grande movimento, o CIO, não tem perspectiva imediata, porque não está dirigido por um partido revolucionário, e suas
dificuldades são muito grandes. Por outro lado, os elementos revolucionários são demasiado débeis para dar ao movimento um giro violento para o caminho político. Imaginemos que durante o próximo período quatro milhões
de operários reingressem na indústria. Isso não amortecerá os antagonismos sociais; mas se as indústrias fossem capazes de absorver 11 ou 13 milhões de desempregados, isso significaria uma atenuação da luta de classes durante um longo período. Mas só podem absorver uma parte, e a maioria continuará desempregada. Todo desempregado percebe que os empregados têm trabalho.
Buscará um emprego e, ao não encontrar, entrará no movimento dos desempregados. Creio que nesta fase nossa bandeira de escala móvel pode conquistar grande popularidade; isso significa que exigimos trabalho para todos, em condições decentes; de uma maneira popular: “Haveremos de encontrar trabalho para todos, em condições decentes.” O primeiro período de um ascenso – ascenso econômico – seria muito favorável, especialmente para esta reivindicação. Também acho que as outras reivindicações são muito importantes, a defesa, a milícia operária, etc., encontrariam também um terreno favorável, uma base, porque com tal ascenso limitado e indeciso, os capitalistas tornam-se muito ávidos pela obtenção de lucros imediatos e vêm com grande hostilidade os sindicatos que impedem a possibilidade de ocorrer um novo aumento dos lucros. Nessas condições, creio que Hague seria imitado em grande escala.
A questão do partido operário frente aos sindicatos. De fato, diante de uma nova prosperidade, a CIO teria uma nova possibilidade de desenvolvimento. Nesse sentido, podemos supor que a melhoria da conjuntura adiaria a questão do partido operário. Não perderá toda sua importância propagandística, mas sim, sua urgência. Podemos então preparar os elementos progressistas para aceitar esta idéia e estar prontos para quando se aproximar a nova crise, que não tardará em chegar.
Penso que esta questão do hagueísmo tem uma enorme importância, e que uma nova prosperidade, um novo crescimento, dar-nos-ia maiores possibilidades. Um novo ascenso significará que as crises e conflitos definitivos ver-se-iam postergados durante alguns anos, apesar dos agudos conflitos durante o próprio ascenso. E nós temos o maior interesse em ganhar mais tempo porque somos débeis e nos Estados Unidos os operários não estão preparados. Mas inclusive uma nova fase ascendente dar-nos-á muito pouco tempo – a desproporção entre a consciência e os métodos dos operários americanos na crise social, esta desproporção é terrível. No entanto, tenho a impressão de que devemos apresentar alguns exemplos concretos de êxitos, e não nos limitar apenas a dar bons conselhos teóricos. Vendo a situação de New Jersey, percebe-se que é um golpe tremendo, não só para a socialdemocracia, como para a classe operária. Hague está apenas começando. Nós também, mas Hague é mil vezes mais poderoso.

Um comentário:

Alessandro disse...

Otimo Blog!
Hasta, companheiro.