domingo, 2 de março de 2008

A Ilusão do Sufrágio Universal - Mikhail Bakunin

Os grandes escritos anarquistas. Porto Alegre, L&PM, 1986, pp. 98-100. (grifo meu)

Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal garantia a liberdade dos povos. Mas infelizmente esta era uma grande ilusão e a compreensão da ilusão, em muitos lugares, levou à queda e à desmoralização do partido radical. Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim asseguram as obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados. Eles estavam firmemente convencidos quando prometeram ao povo a liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por essa convicção, eles puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos estabelecidos. Hoje depois de aprender com a experiência, e com a política do poder, os radicais perderam a fé em si mesmos e em seus princípios derrotados e corruptos.

Mas tudo parecia tão natural e tão simples: uma vez que os poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de uma eleição popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?

Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de movimento e de ação. Isto significa a melhor organização dos interesses econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da liberdade. Estes são os desejos básicos do povo.

Os instintos dos governantes, sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por estarem numa posição excepcional.

Por mais democráticos que sejam seus sentimentos e suas intenções, atingida uma certa elevação de posto, vêem a sociedade da mesma forma que um professor vê seus alunos, e entre o professor e os alunos não há igualdade. De um lado, há o sentimento de superioridade, inevitavelmente provocado pela posição de superioridade que decorre da superioridade do professor, exercite ele o poder legislativo ou executivo. Quem fala de poder político, fala de dominação. Quando existe dominação, uma grande parcela da sociedade é dominada e os que são dominados geralmente detestam os que dominam, enquanto estes não têm outra escolha, a não ser subjugar e oprimir aqueles que dominam.

Esta é a eterna história do saber, desde que o poder surgiu no mundo. Isto é, o que também explica como e porque os democratas mais radicais, os rebeldes mais violentos se tornam os conservadores mais cautelosos assim que obtêm o poder. Tais retratações são geralmente consideradas atos de traição, mas isto é um erro. A causa principal é apenas a mudança de posição e, portanto, de perspectiva.

Na suíça, assim como em outros lugares, a classe governante é completamente diferente e separada da massa dos governados. Aqui, apesar da constituição política ser igualitária, é a burguesia que governa, e é o povo, operários e camponeses, que obedecem suas leis. O povo não tem tempo livre ou educação necessária para se ocupar do governo. Já que a burguesia tem ambos, ela tem de ato, se não por direito, privilégio exclusivo. Portanto, na Suíça, como em outros países a igualdade política é apenas uma ficção pueril, uma mentira.

Separada como está do povo, por circunstâncias sociais e econômicas, como pode a burguesia expressar, nas leis e no governo, os sentimentos, as idéias, e a vontade do povo? É possível, e a experiência diária prova isto. Na legislação e no governo, a burguesia é dirigida principalmente por seus próprios interesses e preconceitos, sem levar em conta os interesses do povo.

É verdade que todos os nossos legisladores, assim como todos os membros dos governos cantonais são eleitos, direta ou indiretamente, pelo povo.

É verdade que, em dia de eleição, mesmo a burguesia mais orgulhosa, se tiver ambição política, deve curvar-se diante de sua Majestade, a Soberania Popular. Mas, terminada a eleição, o povo volta ao trabalho, e a burguesia, a seus lucrativos negócios e às intrigas políticas. Não se encontram e não se reconhecem mais. Como se pode esperar que o povo, oprimido pelo trabalho e ignorante da maioria dos problemas, supervisione as ações de seus representantes? Na realidade, o controle exercido pelos eleitores aos seus representantes eleitos é pura ficção, já que no sistema representativo, o controle popular é apenas uma garantia da liberdade do povo, é evidente que tal liberdade não é mais do que ficção.

6 comentários:

Francisco Sulo disse...

Em alternativa à desqualificação das massas para a democracia o que viria?
Uma ditadura proletária perene?

Razão disse...

Mentes fracas argumentam sempre da mesma maneira. Se se contesta a pseudo-democracia é porque se quer uma "ditadura proletária perene". Argumentos, zero. Mas também há sempre defensores do status quo, seja ele qual for. Isso só demonstra a impreparação das sociedades para a maior evolução de todas que seria a harmonia universal. Com argumentação desta mais vale perder tempo com outras coisas...

Marcio Carneiro, disse...

Para entender porque o sufrágio universal realmente representa a vontade do povo é preciso entender porque o povo em questão TEM de ser o povo que os comunistas ou anarquistas QUEREM que seja.

Em virtude da postagem superar o espaço destinado aos comentários, convido-os a lerem a resposta aqui: http://viabsb.blogspot.com/2011/05/sufragio-universal-e-luta-de-classes.html

Viиicius Silvα disse...

Oi, estou te seguindo, confira e siga meu blog ? http://blogoficialdovinicius.blogspot.com.br

Anônimo disse...

Estudem um pouco mais a iudeologia anarquista...Não tem nada de comunista...

Anônimo disse...

O sistema representativo formal, traduzido pela surrada expressão eleições "livres", é viciado desde sua origem, já que manieta, submete e excepciona a forma direta de manifestação, que é o plebiscito. Como a democracia direta não é mais possível, a classe burguesa inventou a representação, o mandato. Só que este, em seu desenvolvimento, é a resultante dos próprios desejos da burguesia, já que todo o aparato que o cerca, desde os custos de sustentação da propaganda nos meios de comunicação são enormes. Além disso, o sistema, principalmente a Imprensa, não veicula propostas dos verdadeiros representantes da classe trabalhadora. Financiados por este sistema perverso, os "representantes" cumprem seu papel de procuradores dos altos interesses, ao criarem leis, ao cumprirem as leis e julgarem os atos administrativos. Em consequência, a representação liberal formal é uma falácia, é o congelamento das aspirações populares. Somente com a consciência de sua situação de explorada, a classe dominada poderá somente dirigir sua força representativa para os legítimos representantes do povo. O melhor, o ideal seria a derrubada disso tudo e a instauração da representação popular mediante conselhos de bairros, distritos, cidades e estados, assim sucessivamente.