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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Poemas de Paulo Leminski

Dormindo Sonhando

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

Para a liberdade e luta

para a liberdade e luta

me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu

me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão

Um homem com uma dor

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra
já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

LÁPIDE 1


epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito
são suas obras completas.

LÁPIDE 2

epitáfio para a alma

aqui jaz um artista
mestre em disfarces

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces

Aço e Flor

Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

Confesso

parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus

eu sou o seu profeta

WITH THE MAN

aqui
no oeste
todo homem tem um preço
uma cabeça a prêmio
índio bom é índio morto
sem emprego
referência
ou endereço
tenho toda a liberdade
pra traçar meu enredo

nasci
numa cidade pequena
cheia de buracos de balas
porres de uísque
grandes como o grand cayon
tiroteios noturnos
entre pistoleiros brilhantes
como o ouro da califórnia
me segue uma estrela
no peito do xerife de denver

Quero a Vitória

quero a vitória
do time de várzea

valente
covarde

a derrota
do campeão

5 X 0
em seu próprio chão

circo dentro do pão

Queria tanto

 eu queria tanto ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões

em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois

Cinema Americano

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

Quando eu tiver setenta anos

quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência

Rosa Rilke Raimundo Correia

Uma pálpebra,
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras
Tentando fazer
Das minhas trevas
Alguma coisa a mais
Que lágrimas

Acordei bemol

acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido
Um homem com uma dor

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante

Distâncias Mínimas

um texto morcego
se guia por ecos
um texto texto cego
um eco anti anti anti antigo
um grito na parede rede rede
volta verde verde verde
com mim com com consigo
ouvir é ver se se se se se

ATRASO PONTUAL

Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relogio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?

DESENCONTRÁRIOS

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

RAZÃO DE SER

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

HAI-KAIS

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença

acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo

amar é um elo
entre o azul
e o amarelo

jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga


lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
moches
poemas

Manchete:
CHUTES DE POETA
NÃO LEVAM PERIGO À META

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença

Não Discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

Nada me demove
ainda vou ser
o pai dos irmãos Karamazov
I

Confira
tudo que
respira
conspira

II

Tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
e nada disso é preciso

III

Cinco bares,
dez conhaques
atravesso são paulo
dormindo dentro de um táxi

IV

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

V

O pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

terça-feira, 18 de maio de 2010

Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto


O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.



ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO
UM DEFUNTO NUMA REDE,
AOS GRITOS DE "Ó IRMÃOS DAS ALMAS!
IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU
QUEM MATEI NÃO!"

— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.

— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.

— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?

— Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.

— E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?

— Onde a caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.

— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?

— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.

— E o que guardava a emboscada,
irmão das almas
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?

— Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mas garantido é de bala,
mais longe vara.

— E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?

— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.

— E o que havia ele feito
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?

— Ter um hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.

— Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas
que podia ele plantar
na pedra avara?

— Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
os intervalos das pedras,
plantava palha.

— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?

— Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.

— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?

— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.

— E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?

— Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.

— E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente do chumbo
que tem guardada?

— Ao cemitério de Torres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.

— E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.

— Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.

— E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.

— Vou eu que a viagem é longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.

— Mais sorte tem o defunto
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.

— Toritama não cai longe,
irmãos das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.

— Partamos enquanto é noite
irmãos das almas,
que é o melhor lençol dos mortos
noite fechada.

O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR POR SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE, CORTOU COM O VERÃO


—— Antes de sair de casa
aprendi a ladainha
das vilas que vou passar
na minha longa descida.
Sei que há muitas vilas grandes,
cidades que elas são ditas
sei que há simples arruados,
sei que há vilas pequeninas,
todas formando um rosário
cujas contas fossem vilas,
de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosário
até o mar onde termina,
saltando de conta em conta,
passando de vila em vila.
Vejo agora: não é fácil
seguir essa ladainha
entre uma conta e outra conta,
entre uma e outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de planta e bicho vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.
Não desejo emaranhar
o fio de minha linha
nem que se enrede no pêlo
hirsuto desta caatinga.
Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
Tenho que saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Mas não vejo almas aqui,
nem almas mortas nem vivas
ouço somente à distância
o que parece cantoria.
Será novena de santo,
será algum mês-de-Maria
quem sabe até se uma festa
ou uma dança não seria?


NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA,
VAI PARODIANDO A PALAVRAS DOS CANTADORES


—— Finado Severino,
quando passares em Jordão
e o demônios te atalharem
perguntando o que é que levas..

—— Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.

—— Finado Severino,
etc...

—— Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.

—— Finado Severino,
etc...

—— Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves.

—— Uma excelência
dizendo que a hora é hora.

—— Ajunta os carregadores
que o corpo quer ir embora.

—— Duas excelências...

—— ... dizendo é a hora da plantação.

—— Ajunta os carreadores...

—— ... que a terra vai colher a mão.



CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA
INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES
E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.


—— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas por que
parar aqui eu não podia
e como Capibaribe
interromper minha linha?
ao menos até que as águas
de uma próxima invernia
me levem direto ao mar
ao refazer sua rotina?
Na verdade, por uns tempos,
parar aqui eu bem podia
e retomar a viagem
quando vencesse a fadiga.
Ou será que aqui cortando
agora minha descida
já não poderei seguir
nunca mais em minha vida?
(será que a água destes poços
é toda aqui consumida
pelas roças, pelos bichos,
pelo sol com suas línguas?
será que quando chegar
o rio da nova invernia
um resto de água no antigo
sobrará nos poços ainda?)
Mas isso depois verei:
tempo há para que decida
primeiro é preciso achar
um trabalho de que viva.
Vejo uma mulher na janela,
ali, que se não é rica,
parece remediada
ou dona de sua vida:
vou saber se de trabalho
poderá me dar notícia.

DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS, DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ



—— Muito bom dia senhora,
que nessa janela está
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?

—— Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?

—— Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.

—— Isso aqui de nada adianta,
poucos existe o que lavrar
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia por lá?

—— Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.

—— Também de pouco adianta,
nem pedra há aqui que amassar
diga-me ainda, compadre,
que mais fazias por lá?

—— Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.

—— Esses roçados o banco
já não quer financiar
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia lá?

—— Melhor do que eu ninguém
sei combater, quiçá,
tanta planta de rapina
que tenho visto por cá.

—— Essas plantas de rapina
são tudo o que a terra dá
diga-me ainda, compadre
que mais fazia por lá?

—— Tirei mandioca de chãs
que o vento vive a esfolar
e de outras escalavras
pela seca faca solar.

—— Isto aqui não é Vitória

nem é Glória do Goitá
e além da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?

—— Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.

—— Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, oxalá!
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?

—— Em qualquer das cinco tachas
de um bangüê sei cozinhar
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.

—— Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?

—— Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.

—— Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.

—— Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.

—— Essa vida por aqui
é coisa familiar
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?

—— Já velei muitos defuntos,
na serra é coisa vulgar
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.

—— Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.

—— Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?

—— Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:

como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.

—— E ainda se me permite
que volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?

—— é, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.

—— E ainda se me permite
mais outra vez indagar:
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?

—— De um raio de muitas léguas
vem gente aqui me chamar
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.

—— E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?

—— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar
não se precisa de limpa,
as estiagens e as pragas
fazemos mais prosperar
e dão lucro imediato
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.



O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA
MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ,
EM INTERROMPER A VIAGEM.


—— Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm água vitalícia.
Cacimbas por todo lado
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.

Mas não avisto ninguém,
só folhas de cana fina
somente ali à distância
aquele bueiro de usina
somente naquela várzea
um bangüê velho em ruína.

Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.

Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina
e aquele cemitério ali,
branco de verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.



ASSISTE AO ENTERRO DE UM
TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE
DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O
LEVARAM AO CEMITÉRIO


—— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.

—— é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe

neste latifúndio.

—— Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.

—— é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.

—— é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.

—— é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

—— Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.

—— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.

—— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.

—— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.

—— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.

—— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.

—— Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.

—— Será de terra
e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.

—— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.

—— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.

—— Tua roupa melhor

será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.

—— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).

—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo)

—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).

—— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).

—— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos)

—— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).


—— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.

—— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.

—— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.

—— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.

—— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.

—— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

—— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.

—— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.

—— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.

—— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

—— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.

—— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.

—— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha,

—— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.


—— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.

—— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito à viração.

—— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.

—— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.

—— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.

—— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com que se dorme.


O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS
PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE

—— Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
não foi a grande cobiça
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta
se na serra vivi vinte,
se alcancei lá tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estendê-la um pouco ainda.
Mas não senti diferença
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferença é a mais mínima.

Está apenas em que a terra
é por aqui mais macia
está apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois é igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de caliça,
a vida arde sempre com
a mesma chama mortiça.

Agora é que compreendo
por que em paragens tão ricas
o rio não corta em poços
como ele faz na Caatinga:
vivi a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter,
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.



CHEGANDO AO RECIFE O
RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR
AO PÉ DE UM MURO ALTO E
CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO,
A CONVERSA DE DOIS COVEIROS


—— O dia hoje está difícil
não sei onde vamos parar.
Deviam dar um aumento,
ao menos aos deste setor de cá.
As avenidas do centro são melhores,
mas são para os protegidos:
há sempre menos trabalho
e gorjetas pelo serviço
e é mais numeroso o pessoal
(toma mais tempo enterrar os ricos).
—— pois eu me daria por contente
se me mandassem para cá.

Se trabalhasses no de Casa Amarela
não estarias a reclamar.
De trabalhar no de Santo Amaro
deve alegrar-se o colega
porque parece que a gente
que se enterra no de Casa Amarela
está decidida a mudar-se
toda para debaixo da terra.

—— é que o colega ainda não viu
o movimento: não é o que se vê.
Fique-se por aí um momento
e não tardarão a aparecer
os defuntos que ainda hoje
vão chegar (ou partir, não sei).
As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,
são como o porto do mar
não é muito ali o serviço:
no máximo um transatlântico
chega ali cada dia,
com muita pompa, protocolo,
e ainda mais cenografia.

Mas este setor de cá
é como a estação dos trens:
diversas vezes por dia
chega o comboio de alguém.

—— Mas se teu setor é comparado
à estação central dos trens,
o que dizer de Casa Amarela
onde não para o vaivém?
Pode ser uma estação
mas não estação de trem:
será parada de ônibus,
com filas de mais de cem.

—— Então por que não pedes,
já que és de carreira, e antigo,
que te mandem para Santo Amaro
se achas mais leve o serviço?
Não creio que te mandassem
para as belas avenidas
onde estão os endereços
e o bairro da gente fina:
isto é, para o bairro dos usineiros,
dos políticos, dos banqueiros,
e no tempo antigo, dos bangunlezeiros
(hoje estes se enterram em carneiros)
bairro também dos industriais,
dos membros das
associações patronais
e dos que foram mais horizontais

nas profissões liberais.
Difícil é que consigas
aquele bairro, logo de saída.

—— Só pedi que me mandasse
para as urbanizações discretas,
com seus quarteirões apertados,
com suas cômodas de pedra.

—— Esse é o bairro dos funcionários,
inclusive extranumerários,
contratados e mensalistas
(menos os tarefeiros e diaristas).
Para lá vão os jornalistas,
os escritores, os artistas
ali vão também os bancários,
as altas patentes dos comerciários,
os lojistas, os boticários,
os localizados aeroviários
e os de profissões liberais
que não se libertaram jamais.

—— Também um bairro dessa gente
temos no de Casa Amarela:
cada um em seu escaninho,
cada um em sua gaveta,
com o nome aberto na lousa
quase sempre em letras pretas.
Raras as letras douradas,
raras também as gorjetas.

—— Gorjetas aqui, também,
só dá mesmo a gente rica,
em cujo bairro não se pode
trabalhar em mangas de camisa
onde se exige quepe
e farda engomada e limpa.

—— Mas não foi pelas gorjetas, não,
que vim pedir remoção:
é porque tem menos trabalho
que quero vir para Santo Amaro
aqui ao menos há mais gente
para atender a freguesia,
para botar a caixa cheia
dentro da caixa vazia.

—— E que disse o Administrador,
se é que te deu ouvido?

—— Que quando apareça a ocasião
atenderá meu pedido.

—— E do senhor Administrador
isso foi tudo que arrancaste?

—— No de Casa Amarela me deixou
mas me mudou de arrabalde.

—— E onde vais trabalhar agora,
qual o subúrbio que te cabe?

—— Passo para o dos industriários,
que também é o dos ferroviários,
de todos os rodoviários
e praças-de-pré dos comerciários.

—— Passas para o dos operário,
deixas o dos pobres vários
melhor: não são tão contagiosos
e são muito menos numerosos.

—— é, deixo o subúrbio dos indigentes
onde se enterra toda essa gente
que o rio afoga na preamar
e sufoca na baixa-mar.

—— é a gente sem instituto,
gente de braços devolutos
são os que jamais usam luto
e se enterram sem salvo-conduto.

—— é a gente dos enterros gratuitos
e dos defuntos ininterruptos.

—— é a gente retirante
que vem do Sertão de longe.

—— Desenrolam todo o barbante
e chegam aqui na jante.

—— E que então, ao chegar,
não tem mais o que esperar.

—— Não podem continuar
pois têm pela frente o mar.

—— Não têm onde trabalhar
e muito menos onde morar.

—— E da maneira em que está
não vão ter onde se enterrar.

—— Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterrá-los em terra seca.

—— Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.

—— O rio daria a mortalha
e até um macio caixão de água
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.

—— E não precisava dinheiro,
e não precisava coveiro,
e não precisava oração
e não precisava inscrição.

—— Mas o que se vê não é isso:

é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia
morre gente que nem vivia.

—— E esse povo de lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando
cemitério esperando.

—— Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.


O RETIRANTE APROXIMA-SE DE
UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE

—— Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita.
Sabia que no rosário
de cidade e de vilas,
e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
não seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre pás e enxadas
foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu braço esperariam.
Mas que se este não mudasse
seu uso de toda vida,
esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,
ao meu aluguel com a vida.

E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de aninga,
e aquele acompanhamento
de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).



APROXIMA-SE DO RETIRANTE O
MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS
QUE EXISTEM ENTRE O CAIS
E A ÁGUA DO RIO

—— Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?

—— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.

—— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega o abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.

—— Severino, retirante
pois não sei o que lhe conte
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.

—— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?

—— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.

—— Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxão das águas
não é melhor se entregar?

—— Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alarga
e devasta a terra inteira.

—— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?

—— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.

—— Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?

—— Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?

—— Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.

—— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?

—— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.

—— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?


UMA MULHER, DA PORTA DE
ONDE SAIU O HOMEM,
ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ


—— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito
e estais aí conversando
pois sabeis que ele é nascido.



APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO
HOMEM VIZINHOS,
AMIGOS, DUAS CIGANAS, ETC


—— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a maré
esta noite não baixou.

—— Foi por ele que a maré
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro não voou.

—— E a alfazema do sargaço,
ácida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.

—— E a língua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaçal.

—— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.

—— Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.

—— E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que não irradia.

—— E este rio de água, cega,
ou baça, de comer terra,
que jamais espelha o céu,
hoje enfeitou-se de estrelas.



COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS
TRAZENDO PRESENTES PARA
O RECÉM-NASCIDO

COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO
PRESENTES PARA
O RECÉM-NASCIDO


—— Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.

—— Minha pobreza tal é
que coisa alguma posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar
aqui todos são irmãos,
de leite, de lama, de ar.

—— Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago este papel de jornal
para lhe servir de cobertor
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.

—— Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Cerro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.

—— Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta sorrindo e de estalo.

—— Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.

—— Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.

—— Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.

—— Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.

—— Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.

—— Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.

—— Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.

—— Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.

—— Siris apanhados no lamaçal
que já no avesso da rua Imperial.

—— Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.

—— Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.



FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM
APARECIDO COM OS VIZINHOS


—— Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito,
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinarão
o anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.

—— Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.



FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE
VIERAM COM PRESENTES, ETC


—— De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.

—— De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.

—— Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.

—— Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.

—— De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.

—— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.

—— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.

—— De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

—— é tão belo como a soca
que o canavial multiplica.

—— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.

—— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.

—— é tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

—— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.

—— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.

—— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.

—— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

—— E belo porque o novo
todo o velho contagia.

—— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.

—— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.

—— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.



O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE
ESTEVE DE FORA,
SEM TOMAR PARTE DE NADA


—— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
Fim

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Plenos Pulmões - Maiakovski

        


A PLENOS PULMÕES

Primeira Introdução ao Poema

Caros
..........camaradas
......................futuros!
Revolvendo
.......a merda fóssil
......................de agora,
.................................perscrutando
estes dias escuros,
....talvez
..............perguntareis
...............................por mim.

Ora,
......começará
...............vosso homem de ciência,
afagando os porquês
.............num banho de sabença,
conta-se
.......que outrora
...................um férvido cantor
a água sem fervura
..........................combateu com fervor(1).
Professor,
.........jogue fora
...............as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
.................de mim
...........................de minha era.
Eu – incinerador,
...............eu – sanitarista,
a revolução
.................me convoca e me alista.
Troco pelo front
.........a horticultura airosa
.............................da poesia –
.....................................fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim virgem
...............vargem
......................sombra
.............................alfombra.
"É assim o jardim de jasmim,
...................o jardim de jasmim do alfenim."
Este verte versos feito regador,
......................aquele os baba,
boca em babador, –
...........bonifrates encapelados,
........................descabelados vates –
entendê-los,
..............ao diabo!,
.............................quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles
..................– mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-tin, ta-ran-tin,
.........................ta-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
...............se de tais rosas
..........................minha estátua se erigisse:
na praça
...........escarra a tuberculose;
putas e rufiões
...............numa ronda de sífilis.
Também a mim
.........a propaganda
........................cansa,
é tão fácil
.......alinhavar
.................romanças, –
Mas eu
.........me dominava
.....................entretanto
e pisava
...........a garganta do meu canto.
Escutai,
..............camaradas futuros,
....................................o agitador,
o cáustico caudilho,
....................o extintor
.........................dos melífluos enxurros:
por cima
........dos opúsculos líricos,
...............................eu vos falo
...........como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
......à Comuna distante,
..............não como Iessiênin,
...............................guitarriarcaico.
Mas através
.......dos séculos em arco
.....................sobre os poetas
............................e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
.................não como a seta
..................................lírico-amável,
..............que persegue a caça.
Nem como
........ao numismata
...............a moeda gasta,
.......................nem como a luz
...............................das estrelas decrépitas.
Meu verso
.........com labor
.............rompe a mole dos anos,
..................................e assoma
.....a olho nu,
...............palpável,
........................bruto,
.......................como a nossos dias
chega o aqueduto
................levantado
..........................por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
.............versos como ossos,
......................se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
.............vós as respeitareis,
........................como quem vê destroços
....de um arsenal antigo,
.................mas terrível.
Ao ouvido
..........não diz
................blandícias
............................minha voz;
lóbulos de donzelas
........de cachos e bandós
....................não faço enrubescer
...............................com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
.......– tropas em parada,
................e passo em revista
...........................o front das palavras.
Estrofes estacam
...........chumbo-severas,
.....................prontas para o triunfo
........ou para a morte.
Poemas-canhões, rígida coorte,
..........................apontando
................................as maiúsculas
...........abertas.
Ei-la,
.....a cavalaria do sarcasmo,
................minha arma favorita,
.............................alerta para a luta.
Rimas em riste,
......sofreando o entusiasmo,
.............................eriça
................................suas lanças agudas.
E todo
......este exército aguerrido,
.......................vinte anos de combates,
não batido,
...........eu vos dôo,
..................proletários do planeta,
cada folha
.............até a última letra.
O inimigo
......da colossal
...............classe obreira,
..................................é também
meu inimigo
.................figadal.
Anos
........de servidão e de miséria
...............................comandavam
...............................nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
........volume após volume,
.............................janelas
.....................................de nossa casa
abertas amplamente,
..............mas ainda sem ler
............................saberíamos o rumo!
onde combater,
................de que lado,
..........................em que frente.
Dialética,
.........não aprendemos com Hegel.
Invadiu-nos os versos
........ao fragor das batalhas,
.................................quando,
sob o nosso projétil,
..........debandava o burguês
..........................que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
......................– glória –
..............................se arraste
após os gênios,
.................merencória.
Morre,
.........meu verso,
....................como um soldado
.......................................anônimo
na lufada do assalto.

Cuspo
......sobre o bronze pesadíssimo,

........cuspo
..................sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória, –
....................entre nós todos, –
..................................o comum monumento:
o socialismo,
.............forjado
......................na refrega
....................................e no fogo.
Vindouros,
......varejai vossos léxicos:
............................do Letes
..............................brotam letras como lixo –
"tuberculose",
........"bloqueio",
.............."meretrício".
Por vós,
......geração de saudáveis, –
.......................um poeta,
......................com a língua dos cartazes,
lambeu
..........os escarros da tísis.
A cauda dos anos
...........faz-me agora
..................um monstro,
..........................fossilcoleante.
Camarada vida,
..........vamos,
.............para diante,
galopemos
.......pelo qüinqüênio afora(2).
Os versos
......para mim
.............não deram rublos,
............................nem mobílias
..................de madeiras caras.
Uma camisa
......lavada e clara,
.......................e basta, –
.........................para mim é tudo.
Ao Comitê Central
................do futuro
......................ofuscante,
..........................sobre a malta
...................dos vates
velhacos e falsários,
......................apresento
.................................em lugar
do registro partidário
......todos
............os cem tomos
........................dos meus livros militantes.

dezembro, 1929/janeiro, 1930

1. Maiakóvski escreveu versos de propaganda sanitária.
2. Alusão aos Planos Qüinqüenais soviéticos.

(Tradução e notas de Haroldo de Campos)

Do livro "Maiakovski - Poemas"/Editora Perspectiva, 1982.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Coletânea de Poemas - Bertolt Brecht


O Analfabeto Político

O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado
e o pior de todos os bandidos:
O político vigarista,
pilantra, corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.



Perguntas De Um Trabalhador Que Lê

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedras?
E a Babilônia várias vezes destruída -
quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida,
os que se afogavam gritavam por seus escravos
na noite em que o mar a tragou.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou quando sua Armada
naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?

Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.



Nada É Impossível De Mudar

Desconfiai do mais trivial ,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.


Se os Tubarões Fossem Homens

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.


Ao Camarada Dimitrov, quando lutou diante do Tribunal fascista em Leipzig *


Camarada Dimitrov!
Desde o dia em que lutastes diante do tribunal fascista
a voz do comunismo, cercada pelos bandos de matadores e bandidos da SA
através do ruído dos chicotes e cassetetes,
fala bem alto e nítido
no centro da Alemanha.
Voz que pode ser ouvida em todas as nações da Europa,
que através das fronteiras ouvem o que vem
do escuro, elas mesmas no escuro,
mas também pode ser ouvida
por todos os explorados e espancados e
incorrigíveis lutadores
na Alemanha.
Com avareza utilizas, camarada Dimitrov, cada minuto
que te é dado, e o pequeno lugar que
ainda é público, utiliza-o
para todos nós.
Mal dominando a língua que não é a tua
sempre advertido aos gritos,
várias vezes arrastado para fora,
enfraquecido com as algemas,
fazes repetidamente as perguntas temidas.
Incriminas os criminosos e
leva-os a gritar e te arrastar e assim
confessar que não têm razão, apenas força.
Embora não tão visíveis
milhares de combatentes, mesmo os
ensangüentados em suas celas
que podem ser abatidos
mas nunca vencidos.
Assim como tu, suspeitos de combater a fome,
acusados de revolta contra os exploradores,
incriminados por lutar contra a opressão,
convictos da causa mais justa.


* George Dimitrov, revolucionário búlgaro e dirigente da Internacional Comunista, foi acusado pelos nazistas de incendiar o parlamento alemão (Reichstag) em janeiro de 1933. Assumindo a própria defesa, Dimitrov desmascarou, no julgamento do processo, a farsa montada pelos nazistas para criminalizar os comunistas e desencadear feroz repressão contra as massas populares na Alemanha. Usando uma lógica precisa e implacável, Dimitrov derrubou um a um os argumentos da acusação, provando a todos sua inocência. Esta é considerada a 1º derrota significativa dos nazistas, prenuncio de sua queda final que viria em 1945.



Camarada Wlassowa

Esta é a nossa camarada Wlassowa, boa lutadora,
dedicada, astuta e firme.
Firme na luta, astuta contra nossos inimigos e dedicada
na agitação. Seu trabalho é miúdo,
tenaz e imprescindível.

Onde quer que lute não está só.
Como ela lutam tenazes, firmes e astutas
em Twer, Glasgow, Lyon e Chicago,
Changai e Calcutá.
Todas as Wlassowas, de todo o mundo, boas formigas,
soldados invisíveis da revolução.
Imprescindíveis.



Canção do Remendo e do Casaco

Sempre que o nosso casaco se rasga
vocês vêm correndo dizer: assim não pode ser;
isso vai acabar, custe o que custar!
Cheios de fé vão aos senhores
enquanto nós, cheios de frio, aguardamos.
E ao voltar, sempre triunfantes,
nos mostram o que por nós conquistam:
Um pequeno remendo.
Ótimo, eis o remendo.
Mas onde está
o nosso casaco?
Sempre que nós gritamos de fome
vocês vêm correndo dizer: Isso não vai continuar,
é preciso ajudá-los, custe o que custar!
E cheios de ardor vão aos senhores
enquanto nós, com ardor no estômago, esperamos.
E ao voltar, sempre triunfantes,
exibem a grande conquista:
um pedacinho de pão.
Que bom, este é o pedaço de pão,
mas onde está
o pão?
Não precisamos só do remendo,
precisamos o casaco inteiro.
Não precisamos de pedaços de pão,
precisamos de pão verdadeiro.
Não precisamos só do emprego,
toda a fábrica precisamos.
E mais o carvão.
E mais as minas.
O povo no poder.
É disso que precisamos.
Que tem vocês
a nos dar?



Canção

Eles tem códigos e decretos.
Eles tem prisões e fortalezas.
(sem contar seus reformatórios!)
Eles tem carcereiros e juizes
que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Sim, e para que?
Será que e;es pensam que nós, como eles,
seremos destruídos?
Seu fim será breve e eles hão de notar
que nada poderá ajudá-los.

Eles tem jornais e impressoras
para nos combater e amordaçar.
(sem contar seus estadistas!)
Eles tem professores e sacerdotes
que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Sim, e para que?
Será que precisam a verdade temer?
Seu fim será breve e eles hão de notar
que nada poderá ajudá-los.

Eles tem tanques e canhões,
granadas e metralhadoras
(sem contar seus cassetetes!)
Eles tem policia e soldados,
que por pouco dinheiro estão prontos a tudo.
Sim, e para que?
Terão inimigos tão fortes?
Eles pensam que podem parar,
a sua queda, na queda, impedir.
Um dia, e será para breve
verão que anda poderá ajudá-los.
E de novo bem alto gritarão: Parem!
Pois nem dinheiro nem canhões
poderão mais salvá-los.



Algumas perguntas a um "homem bom"

Bom, mas para que?
Sim, não és venal, mas o ralo
que sobre a casa sai também
Não é venal.
Nunca renegas o que disseste.
Mas, o que disseste?
És de boa fé, dás a tua opinião.
Que opinião?

Toma coragem
contra quem?
És cheio de sabedoria
Pra quem?
Não olhas aos teus interesses.
Aos de quem olhas?
És um bom amigo.
Sê-lo-ás do bom povo?

Escuta pois: nós sabemos
que és nosso inimigo. Por isso vamos
Encostar-te a paredão. Mas em consideração
dos teus méritos e das tuas boas qualidades
Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com
Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com
Uma boa pá debaixo de terra boa.



O Comboio De Serviço

1

Por ordem Expressa do Führer,
o comboio de luxo expressamente feito para o congresso
do Partido em Nuremberg
recebeu o nome simples de COMBOIO DE SERVIÇO.
Os que o tomam prestam com isso um serviço
ao povo alemão.

2

O comboio de serviço
é uma obra-prima da técnica ferroviária. Os passageiros
tem apartamentos privativos. Pelas largas janelas
vêem os camponeses alemães mourejar os campos.
Se por acaso transpirassem nesse momento
poderiam tomar banho
Em cabines cobertas de ladrilhos.
Um sutil sistema de luzes permite-lhes
Ler à noite, de pé, sentados ou deitados, os jornais
Com as grandes reportagens sobre os benefícios do regime
Os vários apartamentos
Comunicam entre si por linhas telefônicas
Tal como as mesas dos grandes dancing's cujos clientes
Podem pedir às mulheres das mesas vizinhas
O preço que cobram.
Sem sair da cama os passageiros também podem
Ligar o rádio, que transmite as grandes reportagens
Sobre os erros do regime. Jantam,
Se assim o desejarem, no respectivo apartamento, e fazem as
respectivas necessidades
Em privadas revestidas de mármore.
Cagam
na Alemanha.



Unicamente Por Causa Da Desordem Crescente

Unicamente por causa da desordem crescente
Nas nossas cidades com suas lutas de classes
Alguns de nós nestes anos decidimos
Não mais falar nos grandes portos, da neve nos telhados,
das muralhas,
Do perfume das maçãs maduras na despensa, nas impressões da carne,

De tudo o que faz o homem redondo e humano, mas
Falar só da desordem
E portanto ser parciais, secos, enfronhados nos negócios
Da política, e no rádio e "indigno" vocabulário
De economia dialética,
Para que esta terrível pesada promiscuidade
Das quedas na neve (elas não são só frias, nos bem o sabemos),
Da exploração, da tentação da carne e da justiça de classes,
Não nos leve a aceitação deste mundo tão diverso
Nem ao prazer das contradições de uma vida tão sangrenta.
Vocês entendem.



Da Violência

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.



Monólogo De Uma Atriz Enquanto Se Maquila

Vou fazer o papel de uma bêbada
que vende os filhos
em Paris, nos tempos da Comuna.
Tenho apenas cinco réplicas.

E preciso de me deslocar, de subir a rua.
Caminharei como gente livre,
gente que só o álcool
quis libertar e voltar-me-ei
para o público.
Analisei as minhas cinco réplicas como os documentos
que se lavam com ácido para descobrir sob os caracteres visíveis
outros possíveis caracteres. Pronunciarei cada réplica
com a melhor acusação
contra mim e contra todos os que me olham.

Se eu não refletisse, maquilar-me-ia simplesmente
como uma velha beberrona
doente e decadente. Mas vou entrar em cena
como uma bela mulher que guarda a marca da distribuição
na pálida pele outrora macia e agora cheia de rugas
outrora atraente e agora repelida
pra que ao vê-la cada um se interrogue: quem
fez isto?



Quem é teu inimigo?

O que tem fome e te rouba
o último pedaço de pão chama-o teu inimigo.
Mas não saltas ao pescoço
de teu ladrão que nunca teve fome.



Elogio Da Dialética

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas
continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração:
Isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes, falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? De nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe e o que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.



Elogio da terceira coisa

Sempre se ouve quão depressa
as mães perdem os filhos, mas eu
preservei o meu. Como o preservei? Através
da terceira coisa.
Eu e ele éramos dois, mas a terceira
coisa comum, a causa comum, foi ela
que nos uniu.
Eu mesma ouvi, às vezes,
conversas entre filhos e pais.
Mas como eram melhores as nossas conversas
sobre a terceira coisa, que nos era comum,
grande e comum para tantos homens!
Que perto nos encontrávamos, perto
dessa coisa: Que bom era para nós essa
boa coisa perto!



Elogio do Comunismo

Ele é razoável. Todos o compreendem. Ele é simples.
Você, por certo, não é nenhum explorador. Você pode entendê-lo.
Ele é bom para você. Informe-se sobre ele.
Os idiotas dizem-no idiota e os porcos dizem-no porco.
Ele é contra a sujeira e contra a estupidez.
Os exploradores dizem-no um crime,
mas nós sabemos
que ele é o fim dos crimes;
ele não é a loucura e sim
o fim da loucura.
Não é o caos e sim
uma nova ordem.
Ele é a simplicidade.
O difícil de fazer.



Elogio do Trabalho Clandestino

É bonito
usar da palavra na luta de classes.
Clamar alto e bom som pela luta das massas.
Pisar os opressores, libertar os oprimidos.
Árdua e útil é a pequena tarefa de cada dia
que secreta e tenaz tece
a rede do Partido sob
os fuzis apontados dos capitalistas.
Falar, mas
escondendo o orador.
Vencer, mas
escondendo o vencedor.
Morrer, mas
dissimulando a morte.
Pela glória quem não faria grandes coisas?
Mas quem as faz pelo olvido?
E a glória busca em vão
os autores do grande feito.
Sai da sombra por um momento
rostos anônimos, dissimulados,
e aceitai;
o nosso agradecimento.



Nada É Impossível De Mudar

Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural.
Pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar.



Nossos inimigos dizem

Nossos inimigos dizem: a luta terminou.
Mas nós dizemos: ela começou.

Nossos inimigos dizem: a verdade está liquidada.
Mas nós sabemos: nós a sabemos ainda.

Nossos inimigos dizem: mesmo que ainda se conheça a verdade
ela não pode mais ser divulgada.
Mas nós a divulgaremos.

É a véspera da batalha.
É a preparação de nossos quadros.
É o estudo do plano de luta.
É o dia antes da queda de nossos inimigos.



Os tecelões de Kujan-Bulak homenageiam Lênin

1
Com freqüência, e generosamente
homenageou-se o camarada Lênin. Existem bustos
e estátuas.
Cidades receberam seu nome, e também crianças.
Fazem-se conferências em muitas línguas
há reuniões e demonstrações
de Xangai a Chicago, em homenagem a Lênin.
Mas assim o homenagearam os tecelões de Kujan-Bulak,
pequena localidade no sul do Turquistão:

Lá, vinte tecelões deixam à noite,
tremendo de febre, seu tear miserável.
A febre está em toda a parte: a estação
é tomada pelo zumbido dos mosquitos, nuvem espessa
que se levanta do pântano atrás do velho cemitério de camelos.
Mas a locomotiva, que
a cada duas semanas traz água e fumaça, traz
um dia também a notícia:
Que está próximo o dia de reverenciar o camarada Lênin.
E a gente de Kujan-Bulak,
gente pobre, tecelões,
decide que também na sua localidade será erguido
um busto de gesso para o camarada Lênin.
Mas quando o dinheiro é coletado para o busto
encontram-se todos frementes de febre, a contar
seus copeques duramente ganhos com mãos sôfregas.
E o guarda vermelho Stepa Gamalew, que
conta com cuidado e observa com rigor,
vê a disposição de homenagear Lênin e se alegra,
mas também vê mãos inseguras.
E faz de repente a proposta
de com o dinheiro para o busto comprar petróleo
e derramá-lo no pântano trás do cemitério de camelos
de onde vêm os mosquitos
que produzem a febre.
De modo assim a combater a febre em Kujan-Bulak, e isto
em honra do falecido
mas não esquecido
camarada Lênin.

Assim decidiram. No dia da homenagem conduziram
seus baldes amassados, cheios do petróleo negro
um atrás do outro
e regaram aquilo o pântano com aquilo.
Eles se ajudaram, ao homenagear Lênin
e o homenagearam, ao se ajudar, e o haviam, portanto,
compreendido.

2
Ouvimos como a gente de Kujan-Bulak
homenageou Lênin. E quando, à noite
o petróleo havia sido comprado e derramado no pântano,
ergueu-se um homem na reunião, e solicitou
que fosse colocada uma placa na estação
com a narrativa do acontecimento, descrevendo
precisamente a mudança do plano e a troca
do busto de Lênin pelo tonel de petróleo destruidor da febre.
E tudo em homenagem a Lênin.
E também isto fizeram,
e colocaram a placa.