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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Os Limites do Capítulo IV da Ontologia de Lukács - Fernando Frota Dillenburg

Texto apresentado no V Colóquio Internacional Marx e Engels organizado pelo Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) da Unicamp - Campinas (SP) em Novembro de 2007. Se encontra diponivel no endereco : http://www.unicamp.br/cemarx/anais_v_coloquio_arquivos/paginas/gt1sessao6.html


O objetivo deste trabalho é problematizar a respeito da interpretação de O capital feita por Lukács no capítulo IV da Ontologia do ser social, intitulado “Os princípios ontológicos fundamentais de Marx”, primeiro capítulo da Ontologia que trata sobre Marx.(1) Apesar de ser uma obra inacabada, a Ontologia recebeu uma revisão final de Lukács, o que confere a ela certo grau de precisão em relação às idéias do autor. Comecemos analisando o ponto de partida escolhido por Lukács ao discutir a obra madura de Marx.

I - O ponto de partida – a seção III de O capital

a) O valor como categoria inicial

Lukács comenta corretamente que Marx faz um caminho que vai do abstrato à totalidade concreta.(2) Esse caminho, afirma Lukács (1979: 46) “não pode partir de uma abstração qualquer”, pois um caminho que tomasse qualquer fenômeno como ponto de partida não levaria jamais à compreensão da totalidade, concluindo, por isso, que “o ponto de partida deve ser uma categoria objetivamente central no plano ontológico”. Mas que categoria seria essa? Para Lukács, (1979: 46) “a categoria inicial de O capital, como ‘elemento primário’, é o valor”.
Mas poderíamos perguntar: seria o valor a categoria inicial, o “elemento primário” de O capital? Nas primeiras linhas do Livro I, Marx (1982: 45; 1988: 49) afirma que:
a riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma “imensa coleção de mercadorias”, e a mercadoria individual como sua forma elementar. Nossa investigação começa (beginnt), portanto, com a análise da mercadoria (der Ware).

Fica evidente que a categoria inicial analisada por Marx em O capital não é o valor, mas a mercadoria. Para chegar ao valor, Marx faz o leitor percorrer um caminho. Ele parte das determinações mais abstratas, mais imediatas, mais sensíveis da mercadoria, aquelas ligadas ao seu corpo, que lhe conferem a qualidade de “satisfazer as necessidades humanas”, ou seja, as características que a tornam algo útil. “A utilidade de uma coisa”, afirma Marx, “faz dela um valor de uso (Gebrauchswert)”. Poderíamos dizer então que o valor de uso é a segunda categoria exposta em O capital. Marx (1982: 46; 1988: 50) desvela, em seguida, a terceira categoria: o valor-de-troca (Tauschwert), “que aparece, de início, como a relação quantitativa, a proporção na qual valores de uso de uma mesma espécie se trocam contra valores de uso de outra espécie, uma relação que muda constantemente no tempo e no espaço”. O valor de troca, por sua vez, é a forma de manifestação do valor (Werte), a quarta categoria exposta em O capital.
Portanto, para chegar a desvelar a categoria valor, Marx partiu da riqueza na sua forma mais abstrata (uma imensa coleção de mercadorias), buscou a forma mais simples de manifestação da riqueza (a mercadoria individual) para depois desvendar as contradições internas a essa mercadoria (inicialmente a contradição entre valor de uso e valor de troca e depois a contradição entre valor de uso e valor). É nesse sentido que Marx afirma (1982: 62; 1988: 75) que, “quando, no início deste capítulo, para seguir a maneira ordinária de falar, havíamos dito: a mercadoria é valor de uso e valor de troca, isso era, a rigor, falso. A mercadoria é valor de uso ou objeto de uso e ‘valor’”. Assim, ele partiu da falsidade da primeira contradição para chegar à contradição essencial, somente aí chegando a desvelar o valor.
Para isso, ele teve que deixar de lado (1982: 47; 1988: 52) “o valor de uso dos corpos das mercadorias”, restando-lhes apenas “uma propriedade, que é a de serem produtos do trabalho”, ou seja, produtos de “uma gelatina de trabalho humano indiferenciado, isto é, do dispêndio de força de trabalho humano”. Desse modo ele chegou ao valor, que é a manifestação do trabalho humano abstrato, ou seja, aquilo que há de comum a todas as mercadorias.
Esse percurso feito por Marx para chegar ao valor das mercadorias demonstra o equívoco de Lukács ao considerar o valor como categoria inicial de O capital. Sigamos, então, a exposição de Lukács.

b) o trabalho como categoria central

Lukács, (1979: 15) afirma que o trabalho seria a categoria central em O capital. Por isso ele (1979: 16) inicia sua exposição descrevendo o trabalho enquanto trabalho útil, formador de valores de uso, ação humana comum a todas as formações sociais, enquanto simples relação entre os homens e a natureza visando produzir um bem útil. Ou seja, Lukács inicia a exposição de O capital pelo item 1 do capítulo V, que na divisão original de Marx é o início da seção III.
Mas, seria correto afirmar que o trabalho, enquanto formador de valores de uso, é a categoria central da obra madura de Marx? Pensamos que quando Marx descreve o processo de trabalho como processo de produção de valores de uso, ou seja, como transformação da natureza em algo socialmente útil, ele não considera este um momento essencial da exposição de O capital, conforme pensa Lukács. Ao contrário, o item 1 do capítulo V representa um momento abstrato(3).
Uma indicação de que o item 1 do capítulo V consiste em mais uma abstração é feita pelo próprio Marx (1985: 154; 1988: 199), ao convidar o leitor, no final deste item, a voltar “ao nosso aspirante a capitalista. Deixamo-lo”, continua Marx, “depois de ele ter comprado no mercado todos os fatores necessários a um processo de trabalho, os fatores objetivos ou meios de produção e o fator pessoal ou a força de trabalho”. Com isso, Marx está encerrando aqui a abstração feita no item 1, e retornando ao que realmente interessa, à análise do modo de produção capitalista. Ao convidar o leitor a acompanhar o aspirante à capitalista, ele está convidando-o a voltar ao final do capítulo IV, a abandonar (Marx, 1985: 144; 1988: 189) “junto com o possuidor de dinheiro e o possuidor da força de trabalho, essa esfera ruidosa (geräuschvolle) existente na superfície e acessível a todos os olhos, para seguir os dois ao local oculto da produção, em cujo limiar se pode ler: No admittance except on business”. Ao entrar na esfera da produção, Marx (1985: 145; 1988: 191) afirma que “(...) já se transforma em algo a fisionomia de nossa dramatis personae. O antigo possuidor de dinheiro marcha adiante como capitalista, segue-o o possuidor da força de trabalho como seu trabalhador; um cheio de importância, sorriso satisfeito e ávido por negócios; o outro, tímido, contrafeito, como alguém que levou sua própria pele para o mercado e agora não tem mais nada a esperar, exceto o – curtume”.
Portanto, a referência ao aspirante à capitalista feita no final do item 1 do capítulo V remete o leitor ao final do capítulo IV, demarcando de maneira precisa que este item não passa de um momento abstrato da exposição.
Da mesma maneira que, no início do primeiro momento dialético, no início do capítulo I, ele iniciou pelo mais simples (a mercadoria individual) para buscar o que era comum a todas as mercadorias (o valor), no início do segundo momento dialético, no início do capítulo V, ele inicia, novamente, pelo mais simples, por aquilo que é comum a todos os modos de produção (o processo de trabalho).
Isso não quer dizer que o valor seja a categoria inicial ou que o trabalho seja a categoria central em O capital, como defende Lukács. Pensar assim seria essencializar um momento abstrato da exposição,(4) seria tomar o concreto pelo abstrato, ou seja, seria inverter completamente a intenção de Marx, que parte do processo de trabalho como momento abstrato, simples e comum a todas as formações sociais, para, a partir daí, desvelar os segredos ocultos por trás do processo capitalista de valorização do valor. Não por acaso, é isso que ele faz no próximo item do capítulo V. No início do item 2, Marx (1985: 155; 1988: 201) diz, ironicamente, que embora nosso capitalista seja um decidido progressista, o que ele quer “não é produzir só um valor de uso, mas uma mercadoria, não só valor de uso, mas valor e não só valor, mas também mais- valia (Mehrwert)”.
Aqui fica mais uma vez evidente que o trabalho enquanto produtor de valor de uso não é a categoria central de O capital. Ele é apenas um meio de produzir mais-valia. Que conseqüência teria trazido este equívoco de Lukács para a sua Ontologia? Em primeiro lugar, como acabamos de ver, o fato de ele considerar o trabalho útil a categoria central em O capital fez com que ele iniciasse a exposição da obra de Marx justamente pelo item 1 do capítulo V.
Mas, cabe perguntar: seria correto iniciar pelo processo de trabalho, ou seja, por aquilo que Marx expõe no item 1 do capítulo V de O capital? Seria correto alterar o modo de exposição original proposto por Marx?(5) Esta alteração na forma de expor não modificaria o conteúdo da obra? Ou será que o encadeamento lógico das idéias é algo de menor importância? Afinal, será possível chegar ao mesmo resultado iniciando por pontos de partida diferentes? Para sabermos o quanto esta inversão do ponto de partida interferiu na interpretação lukaciana de O capital, acompanhemos a seqüência da exposição da Ontologia.

II – O retorno à seção I – a contradição entre valor-de-uso e valor-de-troca

A seguir, Lukács retorna à seção I para demonstrar que, com o desenvolvimento da produção, surgem as trocas mercantis e, com elas, o valor-de-troca. Nesse sentido, afirma Lukács (1979: 19) “com o pôr socialmente objetivo do valor-de-uso, surge no curso do desenvolvimento social o valor-de-troca, no qual, se considerado isoladamente, desaparece toda objetividade natural”.
Percebe-se, então, que a seqüência da exposição de Lukács leva o leitor a concluir que os homens se diferenciaram dos outros animais por meio do trabalho; que através do desenvolvimento da produção social, os homens passaram a produzir um excedente; que este excedente conduziu à realização das trocas de mercadorias; e, assim, finalmente, surgiu o valor de troca. Ora, esse modo de expor reduz a teoria de Marx à antropologia, à mera descrição do desenvolvimento humano, sem descontinuidade, sem a demarcação de fronteiras ou de momentos de ruptura.6
Após todo esse qüiproquó, qual seria o próximo passo da exposição de Lukács? Ele dá, a seguir, um salto da seção I diretamente à seção III de O capital, desprezando a seção II. Mas seria correto desprezar a seção II?

III - O esquecimento do primeiro momento transitório – a seção II

No modo de exposição original de O capital, a seção II é o momento no qual Marx leva o leitor a superar suas próprias ilusões, baseadas nas noções de igualdade e liberdade próprias da economia política burguesa. Marx convida o leitor a abandonar a esfera da circulação e entrar para a esfera da produção. Marx (1985: 144-145; 1988: 189) observa que, “aqui, há de se mostrar não só como o capital produz, mas também como ele mesmo é produzido, o capital. O segredo da fabricação de mais-valia há de se finalmente desvendar”.
Este momento de transição entre as duas esferas é fundamental,(7) porque representa uma região que contém uma profunda negatividade contraditória, expressa na afirmação de Marx de que “o capital não pode originar-se da circulação e, tampouco, pode não originar-se da circulação. Deve, ao mesmo tempo, originar-se e não se originar dela”. Isso é chave do ponto de vista político-programático.(8) É como se Marx estivesse indicando aos dirigentes revolucionários que a contradição central entre as classes, gerada de maneira imanente, brotada da própria estrutura do capitalismo, está ligada ao momento da compra e venda da força de trabalho, pois é neste momento que se determina a parcela do valor produzido que ficará para cada uma das classes envolvidas no contrato de trabalho.(9)
Nesse sentido, esta seção consiste num momento fundamental, o momento da compra e venda da força de trabalho, exposto por Marx no item 3 do capítulo IV. Aqui aparece o primeiro esquecimento de Lukács. Veremos mais adiante as conseqüências disso. Por enquanto, continuemos seguindo o percurso feito por ele na sua Ontologia.
Na seção III, Marx desvela o segredo da produção da mais-valia. Sobre isso, Lukács (1979: 44) comenta corretamente que Marx percebe que “a força de trabalho é uma mercadoria sui generis, cujo valor de uso possui a qualidade peculiar de conduzir, durante a sua utilização real, a uma criação de valor”, ou seja, é a única mercadoria que produz mais-valia. Lukács (1979: 44-45) aborda o problema da luta em torno da jornada de trabalho, citando uma longa passagem do capítulo VIII, seção III, no qual Marx (1985: 190; 1988: 249) comenta que no momento da compra e venda da força de trabalho, o capitalista tem o direito de tentar prolongar o mais possível a jornada de trabalho e o trabalhador, por sua vez, tem o direito de tentar limitar a jornada de trabalho a uma determinada magnitude normal, isto é, aqui residem direitos iguais e opostos, e nestas situações, o que decide é a força. Marx expressa assim, de maneira aberta, a luta de classes pelo estabelecimento da jornada de trabalho. Em relação a isso, Lukács (1979: 45) afirma que “esses momentos extra-econômicos, por uma necessidade ditada pela própria lei do valor, surgem continuamente, na cotidianidade (por assim dizer) do movimento capitalista das mercadorias, no processo normal de realização da lei do valor”.
Embora Lukács tenha exposto corretamente a luta em torno da jornada de trabalho como um momento de manifestação da violência extra-econômica, isto é, como uma expressão da luta de classes, seu equívoco consiste em abstrair o momento seguinte, que é indissociável deste, exposto por Marx na seção VI: a luta em torno da manutenção do salário. Marx demonstra aqui como as diversas formas de salário (por peça, por tempo, etc.) servem para ocultar a exploração da força de trabalho, o que faz da produção capitalista de mercadorias a forma mais sofisticada de exploração do trabalho alheio. Com isso, Marx quer demonstrar que a exploração da força de trabalho está relacionada com a combinação do aumento da extensão da jornada e da redução do salário. Nada disso é exposto por Lukács.
A seguir, Lukács esquece mais um momento fundamental, o segundo momento transitório, o momento do retorno da instância da produção para a instância da circulação, ou seja, o momento da realização da mais-valia, ou conforme diz o próprio título do capítulo XXII, o momento da “transformação da mais-valia em capital”.

IV - O esquecimento do segundo momento transitório – a seção VII

a) O capítulo XXII:

No capítulo XXII, Marx demonstra que o capitalista não paga equivalente algum em troca da força de trabalho, pois é o próprio trabalhador que produz este equivalente através de seu trabalho, cabendo ao capitalista apenas lhe devolver, por meio do salário, o que ele próprio produziu. Marx afirma (1985: 166; 1988: 609):
o intercâmbio de equivalentes, que apareceu (erschien) como operação original [no capítulo V, FD], se torceu de tal modo que se troca apenas na aparência, pois, primeiro, a parte do capital que se troca por força de trabalho nada mais é que uma parte do produto de trabalho alheio, apropriado sem equivalente (ohne Äquivalent), e segundo, ela não somente é reposta por seu produtor, o trabalhador, como este tem de repô-la com novo excedente.
E conclui Marx: “a relação de intercâmbio entre capitalista e trabalhadores torna-se, portanto, mera aparência (Schein) pertencente ao processo de circulação, mera forma (blosse Form), que é alheia ao próprio conteúdo e apenas o mistifica”. Neste momento sintético, nesta segunda transição dialética, depois de ter percorrido todo o processo, iniciando pela esfera da circulação (Dinheiro --- Mercadoria = compra), passado pela esfera da produção (P), e voltado para a esfera da circulação (Mercadoria que contém mais-valia --- Dinheiro valorizado = venda), ele mostra que na esfera da circulação exposta inicialmente se manifestam apenas as formas mais aparentes dos fenômenos. Portanto, a seção I não é, como pensa Lukács, uma descrição antropológica do desenvolvimento da relação dos homens com a natureza que teria conduzido à produção e à troca de mercadorias. O que Marx expõe na seção I são as ilusões próprias da economia política, segundo a qual todos os homens seriam iguais produtores de mercadorias, que procuram o mercado para atender suas necessidades comuns. No capítulo XXII, estas ilusões de igualdade e liberdade entre os homens no capitalismo são negadas de maneira determinada por Marx.(10)
Por não falar uma única palavra sobre isso, Lukács leva o leitor a pensar que, para Marx, haveria equivalência na troca entre o capitalista e o trabalhador – exposta na seção III, capítulo V11 - e que os direitos entre os dois seriam iguais (como foi exposto na seção III, capítulo VIII). Lukács parece não perceber que Marx nega isso no capítulo XXII. Na realidade, no capitalismo o trabalhador não tem direito sequer à troca de equivalentes, pois a troca de equivalentes entre o capitalista e o trabalhador ocorre apenas na aparência. No capitalismo, o trabalhador não tem direito algum. É o que Marx afirma no capítulo XXIV.

b) O capítulo XXIV

De acordo com uma célebre passagem do capítulo XXIV (Marx, 1985: 293-294; 1988: 790), a tendência histórica da acumulação capitalista representa, para os trabalhadores, o aumento da “(...) extensão da miséria, da opressão, da servidão, da degeneração, da exploração (...)”. Portanto, no capitalismo, só o que resta aos trabalhadores é o aumento da sua degeneração enquanto classe. Baseado nisso, Marx propõe a auto-organização como única saída para os trabalhadores. Ele diz: “(...) mas [aumenta] também a revolta da classe trabalhadora, sempre numerosa, educada, unida e organizada (organisierten) pelo próprio mecanismo do processo de produção capitalista”. Mas, afinal, com que finalidade os trabalhadores se auto-organizariam? Com o fim de expropriar os capitalistas. Marx (1985: 294; 1988: 791) conclui dizendo: “soa a hora final da propriedade capitalista. Os expropriadores são expropriados (Die Expropriateurs werden expropriiert)”.
A respeito disso, Lukács não fala uma única palavra. Do capítulo XXIV, Lukács (1979: 45) comenta o seguinte:
Marx expõe, num capítulo particular, a gênese histórica do capitalismo, a chamada acumulação primitiva, uma cadeia secular de atos de violência extra-econômica, somente mediante os quais foi possível a criação das condições históricas que fizeram da força de trabalho aquela mercadoria específica que constitui a base das leis teóricas da economia do capitalismo.
Lukács observa corretamente que, para Marx (1985: 292; 1988: 787-788) a acumulação primitiva consiste no processo de separação entre os trabalhadores e as condições de trabalho. No entanto, de acordo com a citação acima, Lukács considera que esse processo já teria se encerrado, teria ficado para trás ou, para usar as suas próprias palavras, teria sido responsável apenas pela “criação das condições históricas” do surgimento da força de trabalho como mercadoria. Porém, uma passagem do capítulo XXIV deixa claro que essa não é a opinião de Marx (1985: 262; 1988: 742), pois ele observa que “tão logo a produção capitalista se apóie sobre seus próprios pés, não apenas conserva aquela separação, mas a reproduz em escala sempre crescente (stets wachsender Stufenleiter)”. A incompreensão de Lukács sobre este ponto fica ainda mais evidente no seguinte trecho deste mesmo capítulo, onde ele diz (Lukács, 1979: 73): “quando analisamos mais atrás a chamada acumulação primitiva, observamos que tão-somente quando essa se concluiu é que puderam entrar em ação as leis do capitalismo propriamente ditas, as leis puramente econômicas”.(12) (grifo nosso) Para ele, a acumulação primitiva teria dado lugar a uma nova forma de acumulação, a acumulação propriamente capitalista.
Como se não bastasse, Lukács comete mais um grave equívoco, quando se refere à acumulação originária, ao afirmar que “(...) o novo sistema econômico do capitalismo teria sido impossível sem essa anterior subversão extra-econômica das relações de distribuição” (grifo nosso). Ora, a acumulação originária não se refere exclusivamente às relações de distribuição, ou seja, às relações da esfera ilusória da circulação, mas principalmente às relações de propriedade, isto é, a acumulação originária é o processo de separação dos trabalhadores da propriedade dos meios de produção, processo esse que, segundo Marx, se aprofunda a cada dia.(13)

V – O passo final: um salto indeterminado ao socialismo

No final do capítulo IV da Ontologia, sem ter defendido claramente a necessidade de uma ruptura revolucionária, Lukács passa a descrever a transição do socialismo ao comunismo. Citando uma passagem de Lênin em O Estado e a revolução, Lukács (1979: 162) descreve como se daria a extinção do Estado na sociedade socialista. Assim, ao dar um salto direto ao socialismo, abstraindo todas as dificuldades da construção das condições subjetivas da revolução, Lukács transforma o socialismo numa utopia, numa imaginária sociedade do futuro, numa abstração idealista.(14) Lukács esquece que a teoria de Marx, que foi aplicada de maneira rigorosa por Lênin, é acima de tudo, uma teoria da negação do presente, da negação determinada do modo de produção capitalista, ou, como diz Marx no final do capítulo XXIV (1985: 294; 1988: 791), uma teoria cujo pressuposto é a negação da negação (Es ist Negation der Negation).
Assim, por todos os seus esquecimentos e equívocos, Lukács mostra-se incapaz de perceber que a categoria central de O capital não é o trabalho, mas a luta de classes, que já está, aliás, pressuposta em todo o Livro I,(15) pois, afinal, para que os homens se transformem em produtores de mercadorias é necessário destruir as comunidades primitivas, ou seja, é necessário iniciar o processo de expropriação da massa do povo. (Marx, 1985: 81; 1988: 102)
Por meio desses recortes arbitrários, Lukács retira, assim, todo o conteúdo dialético e revolucionário da obra madura de Marx. Apesar de expor a violência extra-econômica como a violência da luta de classes, Lukács não a coloca como algo pressuposto, como uma necessidade objetiva posta pela própria estrutura da sociedade capitalista. Ele esquece que a luta de classes é o fundamento de todo Livro I e que essa violência extra-econômica originária deve ser reposta pelos trabalhadores ou, em outras palavras, que a única alternativa para os trabalhadores é a sua auto-organização com o objetivo de expropriar os expropriadores.



(1) O primeiro capítulo da Ontologia trata do neopositivismo e do existencialismo; o segundo analisa o pensamento de Nikolai Hartmann; e o terceiro é um estudo sobre o pensamento de Hegel.
(2) A esse respeito, Marx (1989: 21) observa que “as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto pelo caminho do pensamento”. Este é, conclui ele, “decisivamente, o método científico correto”.
(3) Cfe. Benoit (1996: 27). Marx trabalha permanentemente com abstrações, o que, aliás, faz parte do método dialético utilizado por ele para expor o movimento do real, para expor “a vida da matéria”, ou seja, para expor o modo como o capital produz e como ele mesmo é produzido.
(4) Essa noção foi exposta numa das seções do grupo de estudos dos três livros de O capital, realizado na Unicamp e organizado pelo prof. Dr. Hector Benoit, com o apoio do Cemarx.
(5) Cfe. Benoit (1999).
(6) Lessa (2002: 115) já havia observado este problema na Ontologia de Lukács. Embora estivesse analisando o problema da política ao invés do trabalho, Lessa afirmou que Lukács “exagera os laços de continuidade entre a forma e o conteúdo das disputas sociais antes e após o surgimento das sociedades de classe, levando-o à afirmação da ‘universalidade’ da política”. No caso analisado por nós, poderíamos dizer, seguindo Lessa, que o exagero dos laços de continuidade teria levado Lukács à afirmação da “universalidade” do trabalho.
(7) Cfe. Benoit (1999: 85).
(8) Cfe. Benoit (1997). Vale lembrar que, ao escrever O capital, Marx era um militante revolucionário, pois, enquanto a redigia, ele contribuiu decisivamente para a fundação, em 1864, da Associação Internacional dos Trabalhadores, que posteriormente ficou conhecida como a I Internacional. Por isso, não há como desprezar o caráter político-programático contido em O capital. Era de se esperar que Lukács também tivesse as preocupações relacionadas ao programa partidário, pois ele foi, diferentemente de outros marxistas ocidentais, um militante de um partido comunista.
(9) Nesse sentido, Benoit (1999: 85) chama a atenção para o fato da seção II ser a única seção dos três livros composta por um único capítulo. Segundo ele, Marx busca esta forma justamente para ressaltar a importância desta seção, que consiste num dos momentos dialéticos fundamentais da exposição de O capital, o momento da transição da esfera da circulação para a esfera da produção.
(10) Cfe. Benoit (1996: 39).
(11) No final do capítulo V, Marx (1985: 160; 1988: 209) afirma, referindo-se à compra da força de trabalho pelo capitalista: “trocou-se equivalente por equivalente. O capitalista pagou, como comprador, toda mercadoria por seu valor, algodão, massa de fusos, força de trabalho (Arbeitskraft)”.
(12) No grupo de estudos mencionado na nota 4, levantou-se a questão de que, a rigor, a tradução mais precisa do termo utilizado por Marx em alemão (Die ursprüngliche Akkumulation) seria “a acumulação originária” ao invés de “acumulação primitiva”, que expressa justamente a noção de algo que ocorreu e continua ocorrendo.
(13) Para confirmar que essa separação se aprofunda a cada dia, basta observar como é cada vez mais remota a possibilidade de um trabalhador comprar os meios de produção necessários para organizar, ele próprio, um processo de produção, pois terá que enfrentar a concorrência dos grandes conglomerados monopolistas internacionais.
(14) Vale lembrar que Lênin escreveu O Estado e a revolução entre agosto e setembro de 1917, ou seja, dias antes da conquista do poder pelo proletariado russo. Portanto, para Lênin, a discussão a respeito do Estado socialista tinha uma aplicação prática imediata, ao contrário da abstrata discussão sobre um futuro indeterminado feita por Lukács na sua Ontologia.
(15) Cfe. Benoit (1996: 39)




Referências bibliográficas:
BENOIT, Hector. “Pensando com (ou contra) Marx? Sobre o método dialético de O
capital”. In: Crítica Marxista. São Paulo: Xamã, nº 8, 1999.
____ “Sobre a crítica (dialética) de O capital”. In: Crítica Marxista,
São Paulo: Brasiliense, nº 3, 1996.
____ “Sobre o desenvolvimento (dialético) do programa”. In: Crítica Marxista. São
Paulo: Xamã, n. 4, 1997.
LESSA, Sérgio. “Lukács: direito e política”. In: LESSA, Sérgio & PINASSI, Maria
Orlanda (orgs.). Lukacs e a atualidade do marxismo. São Paulo: Boitempo, 2002.
LUKÁCS, Georg. Ontologia do ser social. Os princípios ontológicos fundamentais de
Marx. São Paulo: Lech, 1979.
MARX, Karl. Elementos fundamentales para la crítica de la economia política
(Grundrisse) 1857-1858. México: Siglo XXI, 16ª ed., vol. I, 1989.
____ O capital. Crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, vols. I e II,
1985.
____ Das Kapital:Kritik der polititischen Ökonomie. Berlin: Dietz Verl., Bd. 1, 1988.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A obra tardia de Lukács - Ester Vaisman

Versão parcial do artigo ¨A obra tardia de Lukács e os revezes de seu itinerário intelectual¨ retirado da revista Trans/Form/Ação n:2


A incursão lukácsiana no debate da ontologia não é de modo algum fruto de inclinações particulares ou pessoais, mas surge do reconhecimento de que uma série de questões teóricas que deveriam ser tratadas a partir de uma nova perspectiva. As adversidades de seu tempo impunham - assim julgava o pensador húngaro - a enorme tarefa de retornar à obra de Marx, no intuito de reformular cabalmente as perspectivas teóricas vigentes, de buscar respostas aos descaminhos provocados pela vulgata stalinista que dominou quase toda a tentativa de compreensão teórica dos fenômenos mais importantes do século XX, além das graves distorções que provocara na recepção da obra de Marx.

Por isso mesmo, a última grande obra filosófica de György Lukács, Para uma Ontologia do Ser Social, constitui no interior da história do marxismo um caso à parte, uma vez que destoa do núcleo comum sobre o qual a obra de Marx foi compreendida ao longo de todo o século passado. Esta obra tem por mérito ter sido a primeira a destacar o caráter ontológico do pensamento de Marx, como já indicamos linhas acima.

O retorno sugerido possui uma peculiaridade frente a todo o edifício teórico que se ergueu sobre a base das proposituras marxianas: é uma afirmação enfática de que "ninguém se ocupou tanto quanto Marx da ontologia do ser social", como já sublinhamos anteriormente. Parte da denúncia de que o caráter ontológico do pensamento marxiano ficou obscurecido pela rigidez dogmática em que o marxismo se viu imerso e que rechaçava toda e qualquer discussão acerca da ontologia, qualificando-a de idealista e ou simplesmente metafísica. Na verdade, como o próprio Lukács sugere, esta rigidez nada mais é do que uma vertente específica das reflexões lógico-epistemológicas que passaram a dominar todo o cenário da filosofia desde o séc. XVII,5 que combatem vigorosamente "toda tentativa de basear sobre o ser o pensamento filosófico em torno do mundo", afirmando "como não científica toda pergunta em relação ao ser" (LUKÁCS, 1984, p.7; 1990, t.I, p.3). Não importa o quão antagônicas possam ser em relação a seus princípios filosóficos, ambas são perspectivas enrijecidas e reduzidas pelas mesmas amarras, uma vez que se fundam no interior das discussões lógico-gnosiológicas e, precisamente por isso, ambas estão incapacitadas de perceber que o cerne estruturador do pensamento marxiano são lineamentos ontológicos acerca do ser social.

Todo o vigor dos escritos ontológicos de Lukács possui duas direções básicas: volta-se contra as leituras mecanicistas provenientes principalmente do stalinismo e do marxismo vulgar ao mesmo tempo em que procura combater a crítica dos adversários de Marx, demonstrando como a incompreensão - e mesmo a recusa - de toda e qualquer ontologia encontra-se circunscrita em necessidades prementes da própria configuração da sociedade capitalista:

O combate sugerido por Lukács ao predomínio das reflexões lógico-epistemológicas tem, portanto, a perspectiva que concilia a posição teórica com a necessidade prática. Contra o predomínio manipulatório a que se viu reduzida a ciência no mundo do capital, a ontologia recoloca o problema filosófico essencial do ser e do destino do homem e sua auto-constituição contraditória.

A percepção de uma ontologia em Marx fornece a ele os elementos passíveis de estabelecer de uma vez por todas a ruptura com a gnosiologia. As reflexões de Lukács partem da crítica fundamental que postula que, em Marx, "o tipo e o sentido das abstrações, dos experimentos ideais, são determinados não a partir de pontos de vista gnosiológicos ou metodológicos (e tanto menos lógicos), mas a partir da própria coisa, isto é, da essência ontológica da matéria tratada" (idem, p.596; idem, p.302).

Revela-se nessas palavras o reconhecimento de uma fecunda inflexão do pensamento de Marx em relação a tudo o que foi produzido pela filosofia até então: "o objeto da ontologia marxista, diferentemente da ontologia clássica e subseqüente, é o que existe realmente: a tarefa é a de investigar o ente com a preocupação de compreender o seu ser e encontrar os diversos graus e as diversas conexões em seu interior". Instaura-se a partir desta determinação uma inflexão com os padrões científicos predominantes desde do século XVII. A novidade do pensamento de Marx deve ser entendida sob as bases de:

uma estrutura de caráter completamente novo: uma cientificidade que no processo de generalização, nunca abandona este nível (existência em-si), e que não obstante, em cada singular adequação aos fatos, em cada reprodução ideal de um nexo concreto, examina continuamente a totalidade do ser social e deste modo sopesa continuamente a realidade e o significado de cada fenômeno singular; uma consideração ontológico-filosófica da realidade existente em si que não vaga por sobre os fenômenos hipostasiando as abstrações, mas ao contrário, se põe, criticamente e autocriticamente no mais elevado nível de consciência, só para tomar cada existente na plena forma de ser que lhe é própria, que é específica propriamente deste. Nós cremos que Marx criou assim uma nova forma tanto de cientificidade geral quanto de ontologia, que é destinada no futuro a superar a constituição profundamente problemática, não obstante toda a riqueza dos fatos descobertos, da cientificidade moderna (idem, p.572; idem, p.275).

Esta nova caracterização da cientificidade é definida de um modo simples, porém pleno de conseqüências: as "categorias são formas e determinações da existência". Afirmar isto significa dizer, por um lado, que em tal propositura as categorias e conexões próprias ao ser assumem para o pensamento caráter de metro crítico no processo de construção das abstrações.

E arrematando de forma conclusiva, Lukács diferencia a "velha filosofia" da filosofia de Marx:

o marxismo distingue-se em termos extremamente nítidos das concepções do mundo precedentes: no marxismo o ser categorial da coisa constitui todo o ser da coisa, enquanto nas velhas filosofias o ser categorial era a categoria fundamental no interior da qual se desenvolviam as categorias da realidade. Não é que a história se desenvolva no interior do sistema das categorias, mas ao contrário, a história é a transformação do sistema das categorias. As categorias são, em suma, formas do ser (LUKÁCS, 1986, p.85).

O ser não é uma categoria abstrata, na medida em que é compreendido como totalidade concreta dialeticamente articulada em totalidades parciais. Esta estrutura constitutiva do ser, a que Lukács designa como um "complexo de complexos" – tomando de empréstimo a terminologia de Nicolai Hartmann – apresenta-se sempre por meio de uma intrincada interação dos elementos no interior de cada complexo. O complexo no interior desta perspectiva é compreendido e determinado como um conjunto articulado de categorias que se determinam reciprocamente, e estruturado de forma decisiva por uma categoria que atua como momento preponderante em seu interior. Desse modo a "universal processualidade do ser deriva não somente da complicada interação dos 'elementos' (complexos) no interior de cada complexo e dos complexos entre si, mas da presença cada vez de um übergreifendes Moment que fornece a direção objetiva do processo, o qual se configura por isso como um processo histórico" (SCARPONI, 1976, p.XIII).

Este enfrentamento – teórico e prático – forma a base do argumento que adverte para a necessidade de retorno a Marx, sem as peias erguidas pelo marxismo em geral. Trata-se de varrer das páginas da obra marxiana, uma discussão totalmente estranha à sua letra: afirmações que acusam a existência em Marx de um determinismo unívoco, proveniente da esfera da economia, que absolutiza a potência do fator econômico legando ao segundo plano a eficácia dos outros complexos da vida social. Ao contrário de um determinismo unívoco da esfera econômica sobre as outras instâncias da sociabilidade, como acusa grande parte de seus adversários, o cerne estruturador do pensamento econômico de Marx se funda na concepção da determinação recíproca das categorias que compõem o complexo do ser social. Nas palavras do próprio autor:

Este peculiar, paradoxal, raramente compreendido, método dialético, repousa na já acenada convicção de Marx, segundo a qual, no ser social o econômico e o extra-econômico continuamente se convertem um no outro, estando em uma insuprimível interação recíproca, da qual, como mostramos, não deriva nem um desenvolvimento histórico extraordinário privado de leis, nem uma dominação mecânica 'imposta por lei' do econômico abstrato e puro (LUKÁCS, 1984, p.585; 1990, t.I, p.290-1).

São, portanto, momentos que se apresentam permanentemente em um estado de determinação reflexiva. É a interação e inter-relação destes momentos que constitui a estrutura sobre a qual se move e dinamiza o processo de socialização do homem. As categorias da produção e reprodução da vida – esfera econômica – desenvolvem a função motor central desta dinâmica, todavia, só podem se desenvolver sob a forma de um momento ontologicamente primário de uma interação entre os complexos que vêm a existir na dialética objetiva entre acaso e necessidade. A base econômica permanece sempre como o momento preponderante, no entanto, isso não elimina a relativa autonomia das superestruturas, que se expressa de maneira definitiva na dialética de mútua reciprocidade determinativa existente entre estas e a esfera da economia. Portanto, as esferas superestruturais da sociedade não são simples epifenômenos da estrutura econômica. Longe de constituírem um reflexo passivo, estas estruturas podem agir (ou retroagir) sobre a base material em maior ou menor grau, sempre, entretanto, no interior das "condições, possibilidades ou impedimentos" que esta lhe determina.

O que caracteriza e determina a especificidade da atividade humana é o fato de ser uma "atividade posta", ou seja, é a configuração objetiva de um fim previamente ideado - pôr teleológico. O trabalho passa a ser entendido assim como a unidade entre o pôr efetivo de uma dada objetividade e a atividade ideal prévia diretamente regida e mediada por uma finalidade específica. Neste sentido, Lukács define o resultado final do trabalho como uma "causalidade posta", o que significa dizer que se trata de uma causalidade que foi posta em movimento pela mediação de um fim humanamente configurado. Na atividade laborativa estas duas categorias, embora antagônicas e heterogêneas, formam uma unidade no interior do complexo. Portanto, de um lado, a causalidade posta, e de outro o pôr teleológico, constituem, sob a forma da determinação reflexiva, o fundamento ontológico da dinamicidade de complexos próprios apenas ao homem, na medida em que a teleologia é uma categoria existente somente no âmbito do ser social. Deste modo, definindo o pôr teleológico como célula geratriz da vida social, e vislumbrando no seu desenvolvimento e complexificação o conteúdo dinâmico da totalidade social, Lukács impossibilita a confusão entre as diretrizes e princípios que regem a vida da natureza e a vida da sociedade: "a primeira é dominada pela causalidade espontânea, não teleológica por definição, enquanto a segunda é constituída por obra dos atos finalistas dos indivíduos" (TERTULIAN, 1990, p.XX).

Após estas determinações sobre os fundamentos genéticos da ontologia do ser social, Lukács demonstra como estes mesmos atos teleológicos podem aparecer de forma diferenciada quando se considera o objeto sobre o qual incidem suas ações. Entre esses atos, a diferença fundamental se refere fundamentalmente ao objeto sobre o qual exercem sua ação. Os atos teleológicos primários incidem de forma imediata sobre um dado objeto ou elemento natural, enquanto os atos teleológicos secundários têm como finalidade a consciência de outros homens, ou seja, "não são mais intervenções imediatas sobre objetos da natureza, mas intencionam provocar estas intervenções por parte de outras pessoas" (LUKÁCS, 1984, p.46; 1990, t.II, p.56). Desse modo, percebe-se também em que esfera da vida social, sempre atada à prática, se encontra a esfera da educação e suas conseqüências.

É a análise destas formas distintas dos atos teleológicos que nos auxilia a compreender o processo de desenvolvimento das fases superiores a partir da forma originária do trabalho. A dinâmica inerente às interações categoriais do trabalho não apenas instaura a origem humana como também determina a dinâmica das formas superiores da prática social. Nas formas superiores de sociedade elas ocupam um lugar de destaque, assumindo o papel preponderante na dinâmica deste processo. Os assim denominados atos teleológicos secundários tornam-se mais "desmaterializados" uma vez que se desvinculam da relação direta com o momento material da prática social. São estes atos, também designados por atos socio-teleológicos, que mais tarde dão origem a dimensões importantes da prática social, tais como a ética, a ideologia, a educação e inclusive - e esta é uma questão crucial para Lukács - a partir dela podemos vislumbrar a gênese das ações políticas.

Tanto a questão do trabalho quanto a complexificação da dinâmica da sociedade humana com o advento das formas superiores da vida social como a formação humana, entendidos no sentido mais lato do termo, são tratadas prevalentemente a partir da determinação recíproca e da superação da heterogeneidade entre teleologia e causalidade. Essas categorias formam, no interior das elaborações lukácsianas a base analítica de toda e qualquer ação do ser social. Nesse mesmo diapasão, identificamos outra tese lukácsiana: todo o processo social é posto em movimento por meio das ações teleológicas individuais, mas que em sua totalidade estes atos não possuem uma finalidade determinada, resulta daí todo um movimento que opera por meio de nexos causais espontâneos. Afirmação que nos leva, portanto - e aqui convém ressaltar esta determinação com toda a clareza -, a entender que no plano da totalidade do ser social está presente toda uma malha de nexos que atuam sob a forma de uma causalidade social. Fato que leva o pensador húngaro, com essas determinações, a assumir uma posição contrária a tendências no interior do próprio marxismo e contra ainda a filosofia hegeliana, ao asseverar a inexistência de uma teleologia na história.

Referências Bibliográficas

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VAISMAN, E. "O 'Jovem' Lukács: Trágico, Utópico, Romântico?". In: Revista Kriterion, nº112, 2005


5 "Após 1848, depois do declínio da filosofia hegeliana e, sobretudo, quando começa a marcha triunfal do neokantismo e do positivismo, os problemas ontológicos não são mais compreendidos. O neokantismo elimina da filosofia a incognoscível coisa em si, enquanto que para o positivismo a percepção subjetiva do mundo coincide com a sua realidade" (LUKÁCS, 1984, p.574; 1990, t.I, p.277).

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A Natureza Ontológica do Pensamento de Marx - Frederico Costa e Susana Vasconcelos

(grifo meu)

Nosso objetivo neste artigo é identificar os pressupostos que identificam o pensamento de Marx como uma ontologia. No primeiro momento indicaremos que a natureza ontológica da obra marxiana não é consenso na tradição marxista e, procuraremos rastrear as razões históricas que ofuscaram ou debilitaram o núcleo ontológico das contribuições de Marx. Depois, procuraremos indicar a importância do resgate da ontologia marxiana por Lukács, delimitando aproximadamente os contornos gerais da ontologia marxiana e sua diferenciação das ontologias anteriores, pois esta é uma ontologia de novo tipo.

MARXISMO POSSUI UMA NATUREZA ONTOLÓGICA?

A definição precisa dos lineamentos histórico-filosóficos que garantem a inteligibilidade interna da tradição inaugurada por Marx, principalmente em sua dimensão ontológica, é uma problemática posta pela contemporaneidade. Na verdade, pensamos que qualquer reflexão situada sob as coordenadas da tradição marxista, por mais específica que seja, deve estar sempre condicionada pela concepção de totalidade, e esta, na atualidade, apresenta a questão de definir se Marx fundou ou não uma ontologia do ser social.

Tal questão não é ponto pacífico. Em primeiro lugar pelo caráter especulativo freqüentemente ligado à tradição da reflexão ontológica. Primeiro, por exemplo, pensemos no caráter idealista das ontologias de Aristóteles, Tomás de Aquino e Hegel. Segundo pela tendência gnosiológica, própria do neopositivismo e do irracionalismo pós-moderno, que hiperdimensiona o sujeito mesmo quando busca negá-lo. Terceiro, pelo sociocentrismo, que dissolve a natureza nas relações sociais, ou seja, os homens pensam e fazem da natureza que existe, não tendo esta, portanto, mais uma existência autônoma. Por último, pela perspectiva de colocar a práxis como o núcleo da problemática do marxismo dissociada de sua fundamentação concreta no metabolismo entre o homem e a natureza. Assim, a título de exemplo, a assertiva contrária a uma ontologia marxiana pode ser encontrada nas leituras mais díspares entre si dentro da própria tradição marxista.

Para Althusser (2002), destacado entre outras coisas por suas concepções sobre os fenômenos ideológicos e suas contraposições à ciência, qualquer impostação ontológica é vista como um obstáculo epistemológico oriundo da ideologia do humanismo teórico:

Quais problemas reais podemos descobrir por trás das noções do humanismo teórico, revogados em sua impostura e em sua pretensão teórica? Cito os problemas essenciais, em correlação com os obstáculos epistemológicos principais que lhes “correspondem”. 1. Problema da definição da espécie humana ou da diferença específica que distingue as formas de existência da espécie humana das formas de existência das espécies animais (obstáculos: as noções de essência genérica do homem, de consciência etc.); 2. Problema da estrutura das formações sociais (obstáculos: as noções de Homem, de essência genérica do Homem, de coração ou de intersubjetividade, de consciência, de Sujeito etc.); 3. Problema da dialética da história como processo sem sujeitos (obstáculos: as noções de Homem, de Gênero, de sujeito, de alienação, de dialética-teleológica); 4. Problema das formas da individualidade (obstáculos: as noções de Homem, de Gênero, de indivíduo, de sujeito, de concreto etc.); Problema da natureza do ideológico (obstáculos: as noções de Homem, de consciência, de subjetividade etc.). (Idem, 2002, p.
52).

Para Prado Júnior (1981), que tantas contribuições trouxe para a historiografia brasileira e para divulgação do marxismo, o núcleo estruturante do pensamento de Marx também é a teoria do conhecimento:

Mesmo quando, numa atitude de coragem intelectual para época, critica o modismo althusseriano, o faz sob a perspectiva da teoria do conhecimento como núcleo estruturador da filosofia: “O menos que se pode dizer de Althusser é sua originalidade, direi mesmo extravagância, de tão aberrante do ordinário e corrente é sua interpretação do marxismo, e tão insólita a maneira como vê esta questão central da Filosofia que é a teoria do conhecimento (PRADO JÚNIOR, 1971, p. 73).

[...] o que se observará com toda clareza na obra de Marx, consiste no fato que, historicamente, é afinal na consideração do Conhecimento do Homem (aquilo que seriam as nossas ‘ciências humanas’ de hoje, e naturalmente o tema marxista por excelência) é aí, bem como no método de elaboração desse Conhecimento, que se revelaria com precisão o conjunto e generalidade do problema filosófico, isto é, a determinação em sua totalidade, e a caracterização do Conhecimento do Conhecimento que vem a ser o conteúdo e objeto central e geral da Filosofia, e onde ela encontra, em toda sua plenitude, o terreno que lhe é próprio e específico no complexo geral do Conhecimento. (p. 82).


Para Benoit (2003), crítico de Althusser e da dualidade materialismo histórico/materialismo dialético, a tentativa de encontrar uma ontologia na obra de Marx é resultado de um transpassamento ilegítimo da lógica hegeliana à perspectiva marxiana, pois qualquer postura ontológica estaria associada à velha metafísica: “[...] a idéia de uma ontologia dialética não-metafísica é algo incongruente do ponto de vista conceitual e, evidentemente, também, nesse sentido parece-me insustentável uma ontologia dialética marxista.” (p. 19).

Apesar de paradoxais, tais posturas anti-ontológicas são fruto, no nosso entender, do processo de divulgação e desenvolvimento posterior do pensamento marxiano, que veio a se constituir na denominada tradição marxista, a qual mesmo produzindo significativos avanços históricos para que o trabalho fosse liberto dos grilhões do capital, importou também – condicionada pelas mais diversas determinações culturais, sociais e econômicas –, numa série de desfigurações teóricas provocadas pela intromissão de elementos alheios à essência da obra marxiana.

Caso típico foi o do denominado “marxismo da Segunda Internacional”, que além de subestimar a função da consciência na constituição do ser social apresentou uma conceituação sociológica de ideologia como sendo uma concepção de mundo, ou seja, existiria uma ideologia burguesa e outra proletária, o que é bastante problemático por sua simplicidade. Pois, se é verdade que a ideologia dominante na sociedade é a da classe dominante, não é correto atribuir distorção ideológica apenas à manipulação das ideações pelos detentores do poder. As limitações ideológicas derivam, também, da divisão social do trabalho, da propriedade privada e da própria dilaceração da comunidade humana.

Tal crítica, não significa, que não tenham ocorrido conquistas teóricas, organizativas e políticas para a herança marxiana e para o proletariado sob a égide da Internacional Operário Socialista. Pensemos, por exemplo, nas conquistas trabalhistas, nos partidos operários e nas contribuições teóricas de figuras exponenciais como Kautsky, Plekhanov, Labriola, Mehring entre outros, nas áreas da história, arte,
economia, movimento agrário, cultura, e política. Porém, por uma série de determinações históricas, o núcleo ontológico-emancipatório do projeto marx-engelsiano se viu tolhido pelas posturas hegemônicas, deterministas-naturalistas e reducionistas, típicas do período.

A ausência de princípios teóricos sólidos oriundos do próprio cerne da obra marxiana induziu o marxismo da Segunda Internacional de maneira predominante, a sofrer profundas deformações. Enquanto na esfera política consolidou-se o reformismo, isto é, o distanciamento cada fez maior entre o programa mínimo – de reformas parciais no horizonte do capitalismo –, e o programa máximo – de superação da própria ordem burguesa:

No plano filosófico, o marxismo tropeça em limites de caráter economicista, pois a maioria tende a fazer dele uma doutrina de uma só linha (unilineare), na qual a economia determina rigidamente todos os outros planos da realidade. A frase juvenil de Marx – “é o ser social dos homens que determina a consciência, e não a consciência que determina o seu ser” – é entendida ao pé da letra, no sentido da existência de uma relação causal entre estrutura e superestrutura, economia e ideologia, com a conseqüente redução do marxismo a um rígido determinismo (OLDRINI, 1999, p. 69).


O próprio Engels, de certa maneira, reconheceu a fragilidade teórica do movimento socialista da Segunda Internacional, ao identificar a influência de Dühring nas fileiras da social-democracia alemã, e ser forçado a “deixar de parte outros trabalhos” para travar uma batalha ideológica de defesa, explicitação e divulgação dos fundamentos do marxismo no clássico Anti-Dühring. De acordo com Engels (1979, p. 5) “[...] parte da imprensa socialista se pôs a dar boas-vindas ao novo apóstolo, com um entusiasmo que não unicamente condescendência, mas deixava transparecer alguma inclinação para acolher, sem reservas, o senhor Dühring, e, o que é mais, a doutrina do senhor Dühring [...] Havia mesmo pessoas que já se julgavam no dever de difundir a doutrina entre os trabalhadores”.

Esse determinismo de cunho quase naturalista da Segunda Internacional estava associado a uma postura de negligenciar os aspectos filosóficos presentes na obra marxiana.

É importante destacar que a confirmação de uma filosofia imanente ao marxismo, “[...] implicava na universalidade teórica do marxismo e se opunha, nesse ponto, tanto ao oportunismo da Segunda Internacional quanto às ideologias burguesas” (MARKUS, 1974, p. 115).

Tal tendência, porém, tornou-se marginal juntamente com os aportes leninianos frente ao engessamento do marxismo como filosofia de Estado pela burocracia stalinista e a criação de uma escolástica laica mal denominada de “marxismo-leninismo”, bifurcada em materialismo dialético e materialismo histórico. No materialismo dialético Marx teria concebido uma “ciência geral do ser” que englobaria a natureza, a sociedade e o pensamento, independentemente de suas determinações específicas. Noutros termos, Marx seria um fundador de uma nova “filosofia geral” que forneceria a explicação coerente do ser em todas as suas modalidades. Tal filosofia marxista aplicada ao ser social constituiria o materialismo histórico, o qual teria como objeto as leis de evolução mais gerais da sociedade. Sem adentrarmos nos limites da citada demarcação, é interessante destacar que ela não encontra lastro na obra marxiana. Primeiro porque há a suposição de que na obra de Marx conteria uma filosofia da natureza, na medida em que esta se institui como uma teoria geral. Segundo porque é problemático mesmo baseando-se em alguns elementos da Ideologia Alemã ou no manuscrito inacabado de Engels Dialética da Natureza, sugerir tal posição de forma peremptória. Terceiro porque essa interpretação no limite tende a projetar na obra de Marx todo um conjunto de elaborações do que foi e é a tradição marxista que, muitas vezes, ignorava ou subestimava a relação específica entre Marx e Hegel, tendendo a fazer uma leitura rigorosamente cientificista e positivista de Marx.


UMA ONTOLOGIA DE NOVO TIPO

É com as pesquisas lukacsianas que vem à tona a problemática ontológica como aspecto essencial da obra marxiana. Quando Lukács termina sua Estética na década de 60 e, antes de iniciar sua projetada Ética, empreende, num esforço que consumiu aproximadamente seus últimos oito anos de vida, a produção de sua Ontologia do Ser Social (1981) como uma ampla introdução à citada Ética. Segundo Lukács, Marx instaura os fundamentos de uma ontologia de novo tipo. Marx pensa as relações do homem com sua história não de uma maneira especulativa, mas da perspectiva do ser social historicamente determinado, o que conduz a uma orientação radicalmente nova tanto das relações do indivíduo com sua história, como com a história do gênero – dimensões imanentes que constituem o processo histórico global.

Portanto, Marx ao afirmar a mutabilidade do existente, critica a sociedade burguesa. Com a superação do capitalismo há a possibilidade de iniciar a produção da história – sairmos da pré-história – e não o fim desta. Com isso, muda toda a reflexão e o tratamento de todas as categorias ontológicas. Tudo se integra na processualidade histórica, nada podendo ser anistórico. Categorias como, por exemplo: essência, fenômeno, singular, particular, universal, mediação e continuidade, são redimensionadas tendo como pressuposto que não são pensadas aprioristicamente em relação ao processo histórico que lhe dá efetividade, isto é, elas não têm sentido a não ser em suas existências concretas e nas suas possibilidades. Isso caracteriza a obra de Marx como uma verdadeira revolução teórica que instaura uma ontologia de novo tipo, e não uma simples vertente ontológica especulativa.

Assim, o núcleo estruturante da perspectiva inaugurada por Marx se constitui como uma ontologia – importante “[...] não esquecer que as categorias exprimem, portanto formas de existência, condições de existência determinadas [...]” (MARX, 1983, p. 224). Por isso, Lukács (1979, p. 11) afirma que:

[...] qualquer leitor sereno de Marx não pode deixar de notar que todos os seus enunciados concretos, se interpretados corretamente (isto é, fora dos preconceitos da moda), são entendidos – em última instância – como enunciados diretos sobre um certo tipo de ser, ou seja, são afirmações ontológicas.


Noutras palavras, o pensamento de Marx opera em primeiro plano com o que é o real, para aferir as questões epistemológicas e metodológicas impostas pelo ser para o seu conhecimento. Tal impostação fundante do ser sobre a esfera gnosiológica se expressa no Ad Feuerbach de maneira contundente, permitindo conclusões sobre a hierarquia entre ontologia e teoria do conhecimento dentro do pensamento marxiano como identifica Chasin (1995, p. 400-401):

[...] a Tese I estabelece a natureza da existência social, decifrada em termos de atividade sensível, e apenas na II toma lugar o problema do conhecimento, sendo este resolvido, o que tem peso demonstrativo, a partir do complexo de entificação firmado na primeira. Ou seja, a determinação do que – é – antecede a admissão e o tratamento de temas gnosio-epistêmicos. Ao contrário de qualquer abordagem sob critério gnosiológico, em que um pré- discurso nesse diapasão pretende fundamentar o discurso propriamente dito a respeito do objeto, no pensamento marxiano o tratamento ontológico dos objetos, sujeito incluso, não só é imediato e independente, como autoriza e fundamenta o exame da problemática do conhecimento. O exame desta é que depende de critério ontológico, e só por meio deste é que pode ser concebida em seu lugar próprio e na malha das relações devidas que propiciam sua adequada investigação. Lugar derivado e subseqüente na ordem dos discursos, uma vez que o conhecimento, sendo, entre outras, uma relação específica entre sujeito e objeto, pressupõe para efeito de sua abordagem a determinação preliminar das figuras obrigatórias nele envolvidas, o que promove sua inserção na rede das correlações em geral entre sujeito e objeto, facultando ser determinado em sua especificidade e em suas condições reais de possibilidade.

A pontuação ontológica formulada por Marx revela-se em suas primeiras inflexões antiespeculativas presentes desde a década de 40 do século XIX. A partir de 1843, Marx iniciou um processo de instauração de novos referenciais teóricos que se contrapuseram à especulação, ao logicismo e à abstratividade, sustentados por uma razão autosuficiente, o que é próprio do idealismo, em especial o de Hegel. Em Marx há, desde que começou a andar com os seus próprios pés, a postura teórica de identificar a importância da objetividade. Objetividade tanto no seu sentido geral da causalidade espontânea natural, quanto da realidade humana que se autoconstitui pelo trabalho. Entendemos, pois, que é o reconhecimento por parte de Marx, da posição hierárquica fundante do mundo sobre a subjetividade que institui o perfil ontológico imanente que irá caracterizar a revolução teórica marxiana, pois aí surge toda a radicalidade da crítica de natureza ontológica que:

[...] organiza a subjetividade teórica e assim faculta operar respaldado em critérios objetivos de verdade, uma vez que, sob tal influxo da objetividade o ser é chamado a paramentar o conhecer, ou, dito a partir do sujeito: sob a consistente modalidade do rigor ontológico, a consciência ativa procura exercer os atos cognitivos na deliberada subsunção, criticamente modulada, aos complexos efetivos, às coisas reais e ideais da mundaneidade (CHASIN, 1995, p. 362-363).

É esse instrumental teórico de novo tipo que permite romper, a partir de 1843, com o círculo de ferro do idealismo hegeliano, da especulação neo-hegeliana e da circularidade do político para buscar uma nova inteligibilidade para o social. Marx critica Hegel, por este deduzir a racionalidade dos fatos e processos não do seu encadeamento concreto, mas de um sujeito que estes expressariam – a “idéia”, isto é, o pensamento pensado. Partindo disso, Marx aponta que a crítica da esfera política só se torna efetiva e radical se fundamentada na compreensão da esfera social.

Foi a postura ontológica de Marx que o fez romper com toda uma tradição teórica ensimesmada na redução do político às formas jurídico-políticas. Pela primeira vez, a análise da sociedade civil torna-se o pressuposto da explicação do político. Por isso, Marx parte para o estudo da economia política, ou seja, o conjunto de concepções teóricas que a partir do último terço do século XVIII – especialmente na Inglaterra onde surgem as obras seminais de Adam Smith e David Ricardo – procura compreender as novas formas de sociabilidade postas pelo mundo emergente do capital.

A expressão teórica desse primeiro contato com a economia política, induzindo pela percepção ontológica de ir aos fundamentos do ser social burguês, são os Manuscritos de 1844. Então a partir da crítica das elaborações da economia política, que por seu caráter apologético tende a ser uma legitimação da sociedade dada, congelando, mistificando e eternizando suas categorias, Marx produz uma contundente crítica à sociedade burguesa, cujo núcleo está na descoberta do trabalho como demiurgo da realidade humana.

Isso faz com que na ontologia marxiana consciência e realidade objetiva sejam compreendidas como dois momentos com o mesmo estatuto ontológico, ou seja, a consciência não é um simples epifenômeno da realidade objetiva. É interessante destacar que a relação fundado-fundante está posta em termos ontológicos, noutras esferas como a política ou a educação, por exemplo. Dependendo de cada caso concreto pode ocorrer uma inversão quanto à importância da subjetividade ou da objetividade – sem esquecer que estas são categorias reflexivas que só na abstração podem ser desmembradas. Daí a extrema distância da perspectiva ontológica marxiana que possui como fundamento a unidade indissolúvel entre subjetividade e objetividade, presente na atividade matriz da sociabilidade, o trabalho.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

As Bases Ontológicas do Pensamento e da Atividade do Homem - Lukács

Texto de Georg Lukács retirado do sítio: http://antivalor.atspace.com/outros/lukacsindex.htm



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Quem quiser expor numa conferência, ainda que dentro de certos limites, ao menos os princípios mais gerais desse complexo de problemas, vai se encontrar diante de uma dupla dificuldade. Por um lado, seria necessário fornecer um panorama crítico do estágio atual da discussão sobre esse problema, e, por outro, caberia iluminar o edifício conceptual de uma nova ontologia, pelo menos em sua estrutura fundamental. Para tratarmos de modo mais ou menos satisfatório da segunda questão, teremos de renunciar a abordar - mesmo que sumariamente - a primeira. Todos sabem que nas últimas décadas, radicalizando as velhas tendências gnosiológicas, o neopositivismo dominou de modo incontrastado, com sua recusa de princípio em face de toda e qualquer colocação ontológica, considerada como não científica. E esse domínio se deu não apenas na vida filosófica propriamente dita, mas também no mundo da praxis. Se analisássemos bem as constantes teóricas dos grupos dirigentes políticos, militares e econômicos de nosso tempo, descobriríamos que elas - consciente ou inconscientemente - são determinadas por métodos de pensamento neopositivistas. Deriva disso a onipotência quase ilimitada desses métodos; e, quando o confronto com a realidade tiver conduzido à crise aberta, essa situação produzirá grandes abalos a partir da vida políticoeconômica até a filosofia no sentido mais amplo do termo. Mas, já que estamos apenas no início de tal processo, é suficiente aqui a sua simples menção.

Tampouco nos ocuparemos, neste local, das tentativas ontológicas das últimas décadas. Limitar-nos-emos a declarar simplesmente que as consideramos como extremamente problemáticas, bastando-nos recordar os últimos desenvolvimentos de um conhecidíssimo iniciador dessa corrente, como Sartre, para que fiquem registradas, quando menos, tal problemática e tal orientação.

Reveladora é, nesse caso, a relação com o marxismo. Na história da filosofia, como se sabe, raramente o marxismo foi entendido como uma ontologia. Em troca, o que aqui nos propomos fazer é mostrar como o elemento filosoficamente resolutivo na ação de Marx consistiu em ter esboçado os lineamentos de uma ontologia histórico-materialista, superando teórica e praticamente o idealismo lógico-ontológico de Hegel. Hegel foi um preparador nesse domínio, na medida em que concebeu a seu modo a ontologia como uma história; em contraste com a ontologia religiosa, a de Hegel partia de "baixo", do aspecto mais simples, e traçava uma história evolutiva necessária que chegava ao "alto", às objetivações mais complexas da cultura humana. Naturalmente, o acento caía sobre o ser social e seus produtos, assim como era característico de Hegel o fato de que o homem aparecesse como criador de si mesmo.

A ontologia marxiana afasta daquela de Hegel todo elemento lógico dedutivo e, no plano da evolução histórica, todo elemento teleológico. Com esse ato materialista de "repor sobre os próprios pés", não podia deixar de desaparecer igualmente - da série das momentos motores do processo - a síntese do elemento simples: Em Marx, o ponto de partida não é dado nem pelo átomo (como nos velhos materialistas), nem pelo simples ser abstrato (como em Hegel). Aqui, no plano ontológico, não existe nada análogo. Todo existente deve ser sempre objetivo, ou seja, deve ser sempre parte (movente e movida) de um complexo concreto: Isso conduz a duas conseqüências fundamentais. Em primeiro lugar, o ser em seu conjunto é visto como um processo histórico; em segundo, as categorias não são tidas como enunciados sobre algo que é ou que se torna, mas sim como formas moventes e movidas da própria matéria: "formas do existir, determinações da existência". Essa posição radical também na medida em que é radicalmente diversa do velho materialismo - foi interpretada, de diferentes modos, segundo o velho espírito; quando isso ocorreu, teve-se a falsa idéia de que Marx subestimava a importância da consciência com relação ao ser material. Demonstraremos mais tarde, concretamente, que esse modo de ver é equivocado. Aqui nos interessa apenas estabelecer que Marx entendia a consciência como um produto tardio do desenvolvimento do ser material. Aquela impressão equivocada só pode surgir quando tal fato é interpretado à luz da criação divina afirmada pelas religiões ou de um idealismo de tipo platônico. Para uma filosofia evolutiva materialista, ao contrário, o produto tardio não é jamais necessariamente um produto de menor valor ontológico. Quando se diz que a consciência reflete a realidade e, sabre essa base, torna possível intervir nessa realidade para modificá-la, quer-se dizer que a consciência tem um real poder no plano do ser e não - como se supõe a partir das supracitadas visões irrealistas - que ela é carente de força.


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Podemos aqui nos ocupar somente da ontologia da ser social. Contudo, não seremos capazes de captar sua especificidade se não compreendermos que um ser social só pode surgir e se desenvolver sobre a base de um ser orgânico e que esse último pode fazer o mesmo apenas sabre a base do ser inorgânico. A ciência já está descobrindo as formas preparatórias de passagem de um tipo de ser á outro; e também já foram esclarecidas as mais importantes categorias fundamentais das formas de ser mais complexas, enquanto contrapostas àquelas mais simples: a reprodução da vida em contraposição ao simples tornar-se outra coisa; a adaptação ativa, com a modificação consciente do ambiente, em contraposição à adaptação meramente passiva etc. Ademais, tornou-se claro que, entre uma forma mais simples de ser (por mais numerosas que sejam as categorias de transição que essa forma produz) e o nascimento real de uma forma ,mais complexa, verifica-se sempre um salto; essa forma mais complexa é algo qualitativamente novo, cuja gênese não pode jamais ser simplesmente "deduzida" da forma mais simples.

Depois.desse salto, tem sempre lugar o aperfeiçoamento da nova forma de ser. Todavia, embora surja sempre algo qualitativamente novo, em muitos casos tem-se a impressão de estar em face de uma simples variação dos modos reativos do ser fundante em novas categorias de efetividade, naquelas categorias que constituem precisamente o novo no ser da nova formação.

Tomemos o exemplo da luz: enquanto sobre as plantas ela ainda atua de modo puramente físico-químico (embora, na verdade, dando lugar já aqui a efeitos vitais específicos), na vista dos animais superiores a luz desenvolve formas de reação ao ambiente que já são especificamente biológicas. Do mesmo modo, o processo de reprodução assume na natureza orgânica formas cada vez mais correspondentes à sua própria essência, torna-se cada vez mais nitidamente um ser sui generis, ainda que jamais possa ser eliminado o seu enraizamento nas bases ontológicas originárias. Mesmo sem ter aqui a possibilidade sequer de mencionar um tal complexo de problemas, gostaríamos porém de recordar como o desenvolvimento do processo de reprodução orgânica no sentido de formas superiores, o seu tornar-se cada vez mais pura e expressamente biológico no sentido próprio do termo, forma - com a ajuda das percepções sensíveis - também uma espécie de consciência, importante epifenômeno, enquanto órgão superior do funcionamento eficaz dessa reprodução.

Para que possa nascer o trabalho, enquanto base dinâmico-estruturante de um novo tipo de ser, é indispensável um determinado grau de desenvolvimento do processo de reprodução orgânica. Também aqui teremos de deixar de lado os numerosos casos de capacidade de trabalhar que se mantêm como pura capacidade; tampouco podemos nos deter nas situações de beco sem saída, nas quais surge não apenas um certo tipo de trabalho, mas inclusive a conseqüência necessária do seu desenvolvimento, a divisão do trabalho (abelha etc.), situações porém em que essa divisão do trabalho - enquanto se fixa como diferenciação biológica dos exemplares da espécie - não consegue se tornar princípio de desenvolvimento posterior no sentido de um ser de novo tipo, mantendo-se ao contrário como estágio estabilizado, ou seja, como um beco sem saída no desenvolvimento.

A essência do trabalho consiste precisamente em ir além dessa fixação dos seres vivos na competição biológica com seu mundo ambiente. O momento essencialmente separatório é constituído não pela fabricação de produtos, mas pelo papel da consciência, a qual, precisamente aqui, deixa de ser mero epifenômeno da reprodução biológica: o produto, diz Marx, é um resultado que no início do processo existia "já na representação do trabalhador", isto é, de modo ideal.

Talvez surpreenda o fato de que, exatamente na delimitação materialista entre o ser da natureza orgânica e o ser social, seja atribuído à consciência um papel tão decisivo. Porém, não se deve esquecer que os complexos problemáticos aqui emergentes (cujo tipo mais alto é o da liberdade e da necessidade) só conseguem adquirir um verdadeiro sentido quando se atribui - e precisamente no plano ontológico - um papel ativo à consciência. Nos casos em que a consciência não se tornou um poder ontológico efetivo, essa oposição jamais pôde ter lugar. Em troca, quando a consciência possui objetivamente esse papel, ela não pode deixar de ter um peso na solução de tais oposições.

Com justa razão se pode designar o homem que trabalha, ou seja, o animal tornado homem através do trabalho, como um ser que dá respostas. Com efeito, é inegável que toda atividade laborativa surge como solução de resposta ao carecimento que a provoca. Todavia, o núcleo da questão se perderia caso se tomasse aqui como pressuposto uma relação imediata. Ao contrário, o homem torna-se um ser que dá respostas precisamente na medida em que - paralelamente ao desenvolvimento social e em proporção crescente - ele generaliza, transformando em perguntas seus próprios carecimentos e suas possibilidades de satisfazê-los; e quando, em sua resposta ao carecimento que a provoca, funda e enriquece a própria atividade com tais mediações, freqüentemente bastante articuladas. De modo que não apenas a resposta, mas também a pergunta é um produto imediato da consciência que guia a atividade; todavia, isso não anula o fato de que o ato de responder é o elemento ontologicamente primário nesse complexo dinâmico. Tão-somente o carecimento material, enquanto motor do processo de reprodução individual ou social, põe efetivamente em movimento o complexo do trabalho; e todas as mediações existem ontologicamente apenas em função da sua satisfação. O que não desmente o fato de que tal satisfação só possa ter lugar com a ajuda de uma cadeia de mediações, as quais transformam ininterruptamente tanto a natureza que circunda a sociedade, quanto os homens que nela atuam, as suas relações recíprocas etc.; e isso porque elas tornam praticamente eficientes forças, relações, qualidades etc., da natureza que, de outro modo, não poderiam exercer essa ação, ao mesmo tempo em que o homem liberando e dominando essas forças - põe em ser um processo de desenvolvimento das próprias capacidades no sentido de níveis mais altos.

Com o trabalho, portanto, dá-se ao mesmo tempo - ontologicamente - a possibilidade do seu desenvolvimento superior, do desenvolvimento dos homens que trabalham. Já por esse motivo, mas antes de mais nada porque se altera a adaptação passiva, meramente reativa, do processo de reprodução ao mundo circundante, porque esse mundo circundante é transformado de maneira consciente e ativa, o trabalho torna-se não simplesmente um fato no qual se expressa a nova peculiaridade do ser social, mas, ao contrário - precisamente no plano ontológico -, converte-se no modelo da nova forma do ser em seu conjunto.

Quanto maior for a precisão com que observarmos o seu funcionamento, tanto mais resultará evidente esse seu caráter. O trabalho é formado por posições teleológicas que, em cada oportunidade, põem em funcionamento séries causais. Basta essa simples constatação para eliminar preconceitos ontológicos milenares. Ao contrário da causalidade, que representa a lei espontânea na qual todos os movimentos de todas as formas de ser encontram a sua expressão geral, a teleologia é um modo de pôr - posição sempre realizada por uma consciência - que, embora guiando-as em determinada direção, pode movimentar apenas séries causais. As filosofias anteriores, não reconhecendo a posição teleológica como particularidade do ser social, eram obrigadas a inventar, por um lado, um sujeito transcendente, e, por outro, uma natureza especial onde as correlações atuavam de modo teleológico, com a finalidade de atribuir à natureza e à sociedade tendências de desenvolvimento de tipo teleológico. Decisivo aqui é compreender que se está em face de uma duplicidade: numa sociedade tornada realmente social, a maior parte das atividades cujo conjunto põe a totalidade em movimento e certamente de origem teleológica, mas a sua existência real - e não importa se permaneceu isolada ou se foi inserida num contexto - é feita de conexões causais que jamais s em nenhum sentido podem ser de caráter teleológico.

Toda praxis social, se considerarmos o trabalho como seu modelo, contém em si esse caráter contraditório. Por um lado, a praxis é uma decisão entre alternativas, já que todo indivíduo singular, sempre que faz algo, deve decidir se o faz ou não. Todo ato social, portanto, surge de uma decisão entre alternativas acerca de posições teleológicas futuras. A necessidade social só se pode afirmar por meio da pressão que exerce sobre os indivíduos (freqüentemente de maneira anônima), a fim de que as decisões deles tenham uma determinada orientação. Marx delineia corretamente essa condição, dizendo que os homens são impelidos pelas circunstâncias a agir de determinado modo "sob pena de se arruinarem". Eles devem, em última análise, realizar .por si as próprias ações, ainda que freqüentemente atuem contra sua própria convicção.

Dessa ineliminável condição do homem que vive em sociedade, podemos fazer derivar todos os problemas reais - naturalmente levando em conta que esses são mais complicados em situações mais complicadas - daquele complexo que costumamos chamar de liberdade. Sem ir além da região do trabalho em sentido estrito, podemos nos deter sobre as categorias de valor e de dever-ser. A natureza não conhece nenhuma das duas categorias. Na natureza inorgânica, as mudanças de um modo de ser para outro não têm, é claro, nada a ver com os valores. Na natureza orgânica, onde o processo de reprodução significa ontologicamente adaptação ao ambiente, pode-se já falar de êxito ou de fracasso; mas também essa oposição não ultrapassa - precisamente do ponto de vista ontológico - os limites de um mero ser-de-outro-modo. Completamente diversa é a situação quando nos deparamos com o trabalho. O conhecimento em geral distingue bastante nitidamente entre o ser-em-si, objetivamente existente, dos objetos, por um lado, e, por outro, o ser-para-nós, meramente pensado, que tais objetos adquirem no processo cognoscitivo. No trabalho, ao contrário, o ser-para-nós do produto torna-se uma sua propriedade objetiva realmente existente: e tratase precisamente daquela propriedade em virtude da qual o produto, se posto e realizado corretamente, pode desempenhar suas funções sociais. Assim, portanto, o produto do trabalho tem um valor (no caso de fracasso, é carente de valor, é um desvalor). Apenas a objetivação real do ser-para-nós faz com que possam realmente nascer valores. E o fato de que os valores, nos níveis mais altos da sociedade, assumam formas mais espirituais, esse fato não elimina o significado básico dessa gênese ontológica.

Um processo similar ocorre com o dever-ser. O conteúdo do dever-ser é um comportamento do homem determinado por finalidades sociais (e não por inclinações simplesmente naturais ou espontaneamente humanas). Ora, essencial ao trabalho é que nele não apenas todos os movimentas, mas também os homens que o realizam, devem ser dirigidos por finalidades determinadas previamente. Portanto, todo movimento é submetido a um deverser.

Também aqui não surge nada de novo, no que se refere aos elementos ontologicamente importantes, quando essa estrutura dinâmica se transfere para campos de ação puramente espirituais. Ao contrário, os anéis da cadeia ontológica, que do comportamento inicial levam até os subseqüentes comportamentos mais espirituais, aparecem em toda a sua clareza, diferentemente do ~que ocorre no caso dos métodos gnosiológico-lógicos, onde o caminho que leva das formas mais elevadas àquelas iniciais resulta invisível, ou, melhor dizendo, onde as segundas aparecem - do ponto de vista das primeiras - inclusive como oposições.

Se agora, partindo do sujeito que põe, lançamos um olhar sobre o processo global do trabalho, notamos imediatamente que esse sujeito realiza certamente a posição teleológica de modo consciente, mas sem jamais estar em condições de ver todos os condicionamentos da própria atividade, para não falarmos de todas as suas conseqüências. É óbvio que isso não impede que os homens atuem. De fato, existem inúmeras situações nas quais, sob pena de se arruinar, é absolutamente necessário que o homem aja embora tenha clara consciência de não poder conhecer senão uma parte mínima das circunstâncias. E, no próprio trabalho, o homem muitas vezes .sabe que pode dominar apenas uma pequena faixa de elementos circunstantes; mas sabe também - já que o carecimento urge e, mesmo nessas condições, o trabalho promete satisfazê-lo - que ele, de qualquer modo, é capaz de realizá-lo.

Essa ineliminável situação tem duas importantes conseqüências. Em primeiro lugar, a dialética interna do constante aperfeiçoamento do trabalho; isso se expressa no fato de que, enquanto o trabalho é realizado, seus resultados são observados etc., cresce continuamente a faixa de determinações que se tornam cognoscíveis e, por conseguinte, o trabalho se torna cada vez mais variado, abarca campos cada vez maiores, sobe de nível tanto em extensão quanto em intensidade. Na medida, porém, em que esse processo de aperfeiçoamento não pode eliminar o fato de fundo, ou seja, a incognoscibilidade do conjunto das circunstâncias, esse modo de ser do trabalho - paralelamente ao seu crescimento - desperta também a sensação íntima de uma realidade transcendente, cujos poderes desconhecidos o homem tenta de algum modo utilizar em seu próprio proveito. Não é aqui o local para uma análise detalhada das diversas formas de prática mágica, de fé religiosa etc., ~que se desenvolvem a partir dessa situação. Todavia, embora essa seja apenas, como é óbvio, uma das fontes de tais formas ideológicas, não podíamos deixar de mencioná-la. Em especial porque o trabalho é não apenas o modelo objetivamente ontológico de toda praxis humana, mas também - nos casos aqui mencionados - o modelo direto que serve de exemplo à criação divina da realidade, onde todas as coisas aparecem como produzidas teleologicamente por um criador onisciente.

O trabalho é um ato de pôr consciente e, portanto, pressupõe um conhecimento concreto, ainda que jamais perfeito, de determinadas finalidades e de determinados meios. Vimos que o desenvolvimento, o aperfeiçoamento do trabalho é uma de suas características ontológicas; disso resulta que, ao se constituir, o trabalho chama à vida. produtos sociais de ordem mais elevada.

Talvez a mais importante dessas diferenciações seja a crescente autonomização das atividades preparatórias, ou seja, a separação - sempre relativa - que, no próprio trabalho concreto, tem lugar entre o conhecimento, por um lado, e, por outro, as finalidades e os meios. A matemática, a geometria, a física, a química etc., eram originariamente partes, momentos desse processo preparatório do trabalho. Pouco a pouco, elas cresceram até se tornarem campos autônomos de conhecimento, sem porém perderem inteiramente essa respectiva função originária. Quanto mais universais e autônomas se tornam essas ciências, tanto mais universal e perfeito torna-se por sua vez o trabalho; quanto mais elas crescem, se intensificam etc., tanto maior se torna a influência dos conhecimentos assim obtidos sobre as finalidades e os meios de efetivação do trabalho. Uma tal diferenciação é já uma forma relativamente aperfeiçoada de divisão do trabalho. Essa divisão, todavia, é a conseqüência mais elementar do desenvolvimento do próprio trabalho. Mesmo antes que o trabalho houvesse atingido sua explicitação plena e intensivas - digamos, mesmo no período da apropriação dos produtos naturais -, esse fenômeno da divisão do trabalho já se manifesta na caça. Digna de nota, para nós, é aqui a manifestação de uma nova forma de posição teleológica; ou seja, aqui não se trata de elaborar um fragmento da natureza de acordo com finalidades humanas, mas ao contrário um homem (ou vários homens) é induzido a realizar algumas posições teleológicas segundo um modo pré-determinado. Já que um determinado trabalho (por mais que ,possa ser diferenciada a divisão do trabalho que o caracteriza) pode ter apenas uma única finalidade principal unitária, torna-se necessário encontrar meios que garantam essa unitariedade finalística na preparação e na execução do trabalho. Por isso, essas novas posições teleológicas devem entrar em ação no mesmo momento em que surge a divisão do trabalho; e continuam a ser, mesmo posteriormente, um meio indispensável em todo trabalho que se funda sobre a divisão do trabalho. Com a diferenciação social de nível superior, com o nascimento das classes sociais com interesses antagônicos, esse tipo de posição teleológica torna-se a base espiritual-estruturante do que o marxismo chama de ideologia. Ou seja: nos conflitos suscitados pelas contradições das modalidades de produção mais desenvolvidas, a ideologia produz as formas através das quais os homens tornam-se conscientes desses conflitos e neles se inserem mediante a luta.

Esses conflitos envolvem de modo cada vez mais profundo a totalidade da vida social. Partindo dos contrastes privados e resolvidos de modo diretamente .privado no trabalho individual e na vida cotidiana, eles chegam até aqueles graves complexos problemáticos que a humanidade vem se esforçando até hoje para resolver, através da luta, em suas grandes reviravoltas sociais. O tipo estrutura de fundo, porém, revela sempre traços essenciais comuns: assim como, no próprio trabalho, o saber real sobre os processos naturais que em cada oportunidade se põem em questão, foi inevitável para poder desenvolver com êxito o intercâmbio orgânico da sociedade com a natureza, do mesmo modo um certo saber sobre o modo pelo qual os homens são feitos, sobre as suas recíprocas relações sociais e pessoais, é aqui indispensável para induzi-los a efetuar as posições teleológicas desejadas. Todo o processo através do qual, a partir dessas concepções surgidas por necessidade vital, que no início assumiram as formas do costume, da tradição, dos hábitos e também do mito, desenvolveram-se subseqüentemente procedimentos racionalizantes, aliás até mesmo algumas ciências, esse processo é - nas palavras de Fontane - um campo imenso.

Portanto, não é possível abordá-lo numa conferência. Podemos apenas afirmar que os conhecimentos que influenciam o intercâmbio orgânico com a natureza são muito mais facilmente desvinculáveis das posições teleológicas que condicionaram o seu aparecimento do que os conhecimentos dirigidos no sentido de influenciar os homens e os grupos humanos. Nesse último caso, a relação entre finalidade e fundamentação cognoscitiva é muito mais íntima. Essa afirmação, contudo, não nos deve induzir ao exagero gnosiológico, a identificar ou diferenciar de modo absoluto os dois processos. Trata-se de elementos ontológicos comuns ou diversos, que estão simultaneamente presentes e que podem encontrar solução tão-somente numa concreta dialética histórico-social.

Foi-nos possível, nesse local, mencionar apenas a base sócioontológica. Todo evento social decorre de posições teleológicas individuais;mas, em si, é de caráter puramente causal. A gênese teleológica, todavia, tem naturalmente importantes conseqüências para todos os processos sociais. Por um lado, podem chegar à condição de ser determinados objetos, com tudo o que disso decorre, que não poderiam ser produzidos pela natureza; basta pensar, para continuar ainda no campo dos primitivos, no exemplo da roda. Por outro lado, toda sociedade se desenvolve até níveis onde a necessidade deixa de operar de maneira mecânico-espontânea; o modo de manifestação típico da necessidade passa a ser, cada vez mais nitidamente e a depender do caso concreto, aquele de induzir, impelir, coagir etc., os homens a tomarem determinadas decisões teleológicas, ou então de impedir que eles o façam. O processo global da sociedade é um processo causal, que possui suas próprias normatividades, mas não é jamais objetivamente dirigido para a realização de finalidades. Mesmo quando alguns homens ou grupos de homens conseguem realizar suas finalidades, os resultados produzem, via de regra, algo que é inteiramente diverso daquilo que se havia pretendido. (Basta pensar no modo pelo qual o desenvolvimento das forças produtivas, na Antiguidade, destruiu as bases da sociedade; ou no modo pelo qual, num determinado estágio do capitalismo, esse mesmo desenvolvimento provocou crises econômicas periódicas etc.) Essa discrepância interior entre as posições teleológicas e os seus efeitos causais aumenta com o crescimento das sociedades, com a intensificação da participação sócio-humana em tais sociedades. Naturalmente, também isso deve ser entendido em sua contraditoriedade concreta. Certos grandes eventos econômicos (como, por exemplo, a crise de 1929) podem se apresentar sob a aparência de irresistíveis catástrofes naturais. A história mostra, porém, que precisamente nas reviravoltas mais significativas - basta pensar nas grandes revoluções - foi bastante importante o que Lênin costumava chamar de fator subjetivo. É verdade que a diferença entre a finalidade e seus efeitos se expressa como preponderância de fato dos elementos e tendências materiais no processo de reprodução da sociedade. Isso não significa, todavia, que esse processo consiga afirmar-se sempre de modo necessário, sem ser abalado por nenhuma resistência. O fator subjetivo, resultante da reação humana a tais tendências de movimento, conserva-se sempre, em muitos campos, como um fator por vezes modificador e, por vezes, até mesmo decisivo.



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Tentamos mostrar como as categorias fundamentais e suas conexões no ser social já estão dadas no trabalho. Os limites dessa conferência não nos permitem seguir, ainda que só de modo indicativo, a ascenção gradual do trabalho até a totalidade da sociedade. (Por exemplo: não ,podemos nos deter sobre transições importantes como a do valor-de-uso ao valor-de-troca, desse último ao dinheiro, etc.) Por isso, os ouvintes - a fim de que eu possa quando menos me referir à importância que os elementos até aqui esboçados têm para o conjunto da sociedade, para seu desenvolvimento, para suas perspectivas - devem permitir que eu passe por alto de zonas de intermediação concretamente bastante importantes, com o objetivo de esclarecer assim um pouco mais amplamente, pelo menos, o vínculo mais geral desse início genético da sociedade e da história com o seu próprio desenvolvimento.

Antes de mais nada, trata-se de ver em que consiste aquela necessidade econômica que amigos e inimigos de Marx, analisando com escassa compreensão o conjunto da sua obra, costumam exaltar ou denegrir. Cabe sublinhar, de imediato, uma coisa óbvia: não se trata de um processo de necessidade natural, embora o próprio Marx em polêmica contra o idealismo - tenha algumas vezes usado essa expressão. À razão ontológico fundamental - causalidade posta em movimento por decisões teleológicas alternativas -, já fizemos referência. Desse fato decorre o seguinte: que nossos conhecimentos positivos a respeito devem, quanto aos aspectos concretamente essenciais, ter um caráter post festum. Decerto, algumas tendências gerais são visíveis; mas, concretameute, elas se traduzem na prática de modo bastante desigual, razão por que tão-só num segundo momento é que conseguimos saber qual é o seu caráter concreto. Na maioria dos casos, apenas os modos de realização dos produtos sociais mais diferenciados, mais complexos, é que mostram claramente qual foi na realidade a orientação evolutiva de um período de transformação. Portanto, tais tendências só podem ser apreendidas de modo preciso num segundo momento; da mesma maneira, os julgamentos, aspirações, previsões etc., sociais ~que se formaram no entretempo - e que não são de modo algum indiferentes em face da explicitação das próprias tendências - só são confirmados ou refutados numa etapa posterior.

No desenvolvimento econômico ocorrido até hoje, podemos notar a presença de três orientações evolutivas desse tipo, as quais se realizaram de modo evidente, ainda que freqüentemente desigual, mas de qualquer modo independentemente da vontade e do saber que serviram de fundamento às posições teleológicas.

Em primeiro lugar, há uma tendência constante no sentido de diminuir o tempo de trabalho socialmente necessário à reprodução dos homens. Trata-se de uma tendência geral, que hoje já ninguém contesta.

Em segundo lugar, esse processo de reprodução tornou-se cada vez mais nitidamente social. Quando Marx se refere a um constante "recuo dos limites naturais", pretende indicar, por um lado, que a vida humana (e portanto social) jamais pode desvincular-se inteiramente da sua base em processos naturais; e, .por outro, que - tanto no plano quantitativo quanto no qualitativo - diminui constantemente o papel do elemento puramente natural, quer na produção quer nos produtos; ou, em outras palavras, todos os momentos decisivos da reprodução humana (basta pensar em aspectos naturais como a nutrição ou a sexualidade) acolhem em si, com intensidade cada vez maior, momentos sociais, pelos quais são constante e essencialmente transformados.

Em terceiro lugar, o desenvolvimento econômico cria ligações quantitativas e qualitativas cada vez mais intensas entre as sociedades singulares originariamente pequenas e autônomas, as quais no início - de modo objetivo e real - compunham o gênero humano. O predomínio econômico do mercado mundial, que hoje se afirma cada vez mais fortemente, mostra que a humanidade já se unificou, pelo menos no sentido econômico geral. É verdade que tal unificação existe apenas como ser e ativação de princípios econômicos reais de unidade. Ela se realiza concretamente num mundo onde essa integração abre para a vida dos homens e dos povos os mais graves E ásperos conflitos (por exemplo: a questão dos negros nos Estados Unidos).

Em todos esses casos, estamos diante de tendências importantes, decisivas, da transformação tanto externa quanto interna do ser social, através das quais esse último chega à forma que lhe é própria; ou seja, o homem deixa a condição de ser natural para tornar-se pessoa humana, transforma-se de espécie animal que alcançou um certo grau de desenvolvimento relativamente elevado em gênero humano, em humanidade. Tudo isso é o produto das séries causais que surgem no conjunto da sociedade. O processo em si não tem uma finalidade. Seu desenvolvimento no sentido de níveis superiores, por isso, contém a ativação de contradições de tipo cada vez mais elevado, cada vez mais fundamental. O progresso é decerto uma síntese das atividades humanas, mas não o aperfeiçoamento no sentido de uma teleologia qualquer: por isso, esse desenvolvimento destrói continuamente os resultados primitivos que, embora belos, são economicamente limitados; por isso, o progresso econômico objetivo aparece sempre sob a forma de novos conflitos sociais. É assim que surgem, a partir da comunidade primitiva dos homens, antinomias aparentemente insolúveis, isto é, as oposições de classe; de modo que até mesmo as piores formas de inumanidade são o resultado desse progresso. Nos inícios, o escravagismo constitui um progresso em relação ao canibalismo; hoje, a generalização da alienação dos homens é um sintoma do fato de que o desenvolvimento econômico está para revolucionar a relação do homem com otrabalho.

A individualidade já aparece como uma categoria do ser natural, assim como o gênero. Esses dos pólos do ser orgânico podem se elevar a pessoa humana e o ,gênero humano no ser social tão-somente de modo simultâneo, tão-somente no processo que torna a sociedade cada vez mais social. O materialismo anterior a Marx não chegou sequer a colocar o problema. Para Feuerbach, segundo a objeção crítica de Marx, há apenas o indivíduo humano isolado, por um lado, e, por outro, um gênero mudo, que relaciona os múltiplos indivíduos somente no plano natural. Tarefa de uma ontologia materialista tornada histórica é, ao contrário, descobrir a gênese, o crescimento, as contradições no interior do desenvolvimento unitário; é mostrar que o homem, como simultaneamente produtor e produto da sociedade, realiza em seu serhomem

algo mais elevado que ser simplesmente exemplar de um gênero abstrato, que~ o gênero - nesse nível ontológico, no nível do ser social desenvolvido - não é mais uma mera generalização à qual os vários exemplares se lìguem "mudamente"; é mostrar que esses, ao contrário, elevam-se até o ponto de adquirirem uma voz cada vez mais claramente articulada, até alcançarem a síntese ontológico-social de sua singularidade, convertida em individualidade, com o gênero humano, convertido neles, por sua vez, em algo consciente de si.


4

Como teórico desse ser e desse devir, Marx extrai todas as conseqüências do desenvolvimento histórico. Descobre que os homens se autocriaram como homens através do trabalho, mas que a sua história até hoje foi apenas a pré-história da humanidade. A história autêntica poderá começar apenas com o comunismo, com o estágio superior do socialismo. Portanto, o comunismo não é para Marx uma antecipação utópico-ideal de um estado de perfeição imaginada à qual se deve chegar; ao contrário, é o início real da explicitação das energias autenticamente humanas que o desenvolvimento ocorrido até hoje suscitou, reproduziu, elevou contraditoriamente a níveis superiores, enquanto importantes realizações da humanização. Tudo isso é resultado dos próprios homens, resultado da atividade deles. "Os homens fazem sua história", diz Marx, "mas não em circunstâncias por eles escolhidas". Isso quer dizer o mesmo que antes formulamos do seguinte modo: o homem .é um ser que dá respostas. Expressa-se aqui a unidade - contida de modo contraditoriamente indissolúvel no ser social - entre liberdade e necessidade; ela já opera no trabalho como unidade indissoluvelmente contraditória das decisões teleológicas entre alternativas com as premissas e conseqüências ineliminavelmente vinculadas por uma relação causal necessária. Uma unidade que se reproduz continuamente sob formas sempre novas, cada vez mais complexas e mediatizadas, em todos os níveis sócio-pessoais da atividade humana.

Por isso, Marx fala do período inicial da autêntica história da humanidade como de um "reino da liberdade", o qual porém "só pode florescer sobre a base do reino da necessidade" (isto é, da reprodução econômico-social da humanidade, das tendências objetivas de desenvolvimento à qual nos referimos anteriormente).

Precisamente essa ligação do reino da liberdade com sua base sóciomaterial, com o reino econômico da necessidade, mostra como a liberdade do gênero humano seja o resultado de sua própria atividade. A liberdade, bem como sua possibilidade, não é algo dado por natureza, não é um dom do "alto" e nem sequer uma parte integrante - de origem misteriosa - do ser humano. É o produto da própria atividade humana, que decerto sempre atinge concretamente alguma coisa diferente daquilo que se propusera, mas que nas suas conseqüências dilata - objetivamente e de modo contínuo - o espaço no qual a liberdade se torna possível; e tal dilatação ocorre, precisamente, de modo direto, no processo de desenvolvimento econômico, no qual, por um lado, acresce-se o número, o alcance etc., das decisões humanas entre alternativas, e, por outro, eleva-se ao mesmo tempo a capacidade dos homens, na medida em que se elevam as tarefas a eles colocadas por sua própria atividade. Tudo isso, naturalmente, permanece ainda no "reino da necessidade".

O desenvolvimento do processo de trabalho, do campo de atividade, tem porém outras conseqüências, dessa feita indiretas: antes de mais nada, o surgimento e a explicitação da personalidade humana. Essa tem, como base inevitável, a elevação das capacidades, mas não é sua simples e linear consecução. Aliás, é possível constatar que - no desenvolvimento até agora verificado - manifesta,se inclusive, entre os dois processos, uma freqüente relação de oposição. Uma oposição que se apresenta diversamente nas diferentes etapas do desenvolvimento, mas que se aprofunda à medida que esse se torna mais elevado. Hoje, o desenvolvimento das capacidades, que vão se diferenciando cada vez mais nitidamente, aparece inclusive como um obstáculo para o devir da personalidade, como um veículo para a alienação da personalidade humana.

Já com o trabalho mais primitivo, ,á adequação dos homens ao gênero deixa de ser muda. Todavia, no ,princípio e em sua imediaticidade, ela se torna apenas um ser-em-si: a consciência ativa do respectivo contexto social, economicamente fundado. Por maiores que sejam os progressos da
socialidade, por mais que seu horizonte se alargue, a consciência geral do gênero humano não supera ainda essa particularidade da condição do indivíduo e do gênero dada em cada oportunidade concreta.

Todavia, a elevação da adequação ao gênero jamais desaparece completamente da ordem-do-dia da história. Marx define o reino da liberdade como "um desenvolvimento de energia humana que é fim em si mesmo", como algo, portanto, que tanto para o homem individual quanto para a sociedade tem um conteúdo suficiente para transformá-lo em fím autônomo. Antes de mais nada, é claro que uma tal adequação ao gênero pressupõe um nível do reino da necessidade do qual, no presente momento, ainda estamos muito longe. Só quando o trabalho for efetiva e completamente dominado pela humanidade e, portanto, só quando ele tiver em si a possibilidade de ser "não apenas meio de vida", mas "o primeiro carecimento da vida", só quando a humanidade tiver superado qualquer caráter coercitivo em sua própria autoprodução, só então terá sido aberto 0 caminho social da atividade humana como fim autônomo. Abrir o caminho significa: . criar as condições materiais necessárias e um campo de possibilidades para o livre emprego de si. Ambas as coisas são produtos da atividade humana. A primeira, porém, é fruto de um desenvolvimento necessário, enquanto a segunda resulta de uma utilização correta, humana, do que foi produzido necessariamente. A própria liberdade não pode ser simplesmente um produto necessário de um desenvolvimento inelutável, ainda que todas as premissas de sua explicitação encontrem nesse desenvolvimento - e somente nele - suas possibilidades de existência.

É por isso que não estamos aqui diante de uma utopia. Com efeito, em primeiro lugar, todas as suas possibilidades efetivas de realização são produzidas por um processo necessário. Não é casual que já no trabalho, em seu primeiríssimo estágio, tenhamos dado tanto peso ao momento da liberdade na decisão entre alternativas. O homem deve adquirir sua própria liberdade através de sua própria atuação. Mas ele só pode fazê-lo porque toda sua atividade já contém, enquanto parte constitutiva necessária, também um momento de liberdade.

Aqui, porém, há muito mais. Se tal momento não se manifestasse ininterruptamente no curso de toda a história humana, se não conservasse nela uma perene continuidade, não poderia naturalmente desempenhar o papel de fator subjetivo nem sequer durante a grande virada. Mas a contraditória desigualdade do desenvolvimento sempre provocou tais conseqüências. Já o caráter causal das conseqüências das posições teleológicas faz que todo progresso surja ao ser como unidade na contradição de progresso e regressão.

Com as ideologias, tal fato não ,apenas é elevado à consciência (que freqüentemente ê uma falsa consciência) e tratado segundo os respectivos interesses sociais antagônicos, mas é igualmente referido às sociedades como totalidades vivas; aos homens com personalidades que buscam o seu próprio caminho verdadeiro. Por isso, em algumas importantes manifestações individuais, volta continuamente a se expressar a imagem - até agora sempre fragmentária - de um mundo de atividades humanas que é digno de ser assumido como finalidade autônoma. Aliás, é da maior importância constatar como, enquanto os novos ordenamentos práticos, que em seu tempo marcaram época, desaparecem da memória da maior parte da humanidade sem deixar traço, essas atitudes - na prática necessariamente vãs, freqüentemente condenadas a um fim trágico - conservam-se, ao contrário, como algo ineliminável e vivo na recordação da humanidade.

É a consciência da melhor parte dos homens, daqueles que, no processo da autêntica humanização, colocam-se em condições de dar um passo à frente com relação à maioria de seus contemporâneos; e é esse consciência que, a despeito de todo problema prático, empresta às manifestações desses homens uma tal durabilidade. Expressa-se neles uma comunhão de personalidade e sociedade que mira precisamente a essa adequação plenamente explicitada do homem ao gênero. Com a sua disponibilidade a empreender um progresso interior nas crises das possibilidades às quais o gênero chegou pelos caminhos normais, tais pessoas - nos momentos em que as possibilidades de uma adequação ao gênero para si são materialmente exploráveis - contribuem para produzi-la efetivamente.

A maior parte das ideologias estiveram e estão a serviço da conservação e do desenvolvimento da adequação ao gênero em si. Por isso, orientam-se sempre para a atualidade concreta, aparelham-se sempre de modo a corresponder aos variados tipos da luta atual. Mas apenas a grande filosofia e a grande arte (assim como o comportamento exemplar' de alguns indivíduos em sua ação) operam nessa direção, conservam-se espontaneamente na memória da humanidade; acumulam-se enquanto condições de uma disponibilidade: tornam os homens interiormente disponíveis para o reino da liberdade. E, antes de mais nada, temos aqui uma recusa sócio-humana das tendências que põem em perigo esse fazer-se homem do homem. O jovem Marx, por exemplo, viu no domínio da categoria do "ter" o perigo central. Não é um acaso que, para ele, a luta de libertação da humanidade culmine na perspectiva segundo a qual os sentidos humanos deverão se transformar em elaboradores de teorias. Assim, tampouco certamente é casual o fato de que, ao lado dos grandes filósofos, Shakespeare e os trágicos gregos tenham desempenhado um papel tão importante na formação espiritual e na conduta de Marx. (Nem tampouco a admiração de Lênin pela Apassionata é um episódio casual.) Aqui podemos ver como os clássicos do marxismo, ao contrário dos seus epígonos, todos dominados pela idéia da manipulação exata, jamais tenham perdido de vista o tipo particular de realizabilidade do reino da liberdade, embora tenham sabido avaliar - de modo igualmente claro - o indispensável papel de fundamento desempenhado pelo reino da necessidade.

Hoje, na tentativa de renovar a ontologia marxiana, deve-se dar igual importância a ambos os aspectos: a prioridade do elemento material na essência, na constituição do ser social, por um lado, mas, por outro e ao mesmo tempo, a necessidade de compreender que uma concepção materialista da realidade nada tem em comum com a capitulação, habitual em nossos dias, diante dos particularismos tanto objetivos quanto subjetivos.




O texto aqui traduzido, redigido no início de 1968 como base para uma conferência que deveria ser apresentada no Congresso Filosófico Mundial realizado em Viena (mas ao qual Lukács não pôde comparecer), foi publicado em 1969, em húngaro, sendo depois editado em alemão (1970) e em italiano (1972). O texto se baseia na chamada "grande" Ontologia, cujo manuscrito estava, na época, em fase de acabamento. Sabe-se, contudo, que - após a conclusão desse primeiro manuscrito e insatisfeito com seus resultados - Lukács empreendeu a redação de uma nova versão, conhecida como "pequena" Ontologia (ou também como Prolegômenos), na qual trabalhou até sua morte, ocorrida em junho de 1971 (Cf. István Eórsi, "The story of a posthumous work (Lukács Ontology)" in The New Hungarian Quarterly, XVI, n ° 58, Summer 1975, pp. 106-108). Apesar do seu caráter necessariamente sumário e esquemático, a presente conferência tem o mérito de fornecer uma síntese do trabalho ontológico de Lukács, além de ser um dos poucos textos relativos a este trabalho que o próprio autor revisou para publicação.

Tradução de Carlos Nelson Coutinho.