segunda-feira, 3 de maio de 2010

Coletânea de Poemas - Bertolt Brecht


O Analfabeto Político

O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado
e o pior de todos os bandidos:
O político vigarista,
pilantra, corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.



Perguntas De Um Trabalhador Que Lê

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedras?
E a Babilônia várias vezes destruída -
quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida,
os que se afogavam gritavam por seus escravos
na noite em que o mar a tragou.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou quando sua Armada
naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?

Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.



Nada É Impossível De Mudar

Desconfiai do mais trivial ,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.


Se os Tubarões Fossem Homens

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.


Ao Camarada Dimitrov, quando lutou diante do Tribunal fascista em Leipzig *


Camarada Dimitrov!
Desde o dia em que lutastes diante do tribunal fascista
a voz do comunismo, cercada pelos bandos de matadores e bandidos da SA
através do ruído dos chicotes e cassetetes,
fala bem alto e nítido
no centro da Alemanha.
Voz que pode ser ouvida em todas as nações da Europa,
que através das fronteiras ouvem o que vem
do escuro, elas mesmas no escuro,
mas também pode ser ouvida
por todos os explorados e espancados e
incorrigíveis lutadores
na Alemanha.
Com avareza utilizas, camarada Dimitrov, cada minuto
que te é dado, e o pequeno lugar que
ainda é público, utiliza-o
para todos nós.
Mal dominando a língua que não é a tua
sempre advertido aos gritos,
várias vezes arrastado para fora,
enfraquecido com as algemas,
fazes repetidamente as perguntas temidas.
Incriminas os criminosos e
leva-os a gritar e te arrastar e assim
confessar que não têm razão, apenas força.
Embora não tão visíveis
milhares de combatentes, mesmo os
ensangüentados em suas celas
que podem ser abatidos
mas nunca vencidos.
Assim como tu, suspeitos de combater a fome,
acusados de revolta contra os exploradores,
incriminados por lutar contra a opressão,
convictos da causa mais justa.


* George Dimitrov, revolucionário búlgaro e dirigente da Internacional Comunista, foi acusado pelos nazistas de incendiar o parlamento alemão (Reichstag) em janeiro de 1933. Assumindo a própria defesa, Dimitrov desmascarou, no julgamento do processo, a farsa montada pelos nazistas para criminalizar os comunistas e desencadear feroz repressão contra as massas populares na Alemanha. Usando uma lógica precisa e implacável, Dimitrov derrubou um a um os argumentos da acusação, provando a todos sua inocência. Esta é considerada a 1º derrota significativa dos nazistas, prenuncio de sua queda final que viria em 1945.



Camarada Wlassowa

Esta é a nossa camarada Wlassowa, boa lutadora,
dedicada, astuta e firme.
Firme na luta, astuta contra nossos inimigos e dedicada
na agitação. Seu trabalho é miúdo,
tenaz e imprescindível.

Onde quer que lute não está só.
Como ela lutam tenazes, firmes e astutas
em Twer, Glasgow, Lyon e Chicago,
Changai e Calcutá.
Todas as Wlassowas, de todo o mundo, boas formigas,
soldados invisíveis da revolução.
Imprescindíveis.



Canção do Remendo e do Casaco

Sempre que o nosso casaco se rasga
vocês vêm correndo dizer: assim não pode ser;
isso vai acabar, custe o que custar!
Cheios de fé vão aos senhores
enquanto nós, cheios de frio, aguardamos.
E ao voltar, sempre triunfantes,
nos mostram o que por nós conquistam:
Um pequeno remendo.
Ótimo, eis o remendo.
Mas onde está
o nosso casaco?
Sempre que nós gritamos de fome
vocês vêm correndo dizer: Isso não vai continuar,
é preciso ajudá-los, custe o que custar!
E cheios de ardor vão aos senhores
enquanto nós, com ardor no estômago, esperamos.
E ao voltar, sempre triunfantes,
exibem a grande conquista:
um pedacinho de pão.
Que bom, este é o pedaço de pão,
mas onde está
o pão?
Não precisamos só do remendo,
precisamos o casaco inteiro.
Não precisamos de pedaços de pão,
precisamos de pão verdadeiro.
Não precisamos só do emprego,
toda a fábrica precisamos.
E mais o carvão.
E mais as minas.
O povo no poder.
É disso que precisamos.
Que tem vocês
a nos dar?



Canção

Eles tem códigos e decretos.
Eles tem prisões e fortalezas.
(sem contar seus reformatórios!)
Eles tem carcereiros e juizes
que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Sim, e para que?
Será que e;es pensam que nós, como eles,
seremos destruídos?
Seu fim será breve e eles hão de notar
que nada poderá ajudá-los.

Eles tem jornais e impressoras
para nos combater e amordaçar.
(sem contar seus estadistas!)
Eles tem professores e sacerdotes
que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Sim, e para que?
Será que precisam a verdade temer?
Seu fim será breve e eles hão de notar
que nada poderá ajudá-los.

Eles tem tanques e canhões,
granadas e metralhadoras
(sem contar seus cassetetes!)
Eles tem policia e soldados,
que por pouco dinheiro estão prontos a tudo.
Sim, e para que?
Terão inimigos tão fortes?
Eles pensam que podem parar,
a sua queda, na queda, impedir.
Um dia, e será para breve
verão que anda poderá ajudá-los.
E de novo bem alto gritarão: Parem!
Pois nem dinheiro nem canhões
poderão mais salvá-los.



Algumas perguntas a um "homem bom"

Bom, mas para que?
Sim, não és venal, mas o ralo
que sobre a casa sai também
Não é venal.
Nunca renegas o que disseste.
Mas, o que disseste?
És de boa fé, dás a tua opinião.
Que opinião?

Toma coragem
contra quem?
És cheio de sabedoria
Pra quem?
Não olhas aos teus interesses.
Aos de quem olhas?
És um bom amigo.
Sê-lo-ás do bom povo?

Escuta pois: nós sabemos
que és nosso inimigo. Por isso vamos
Encostar-te a paredão. Mas em consideração
dos teus méritos e das tuas boas qualidades
Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com
Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com
Uma boa pá debaixo de terra boa.



O Comboio De Serviço

1

Por ordem Expressa do Führer,
o comboio de luxo expressamente feito para o congresso
do Partido em Nuremberg
recebeu o nome simples de COMBOIO DE SERVIÇO.
Os que o tomam prestam com isso um serviço
ao povo alemão.

2

O comboio de serviço
é uma obra-prima da técnica ferroviária. Os passageiros
tem apartamentos privativos. Pelas largas janelas
vêem os camponeses alemães mourejar os campos.
Se por acaso transpirassem nesse momento
poderiam tomar banho
Em cabines cobertas de ladrilhos.
Um sutil sistema de luzes permite-lhes
Ler à noite, de pé, sentados ou deitados, os jornais
Com as grandes reportagens sobre os benefícios do regime
Os vários apartamentos
Comunicam entre si por linhas telefônicas
Tal como as mesas dos grandes dancing's cujos clientes
Podem pedir às mulheres das mesas vizinhas
O preço que cobram.
Sem sair da cama os passageiros também podem
Ligar o rádio, que transmite as grandes reportagens
Sobre os erros do regime. Jantam,
Se assim o desejarem, no respectivo apartamento, e fazem as
respectivas necessidades
Em privadas revestidas de mármore.
Cagam
na Alemanha.



Unicamente Por Causa Da Desordem Crescente

Unicamente por causa da desordem crescente
Nas nossas cidades com suas lutas de classes
Alguns de nós nestes anos decidimos
Não mais falar nos grandes portos, da neve nos telhados,
das muralhas,
Do perfume das maçãs maduras na despensa, nas impressões da carne,

De tudo o que faz o homem redondo e humano, mas
Falar só da desordem
E portanto ser parciais, secos, enfronhados nos negócios
Da política, e no rádio e "indigno" vocabulário
De economia dialética,
Para que esta terrível pesada promiscuidade
Das quedas na neve (elas não são só frias, nos bem o sabemos),
Da exploração, da tentação da carne e da justiça de classes,
Não nos leve a aceitação deste mundo tão diverso
Nem ao prazer das contradições de uma vida tão sangrenta.
Vocês entendem.



Da Violência

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.



Monólogo De Uma Atriz Enquanto Se Maquila

Vou fazer o papel de uma bêbada
que vende os filhos
em Paris, nos tempos da Comuna.
Tenho apenas cinco réplicas.

E preciso de me deslocar, de subir a rua.
Caminharei como gente livre,
gente que só o álcool
quis libertar e voltar-me-ei
para o público.
Analisei as minhas cinco réplicas como os documentos
que se lavam com ácido para descobrir sob os caracteres visíveis
outros possíveis caracteres. Pronunciarei cada réplica
com a melhor acusação
contra mim e contra todos os que me olham.

Se eu não refletisse, maquilar-me-ia simplesmente
como uma velha beberrona
doente e decadente. Mas vou entrar em cena
como uma bela mulher que guarda a marca da distribuição
na pálida pele outrora macia e agora cheia de rugas
outrora atraente e agora repelida
pra que ao vê-la cada um se interrogue: quem
fez isto?



Quem é teu inimigo?

O que tem fome e te rouba
o último pedaço de pão chama-o teu inimigo.
Mas não saltas ao pescoço
de teu ladrão que nunca teve fome.



Elogio Da Dialética

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas
continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração:
Isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes, falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? De nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe e o que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.



Elogio da terceira coisa

Sempre se ouve quão depressa
as mães perdem os filhos, mas eu
preservei o meu. Como o preservei? Através
da terceira coisa.
Eu e ele éramos dois, mas a terceira
coisa comum, a causa comum, foi ela
que nos uniu.
Eu mesma ouvi, às vezes,
conversas entre filhos e pais.
Mas como eram melhores as nossas conversas
sobre a terceira coisa, que nos era comum,
grande e comum para tantos homens!
Que perto nos encontrávamos, perto
dessa coisa: Que bom era para nós essa
boa coisa perto!



Elogio do Comunismo

Ele é razoável. Todos o compreendem. Ele é simples.
Você, por certo, não é nenhum explorador. Você pode entendê-lo.
Ele é bom para você. Informe-se sobre ele.
Os idiotas dizem-no idiota e os porcos dizem-no porco.
Ele é contra a sujeira e contra a estupidez.
Os exploradores dizem-no um crime,
mas nós sabemos
que ele é o fim dos crimes;
ele não é a loucura e sim
o fim da loucura.
Não é o caos e sim
uma nova ordem.
Ele é a simplicidade.
O difícil de fazer.



Elogio do Trabalho Clandestino

É bonito
usar da palavra na luta de classes.
Clamar alto e bom som pela luta das massas.
Pisar os opressores, libertar os oprimidos.
Árdua e útil é a pequena tarefa de cada dia
que secreta e tenaz tece
a rede do Partido sob
os fuzis apontados dos capitalistas.
Falar, mas
escondendo o orador.
Vencer, mas
escondendo o vencedor.
Morrer, mas
dissimulando a morte.
Pela glória quem não faria grandes coisas?
Mas quem as faz pelo olvido?
E a glória busca em vão
os autores do grande feito.
Sai da sombra por um momento
rostos anônimos, dissimulados,
e aceitai;
o nosso agradecimento.



Nada É Impossível De Mudar

Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural.
Pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar.



Nossos inimigos dizem

Nossos inimigos dizem: a luta terminou.
Mas nós dizemos: ela começou.

Nossos inimigos dizem: a verdade está liquidada.
Mas nós sabemos: nós a sabemos ainda.

Nossos inimigos dizem: mesmo que ainda se conheça a verdade
ela não pode mais ser divulgada.
Mas nós a divulgaremos.

É a véspera da batalha.
É a preparação de nossos quadros.
É o estudo do plano de luta.
É o dia antes da queda de nossos inimigos.



Os tecelões de Kujan-Bulak homenageiam Lênin

1
Com freqüência, e generosamente
homenageou-se o camarada Lênin. Existem bustos
e estátuas.
Cidades receberam seu nome, e também crianças.
Fazem-se conferências em muitas línguas
há reuniões e demonstrações
de Xangai a Chicago, em homenagem a Lênin.
Mas assim o homenagearam os tecelões de Kujan-Bulak,
pequena localidade no sul do Turquistão:

Lá, vinte tecelões deixam à noite,
tremendo de febre, seu tear miserável.
A febre está em toda a parte: a estação
é tomada pelo zumbido dos mosquitos, nuvem espessa
que se levanta do pântano atrás do velho cemitério de camelos.
Mas a locomotiva, que
a cada duas semanas traz água e fumaça, traz
um dia também a notícia:
Que está próximo o dia de reverenciar o camarada Lênin.
E a gente de Kujan-Bulak,
gente pobre, tecelões,
decide que também na sua localidade será erguido
um busto de gesso para o camarada Lênin.
Mas quando o dinheiro é coletado para o busto
encontram-se todos frementes de febre, a contar
seus copeques duramente ganhos com mãos sôfregas.
E o guarda vermelho Stepa Gamalew, que
conta com cuidado e observa com rigor,
vê a disposição de homenagear Lênin e se alegra,
mas também vê mãos inseguras.
E faz de repente a proposta
de com o dinheiro para o busto comprar petróleo
e derramá-lo no pântano trás do cemitério de camelos
de onde vêm os mosquitos
que produzem a febre.
De modo assim a combater a febre em Kujan-Bulak, e isto
em honra do falecido
mas não esquecido
camarada Lênin.

Assim decidiram. No dia da homenagem conduziram
seus baldes amassados, cheios do petróleo negro
um atrás do outro
e regaram aquilo o pântano com aquilo.
Eles se ajudaram, ao homenagear Lênin
e o homenagearam, ao se ajudar, e o haviam, portanto,
compreendido.

2
Ouvimos como a gente de Kujan-Bulak
homenageou Lênin. E quando, à noite
o petróleo havia sido comprado e derramado no pântano,
ergueu-se um homem na reunião, e solicitou
que fosse colocada uma placa na estação
com a narrativa do acontecimento, descrevendo
precisamente a mudança do plano e a troca
do busto de Lênin pelo tonel de petróleo destruidor da febre.
E tudo em homenagem a Lênin.
E também isto fizeram,
e colocaram a placa.



Um comentário:

Wagner disse...

Pô, tá muito bom esse teu blog! Excelente, aliás! Instrutivo, bonito e com muito conteúdo de qualidade! Vou começar a beber também dessa fonte! Abraço!