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terça-feira, 9 de março de 2010

A Moral e a Atividade Revolucionária (Moral Bolche ou Moral Espontaneísta?) - Parte II - Nahuel Moreno

Texto extraído do arquivo marxista da internet disponível em: http://www.marxists.org/portugues/moreno/1969/moral/cap02.htm

Como Encaramos o Problema Moral


Terminamos a primeira parte de nosso trabalho rendendo nossa homenagem à moral guerrilheira. Quando criticamos as outras morais, assinalamos de passagem, que em alguns pontos e em determinados momentos podemos coincidir com a moral espontaneísta, sem deixar de criticá-la. Trata-se de ver porque razões e com que métodos encaramos nossa análise do problema moral, que expliquem estas contradições formais.

A chave de toda nossa analise e das soluções que propugnaremos, radicam no fato de que para nós a moral é relativa e adequada a determinadas relações objetivas entre os homens. Dessas relações cremos que há uma que é privilegiada, a relação como militantes do partido. Mas, que seja privilegiada não quer dizer que seja a única, que é a única relação enquanto homem, membro de uma classe, operário ou estudante de tal fábrica ou tal faculdade, noivo ou esposo de tal mulher, sócio de tal clube e membro de tal família, afiliado a tal sindicato, ativista de uma greve, estabelecemos uma série de relações e formamos parte de uma série de estruturas sociais. Concretamente o militante não é somente militante, homo politicus, mas homem de tal sociedade e localizado em tais setores.

Isto cria uma situação contraditória, já que tantas morais como estruturas sociais existem, segundo vimos anteriormente.

É a principal contradição que sofremos neste aspecto de nossa vida e conduta: a pressão de morais distintas sobre cada um de nós.

À solução pluralista do problema - "cedamos à moral de cada um desses setores" -, nós respondemos com uma solução unitária dessas contraditórias pressões. Todas elas devem ser mediadas pela moral e nossa condição de militantes do partido. Somos, então, afiliados ao sindicato-militante; esposo-militante; estudantes-militantes; operário-militante, etc. Todas essas diferentes localizações com suas pressões morais e das outras, nós as combinamos e tratamos de conseguir uma síntese neste caso moral, com nossa condição de militantes.

Nossa intervenção na vida da sociedade tem três níveis, poderíamos considerar talvez quatro. Um nas estruturas objetivas, externas ao partido e ao nosso círculo: a classe, o setor, a vizinhança, o sindicato, a tendência sindical ou artística a que pertençamos. A outra, a privilegiada, é nossa participação na estrutura partidária. A última, são as relações intimas com nossos amigos, companheiros, família, etc., incluindo as relações conosco mesmo como indivíduos biológicos e culturalmente condicionados. Em cada um desses níveis e setores, deve-se estabelecer uma solução dialética do problema, como o que encontramos para o homem-militante. É por outro lado, a mesma questão vista desde um outro ângulo.

Entre todos esses níveis, que vão do mais objetivo ao mais intimo e subjetivo, existe uma relação dialética, tudo esta mediado pelo nível partidário, base, principio e fim de toda nossa conduta, incluída a moral, em todos os níveis. Na classe, tanto como no sindicato ou na vizinhança, atuaremos como militantes do partido e tratando que nossa atuação, incluída nossa atitude moral, ajude ao desenvolvimento do partido e da revolução. O mesmo no terreno mais subjetivo, pessoal, nossas relações íntimas. O grande mediador de nossa moral, em seus distintos níveis, é o partido. Isto não quer dizer que não haja tendência à choques e que cada um de seus níveis tenha problemas, necessidades, princípios específicos, que possam provocar e provocam tensões, contradições agudas às vezes. Justamente quando dizemos mediador, queremos dizer que há uma relação dialética, ou seja, contraditória entre os distintos níveis que devem ser sintetizados pela moral e a conduta como militantes do partido.


Nossa Moral Frente à Classe Operária, as Outras Classes Exploradas e as Lutas do Movimento de Massas

As classes exploradas, nossa classe operária entre elas, têm de acordo com seu nível de consciência e organização, diferentes morais. Isso para nós é um fato objetivo. Inclusive diferentes setores dessas classes podem ter diferentes níveis morais. É muito diferente a moral de uma categoria que vive de obter muitos triunfos de grandes lutas, de outra categoria que suportou derrota após derrota. O mesmo com relação aos camponeses de uma região a outra.

As diferenças morais, assim como ideológicas, organizativas e políticas entre o guerrilheirismo e o espontaneísmo obedecem a essas razões objetivas, o diferente nível de suas lutas, como de sua consciência. Enquanto o espontaneísmo reflete a primeira grande onda de ascenso do movimento de massas na Europa Ocidental, depois de quase duas décadas de estancamento e retrocesso, o guerrilheirismo reflete uma situação pré-revolucionária, uma consciência e organização que se lança à guerra civil, a máxima expressão da luta de classes. O primeiro, ao contrario, expressa somente as primeiras etapas da luta.

Dai suas profundas diferenças e a proximidade entre o guerrilheirismo e nós no problema moral, como frente a outros problemas, sem chegar a ser o mesmo. Essa proximidade esta provocada por nosso acordo na continuidade e organização da ação revolucionária, dos métodos de guerra civil. Depois desse acordo, nossas diferenças em todos os terrenos se acentuam.

A moral de nossa classe operária, por exemplo, é muito diferente tanto do guerrilheirismo, como do espontaneísmo. Seu nível de consciência e organização foi, e seguem sendo em grande medida, essencialmente sindical. Desenvolveu uma moral adequada à sua conduta de varias décadas: alto grau de disciplina sindical, apoio e sacrifício por suas organizações sindicais e todas as outras características da moral sindicalista. Tem muito pouco de guerrilheira e espontaneísta, ainda que agora alguns setores juvenis, ligados à vanguarda do movimento estudantil, começam a ter outra conduta e logicamente outra moral que se aproxima objetivamente a certas características espontaneístas e guerrilheiras e que podem ser caldo de cultura para o desvio guerrilheiro urbano.

Como militante e como partidos nacionais de um partido mundial, não podemos deixar de militar nesses movimentos, ao nível que se dêem, observando sua moral. Mas nossa atuação política e moral tem um objetivo, mostrar que a nossa é superior, tender a eleva-los não só politicamente, mas também moralmente. Para isso, impõe-se que sejamos os melhores na própria moral deles. Isto já o disse Trotsky em uma famosa fórmula: devemos ser o melhor soldado, operário, ativista sindical. Na simplicidade dela, sintetizou tudo o que vimos dizendo: somos os melhores na moral das classes exploradas em todos os seus níveis, desde os mais baixos até os mais altos. Nas fábricas, os preguiçosos são mal vistos, vai contra a moral dos setores operários mais responsáveis, melhores; Trotsky tirou uma conclusão moral lógica, temos que ser os melhores operários, os que mais trabalhamos, para ser os que melhor representamos a moral deles. Se em um determinado momento da luta de classes, um setor importante do movimento considerar que não há que produzir nada para o patrão, nós trocaremos pela raiz nossa moral e deixaremos de ser o melhor operário para nos transformarmos, desde o ponto de vista produtivo, no pior. A forma de nossa moral estará mudada, mas seu conteúdo e objetivos não, já que seguimos sendo os melhores representantes da moral da classe operária ou dos explorados em seu nível.

Mas, se nossa moral parasse aí, estaríamos fazendo seguidismo moral. Nosso objetivo moral é estabelecer uma ponte desde essa conduta moral comum até nossa moral. Cada militante do partido não só tem essa moral, mas a combina com a partidária e, portanto, em cada momento trata de superar, principalmente essa moral sindical ou de base operária, até uma moral superior, de classe e internacionalista. Seremos não só os melhores operários, os ativistas sindicais mais disciplinados, sacrificados e lutadores, mas também os que colocaremos que temos que parar por Che Guevara, e que temos que ser solidários moralmente com os guerrilheiros vietnamitas ou nossos próprios mártires. É que cada um de nossos militantes, reflete moral e politicamente o partido em sua conduta diária e não só o setor de classe ao qual pertence.
Nossa Moral Frente ao Partido

Chegamos assim, da moral que temos em nossa vida exterior objetiva, à partidária. Esta é a decisiva, já que como vimos anteriormente, a moral e a política do partido é a intermediária de todas nossas ações. Toda nossa moral, tanto objetiva como subjetiva, está condicionada por nossa condição de militante do partido.

A obrigação moral número um, fortificar o partido, responder-lhe com a própria vida, considerar o dever moral mais sagrado, valha a expressão neste caso, a vida partidária e o desenvolvimento da organização. Todos os sacrifícios são poucos: vivemos por e no partido, para o partido.

Essa colocação tem seus reflexos em nossas relações morais com os companheiros do partido. Com um camarada do partido se estabelece uma relação moral de tipo único, nova, não conhecida por nenhuma das morais tradicionais, que chegaram ao máximo nas seitas religiosas revolucionárias ou nas relações familiares da burguesia na época de ascenso. O princípio que não há nada superior entre os homens como indivíduos que um camarada do partido. É o princípio superior de nossa moral neste terreno das relações pessoais dentro do partido. Portanto, lhe devemos franqueza, a sinceridade mais absoluta salvo por razões de segurança do próprio partido. Mas muito mais que isto, o camarada do partido merece todos os cuidados e considerações. Não há nada nem pode haver sacrifício em favor do camarada que não façamos. Somos, devemos ser, muito mais que sua família, irmãos, filhos ou pais, na etapa de ascenso da moral familiar. Pelo companheiro do partido se arrisca a vida, se faz qualquer sacrifício. O princípio moral é que a vida, a consciência e o próprio corpo físico do camarada do partido valem muito mais que qualquer um. É uma relação abstrata concreta de tipo pessoal única, justamente o que a faz superior a todo o conhecido até o momento. Os camaradas do partido, em sua ampla maioria não se conhecem, mas as obrigações morais não são por isso menos peremptórias. São companheiros e basta, todo o dito anteriormente sobre os nossos princípios valem. Um camarada boliviano perseguido pela repressão, chega a nosso partido e cada um de nós jogará a vida, se for necessário, para protege-lo, ainda que jamais haja ouvido falar dele. A nível interpessoal, este dever moral é a outra cara do principal dever moral a nível de todo o partido, fortalece-lo, desenvolve-lo. Isto não se consegue só com uma boa linha política, mas, de forma concreta, levantando e fortificando, salvaguardando e enriquecendo a moral física, a personalidade, o nível dos companheiros do partido. Nossa obrigação moral é fazer todos os sacrifícios para consegui-lo. Por isso nosso acordo de princípio com a moral guerrilheira, esse alto nível da luta de classes, com respeito ao camarada de luta. Opinamos a esse respeito o mesmo que eles, com a diferença que eles o aplicam de forma específica, em relação fundamentalmente à sua vida e seu corpo, dado o caráter unilateral de sua luta, enquanto nós o desenvolvemos em relação a todos os aspectos da personalidade dos companheiros.


Nossos Deveres Frente a Amizade, o Amor, o Parceiro e a Família Como Retaguarda do Partido

Se a vida no mundo e dentro do partido nos impõe obrigações morais específicas, o mesmo ocorre com as relações subjetivas, íntimas e ao mesmo tempo mais concretas: a amizade, o amor, o parceiro e a família. Estas são nossas relações diárias, de pessoa para pessoa. São as relações sociais mais atomizadas, mas não por isso deixam de ter, como toda relação social; sua moral. Esta também mediada pela condição de militante, mas com suas características específicas.

Antes de mais nada essas relações não têm porque ser relações entre militantes. Ainda que isso possa provocar, melhor dito, provoca situações conflitivas, estas podem ser superadas, inclusive conseguindo-se que o pólo não militante da relação se transforme em militante, rompendo a relação ou conseguindo um equilíbrio relativo. Cada uma destas relações têm suas obrigações morais bem precisas. Todas elas se caracterizam por estabelecer relações que ligam o individual, cultural e, em algumas delas, o biológico. Por isso é o setor mais isolado da macro sociedade, como dizem os sociólogos. A relação não é essencialmente política como no partido, nem as relações objetivas que nos são impostas, como as da luta de classes.

A primeira destas relações é a da amizade. É a de um militante com outro militante ou com quem não o seja. Esta relação se estabelece por um passado, afinidades, desejos ou atividades comuns, muitas vezes por combinação de todos estes fatores. Se consegue assim um vínculo muito mais estreito e concreto que o existente entre militantes. Se a amizade é entre estes, o ideal moral, é a relação já histórica entre Engels e Marx. Tudo o que dissemos entre as relações de companheirismo dentro do partido adquirem aqui uma nova dimensão, porque já não somente a vida e a personalidade do outro é muito mais que o de si mesmo, como também seus próprios problemas pessoais, seus anseios ou muitos deles, valem tanto ou mais que os nossos. Se estabelece um vínculo de anseios, preocupações comuns, em todos os níveis, que obrigam quase a considerar o amigo mais que a si mesmo. Tenho dado o exemplo de Marx e Engels, porém poderia dar a nível partidário a relação entre duas camaradas amigas que é um magnífico exemplo do que venho dizendo. É não ter segredos para o amigo, consultar e resolver juntos os problemas mais íntimos, é uma das obrigações morais principais.

O amor é um grau superior das relações interpessoais, já que complementa ou enriquece a amizade em seu nível mais alto, com as afinidades sexuais e sentimentais.

Se não se dá a nível de militantes, pode ocasionar contradições parecidas às existentes entre os amigos que estão na mesma situação. Porém se é entre militantes me dá pena não ser um bom escritor para refletir tudo o que ele significa de grandioso, profundo, valioso. Creio que aqui começamos a conseguir as mais altas relações interpessoais que tem dado a história, porque o amor entre companheiros, supera todos os níveis dessa categoria humana que recém foi descoberta na Idade Média, e que tem tido um desenvolvimento infeliz através da história.

Em nosso movimento, graças a ele, esta categoria pode conseguir seu pleno e total desenvolvimento. É uma unidade, equilíbrio muito delicado de tipo biológico, sentimental, pessoal e político-partidário. A principal obrigação moral frente ao amor é ser consciente que ele se constrói e reconstrói permanentemente, que não é algo estático, mas dinâmico, uma unidade dinâmica que sempre está se desenvolvendo.

Temos frente a ele todas as obrigações da amizade, com os complementos sentimentais e individuais, que nos coloca o caráter específico desta unidade. Porém o amor é um equilíbrio delicado, como já dissemos. Quando se solidifica surge a parceria e a família, como uma estrutura muito mais sólida.

A parceria é a estrutura monogâmica cujo embasamento é o amor. A parceria é o ideal como moral e estrutura interpessoal, a máxima expressão. É o surgimento de uma unidade que fortalece e estabiliza aos dois componentes, que multiplicam suas forças como conseqüência dessa unidade superior. As obrigações morais entre os membros da parceria são quase totais. É a síntese de todas as outras obrigações morais interpessoais, porém enriquecidas e aprofundadas. A família, os filhos, é a ampliação desta parceria e coloca problemas de outro tipo que seria longo analisar aqui.

Todas estas estruturas interpessoais, se são autênticas, fortificam a militância partidária, porque fortalecem a personalidade e o desenvolvimento do militante. Que é melhor ter uma companheira estável, militante, totalmente integrada consigo mesmo, que nos permita consultar-lhe todos os problemas, como ela faz conosco, que nos permite solucionar todos os problemas individuais, de toda ordem, desde os biológicos aos culturais para ter a moral e o tempo suficiente para militar. Não são estruturas antagônicas, mas complementares.

Porque entre o partido com seus militantes e estas relações se estabelece uma relação única, específica e diferente. É o terreno da moral subjetiva a que tem que ver com nossa militância objetiva, nos sindicatos e na classe.

O partido cuida e intervém diretamente nos aspectos morais objetivos: expulsa sem nenhuma consideração o companheiro que fura uma greve. No terreno interpessoal, a intervenção partidária é indireta e muito mais sutil, cuidadosa, através da opinião ou reprovação partidária, já que justamente por serem relações interindividuais, a dinâmica e as relações que se estabelecem são únicas, concretas, que requerem apreciações também únicas. Isto quer dizer, que o partido tem mais que normas, que também devem tê-las, tendências, consensos.

Por isso o partido, seus militantes, devem defender com todas as suas forças casais que se vão construindo, e fazendo pressão pela via do convencimento moral, da necessidade destas parcerias. Somente em situações excepcionais estas tendências morais em favor do amor e da parceria, podem transformar-se em normas estritas de tipo objetivo. Por exemplo, a norma moral dos guerrilheiros vietnamitas de impedir as relações sexuais entre guerrilheiros para impedir a gravidez das guerrilheiras, é perfeitamente lícita. A de evitar o "adultério" burguês em situações críticas, como prisão ou perseguição do companheiro, utilizando justamente essa situação, principalmente por companheiro de direção do partido, também pode ser transformado em norma ou pelo menos que haja consenso moral de falta grave. Porém em linhas gerais neste terreno a moral é mais subjetiva que objetiva, atua por pressões e tendências mais que normas estritas.

Temos precisado a linha partidária e dos militantes frente ao aspecto moral que devemos observar com referência a uma série de estruturas interpessoais que o partido considera muito úteis, progressivas e necessárias. Nos falta precisar que linha deve ter o militante interessado que constitui essas estruturas.

Este companheiro, deve ser mais cuidadoso que tudo, já que tem além de suas obrigações como militante, as morais que derivam de seu caráter de companheiro ou amante de uma companheira ou de uma mulher. Sua relação está mediada também por seu caráter de militante. Tratar de elevar a sua parceira, se a relação entra em crise, tratar de evitar que frustre o progresso de cada um dos integrantes, evitar a promiscuidade antes de começar uma relação, fazendo com que esta seja a mais séria possível desde seu início, com perspectivas. Cuidar antes de começar esta relação amorosa se a outra parte sairá beneficiada ou prejudicada. Sempre, a todo o momento, como militante, não pensar em si mesmo, mas na outra parte, respondendo as perguntas: a ajuda?, a prejudica?, que faço para que se supere? são desejos o que tenho e a observo e considero como um objeto ou pelo contrário, meus desejos estão mediados por minha moral de militante e, além disso e principalmente, creio que pode se estruturar algo sério, que a beneficie e a mim, que nos supere a ambos? Estas perguntas morais são as decisivas e só o fato de que as coloque significa um começo de solução a este problema.

Porque atentar para todos estes aspectos por parte de todos, o partido, seus militantes e as partes interessadas, é parte essencial ainda que muito sutil de nossa militância.

Trotsky chamava as famílias dos revolucionários de "a retaguarda da revolução". Me parece um acerto do Velho, ainda que o tenha definido em uma situação histórica distinta da nossa, que restringe o conceito.

Ele se referia essencialmente à família ampla, patriarcal russa, as mães, pais, irmãos. Na pátria de Don Leon a família patriarcal era muito forte. Todas as classes russas, desde a burguesia até a baixa nobreza, passando por todas as exploradas, estavam em luta contra o czarismo. Era lógico que as famílias patriarcais considerassem e ajudassem seus filhos como vanguarda da luta geral e comum de todos contra o czarismo.

Porém na família moderna, a família patriarcal já não existe mais, e governos como o russo, tampouco. Vejamos a realidade de nosso partido. O comum é que os familiares dos companheiros presos, perseguidos, lavem as mãos ou dêem uma ajuda muito pequena, salvo exceções. Nem por essa nova realidade o conceito de Trotsky perde sua riqueza, pelo contrário, adquire uma nova magnitude. O papel que cumpria a família russa de apoiar em todos os aspectos desde o não político ao lutador, desde sentimental até material, o pode e deve cumprir agora relações interpessoais adquiridas e não herdadas, como a amizade, o amor, a companheira, a família. Somente os que estivemos presos ou perseguidos sabemos bem o que significa essa retaguarda moral e sentimental. Fortificar essa retaguarda é uma obrigação partidária de primeira ordem.

O companheiro ou companheira preso ou perseguido não deve sentir somente a solidariedade política e organizativa do partido ou do movimento de massas. Nem só de política vive o homem, mas também deve sentir o apoio amoroso, mais amoroso que nunca de seu amor, parceira e como do partido, mais carinhoso que nunca, de seus filhos e amigos. Quem não atua assim ou trata que não se atue assim é um traidor moral, se é um velho companheiro, ou um inconsciente se é um companheiro novo.


Como Solucionar as Necessidades Biológicas de Cada Militante

O militante, pelo fato de sê-lo, não deixa de ser homem ou mulher, com necessidades biológicas e culturais bem precisas e prementes

Chegamos ao primeiro escalão da sinceridade moral do militante com ele mesmo, de olhar-se no espelho e tirar conclusões de como atuar com ele mesmo. Começando com as grandes necessidades, a comida, o vestido, o sexo, principalmente este, a grande moda entre alguns setores partidários "antidogmáticos".

Aqui como em todos os outros níveis, a mediação para solucionar essas necessidades biológicas passa pelo caráter de militante. A solução biológica de tal forma, beneficia ou prejudica o partido e a revolução? É a pergunta moral que tem que ser formulada, dando uma resposta adequada.

Era um costume de alguns setores do movimento latino americano em velhas épocas, principalmente quando iam ao Chile, solucionar esse problema através dos bordéis, falando claro, através das prostitutas, por exemplo. Sempre considerei essa solução do problema escandalosa moralmente, já que a prostituição também é uma relação, e não um ato individual, no qual intervém dois elementos: o que paga e o que cobra; dos dois, o culpado é um só, o que paga. Os companheiros que pagavam uma prostituta estavam cometendo um ato repugnante de tipo moral, desenvolvendo uma das instituições mais repugnantes da sociedade de classes.

Porém este caso extremo não elimina os outros, os intermediários, os que se dão dentro do partido. Existem companheiros que têm ou tiveram a moral dos Combos: aproveitar as festas partidárias ou reuniões, para ver com quem se podia ir dormir. Isto tinha sido transformado, pela atual direção dos Combos, em uma religião: se faziam festas especiais para praticar a promiscuidade, que terminavam com "trepadas" quase coletivas, com uma divisão, reconheçamos o mérito, bastante eqüitativa de possibilidades, não ficava ninguém de fora. Em nosso partido, pela campanha da direção e em especial das companheiras dirigentes estudantis, que foram as primeiras a se levantarem indignadas contra as acusações que estes canalhas, que praticavam justamente esta moral, e lhes faziam, o assunto é mais dissimulado, mas sob a pele de cordeiro se escondem muitos lobos.

A essência dessa moral é: tenho uma necessidade biológica e tenho que satisfaze-la como posso, dentro ou fora do partido. Esta moral produz dois comportamentos estanques, totalmente separados, entre o biológico e o militante. Todo tempo livre, e se não há o busca, deve ser destinado à satisfação dessa necessidade biológica. Desde o ponto de vista psicológico, não sabe que assim não se satisfaz nunca a própria necessidade biológica porque transformada em um objetivo em si mesma, separada do companheirismo, do respeito mútuo, do acordo ou coincidência sentimental, cultural, partidário, militante e de atividade, o ato sexual por si só não soluciona absolutamente nada, é uma variante da masturbação ou muito pior que ela. Somente satisfaz quando se parte de uma relação total ou quase total.

Mas o problema não é somente psicológico mas, muito mais que isso, político, de militância. A relação sexual ou a possibilidade dela beneficia a outra parte, ao militante que está frente a uma, ou pode prejudica-lo se não há possibilidade que seja parte de uma relação mais estável, dinâmica e duradoura? É a pergunta que todo companheiro deve fazer antes de encarar essa relação. Concretamente, nem neste, nem em nenhum terreno, podemos atuar sem uma linha prévia, ainda que seja provisória. O militante, o marxista, também deve continuar sendo-o quando encara a solução deste problema.

Porque existem extremos onde a condição de marxistas nos exige a não satisfação das necessidades biológicas, como a fome ou o sexo ou as culturais mais primárias como a vestimenta ou a moradia. Quando os presos revolucionários fazem uma greve de fome, quando o companheiro, revolucionário vai preso, tanto ele como sua companheira, deixam de satisfazer algumas das mais prementes necessidades biológicas, mas esta repressão à sua personalidade esta totalmente justificada pelas necessidades da luta. Porque nossa moral não é uma moral de imediatez biológica, fazemos o que as necessidades biológicas nos exigem e nós damos os gostos de vida, mas com uma moral mediada por nosso método e nossa militância, que nos exige antes de qualquer ato, muito mais se este ato se situa no campo moral ou político, que tenhamos linha ainda que seja provisória.
Indivíduo e Partido

Nada disso quer dizer que em nome de nossa moral neguemos as necessidades biológicas ou culturais. Os jovens e os velhos companheiros do partido têm todo o direito moral e individual de encarar as soluções destes problemas como quiserem, experimentando, equivocando-se, fazendo múltiplas experiências, etc., etc. Porém todas elas devem estar mediadas pela condição de militante e pelas tendências metodológicas e morais que assinalamos: ter uma linha e cuidar sempre da outra parte mais do que de si mesmo, considerar sempre as tendências ao amor e à parceria seja no terreno sexual, como para a amizade ou as necessidades do partido. Com a vestimenta ocorre o mesmo. Nós estamos a favor da elegância e que nossas companheiras façam todas as experiências no modo de se vestir, inclusive algo distante dela como a maquiagem que queiram, porém levando em conta a situação e que essa tendência à experimentação, em última instância para a beleza, não vá contra as necessidades partidárias: gastar todo o dinheiro em maquiagem ou em roupas. São tendências contraditórias, todas lícitas, mas que devem ser sintetizadas de forma concreta em cada caso partindo das tendências mais nobres e necessárias, uma delas premente, o caráter de militante do partido.

Nossa moral não é a moral dos lumpens, da imediatez, mas das infinitas mediações, com uma principal, a de militante.

Concretamente, entre o desenvolvimento e experimentação individual, em todos os terrenos, e o partido se estabelece também uma relação. O partido está à morte por esta grande conquista da humanidade que a personalidade e o individualismo que cada qual vá formando e desenvolvendo sua personalidade. Porém esta tendência progressiva não pode, nem deve atuar no vazio, como tendência determinante. Não se trata de que alguém que esteja atuando numa greve se coloque: minha maior necessidade para meu desenvolvimento cultural é aprender idiomas principalmente o inglês (necessidade política premente para quase todos os quadros partidários segundo minha opinião). Se abandonasse a direção da greve por esta razão seria um crime político e moral. É que aqui também se dá uma mediação no desenvolvimento individual, não é abstrato e sim mediado pelo desenvolvimento e necessidade do partido e da luta de classes.

O partido por sua vez, dentro de suas necessidades, deve tender, tende a que cada companheiro alcance o maior desenvolvimento individual possível, que reflitam as necessidades do próprio partido por um lado, as possibilidades do companheiro por outro. Como nos deixou dito a companheira de Cannon, o partido sempre nos dá muito mais que nós a ele. Dentro desta relação existe um amplo campo para o desenvolvimento individual frutífero, para equivocar-se, experimentar, sem prejudicar o andamento do partido e o progresso dos companheiros próximos a nós, porque são nossos camaradas, amigos, amantes, companheiros e filhos.
Uma Moral Para a Liberdade e o Gozo ou da Necessidade da Revolução

Existem companheiros dentro do movimento revolucionário que sustentam ou praticam uma moral: a da liberdade e o gozo. "Enquanto for um bom militante, tudo o que faço que me permita gozar a vida, especialmente as mulheres ou os homens, esta bem, ou como mínimo tenho direito a optar, provar, ser livre, totalmente livre neste terreno". A moral existencialista tão bem definida por seus ideólogos.

Nossa moral não é, nem pode ser uma moral socialista, ainda que tenha alguns elementos dela (a solidariedade e o amor pelo companheiro, superior ao que nós devemos ter para conosco mesmo). Dito de outra forma, não é uma moral para gozar racionalmente e mediada por toda a sociedade (o partido neste caso), todas as possibilidades artísticas, instintivas, corporais ou intelectuais que nos brinda abstratamente a sociedade e a natureza, neste aspecto também nossa própria natureza. Nossa moral é uma moral para a luta implacável para derrotar a um inimigo não menos implacável, os exploradores e o imperialismo.

O espontaneísmo moral é a intenção, por setores juvenis, de gozar como indivíduos da sociedade neocapitalista, ou seja, da sociedade de consumo, sem ajustar-se aos fetiches e reflexos condicionados dessa mesma sociedade.

Nós acreditamos justamente o contrário, que nossa moral não é a da opção, como os existencialistas, nem para o gozo como os espontaneístas, mas sim o da necessidade da revolução.

Isto de necessidade não é uma categoria filosófica, mas bem real. Nossa moral deve nos preparar para suportar as torturas, privações biológicas e culturais, terríveis pressões a que nos submete e continuara submetendo o implacável inimigo de classe que estamos enfrentando. Quem não assimila esta moral não é apto, nem útil para a luta. Nossa moral é para a fome, a abstenção, a de ficar com pouca roupa ou maquiagem ou diretamente sem roupa e sem maquiagem, é uma moral que tende a nos afastar da sociedade de consumo, nos opormos a ela em todas as suas facetas, incluído o do gozo, uma categoria neste momento histórico da própria sociedade neocapitalista.

Nada disto significa, tampouco, que nós praticamos a necessidade por princípio. Vivemos na sociedade de consumo em muitos países, sem situação pré ou revolucionaria, pode estabelecer-se então entre o gozo ou o consumo relativo e nossa militância, a necessidade de uma mediação, um equilíbrio. Seria ilógico, por exemplo, que nossos companheiros não tirassem férias porque há guerrilhas no Vietnã ou Venezuela. Dissolveríamos uma situação concreta, a de nossos companheiros na atual etapa da luta de classes de nosso pais, em uma lei geral abstrata: que temos uma moral de necessidade. Porque é da necessidade essencialmente da revolução e do partido no próprio país. Essa é a mediação principal. Por isso, seria um crime que o companheiro responsável da campanha pelo Vietnã, durante o verão abandonasse sua atividade porque tem que tirar férias. Ou que não apoiasse a campanha financeira pela mesma razão e além disso porque tem que comprar roupa de verão. Mas se chegasse ao extremo de não tirar férias no verão por princípio, seria uma grave erro como já assinalamos.
As Soluções Sectárias e Oportunistas

Como em todos os campos, também neste terreno há um enfoque sectário ou oportunista. É bom que o analisemos.

O sectarismo elimina as mediações e contradições, nos coloca uma moral abstrata, baseada em normas rígidas e permanentes, no lugar de concretas, principalmente na mais concreta dela, a interpessoal. Este sectarismo pode se dar em qualquer dos níveis: pode haver uma moral sectária de imediatez, a dos lumpens. Pode haver a das necessidades partidárias: tudo se subordina, desenvolvimento individual, aprendizagem e solução do biológico, o amor, a amizade e a parceria ao que o partido legisla, ou melhor, a direção.

Voz Proletária [2*] levou ao limite estas duas tendências ao mesmo tempo durante um bom tempo de sua existência. Toda a velha guarda partidária sabe do nosso sofrimento há alguns anos, quando tínhamos que discutir com eles, principalmente com sua direção, pelos cheiros nauseabundos provocados pela teoria-práxis que tinham naquela época: que as mais primárias necessidades biológicas deveriam ser feitas "in situ", porque conter as necessidades era um prejuízo burguês.

Paralela a esta defesa absurda de um nível do imediato, que nos provoca imenso incômodo olfativo, havia outra não menos apaixonada (que continua até hoje) e absurda do mediato, das necessidades do partido: havia que vestir, se arrumar, casar e relacionar-se como o indicava o partido. Se descartava toda possibilidade de opção, desenvolvimento, experimentação, ou seja, de conseguir, através de um processo sumamente contraditório e mediado, amigos, amores, parcerias, estilo de se arrumar e maquilar. A parceria escolhida por um ultimato partidário era policialmente vigiada pela direção, assim como suas roupas e costumes. Concretamente, entre o imediato e mediato, o partido e sua necessidades, não deixavam margens para as contradições lógicas, necessárias e positivas.

A oportunista, como sempre, é pluralista. A corrente Viñas (corrente nacionalista argentina, organizada como Movimento de Libertação Nacional), assim como distintas tendências socialistas de esquerda, têm sustentado que o problema moral é um problema individual, de cada pessoas, de cada grupo, que cada um soluciona como quer e tem vontade.

As fofocas, estes comentários de tipo pessoal, são a outra face desta moral. "Cada um faz o que quer, mas sabe que fulano fez tal farra?" É que esta moral é idêntica à dos lumpens e portanto coincide com a espontaneidade de alguns de nossos companheiros.

Nossa solução do problema está a quilômetros tanto de uma como de outra saída. Para nos há uma rígida moral, que o que tenho tratado de definir, mas ela é concreta e não abstrata, relativa e não absoluta, em uma palavra é dialética. Nossa moral não ignora, e não poderia ignorar, porque é uma parte importante da realidade, as necessidades biológicas ou culturais, o desenvolvimento individual, nem a liberdade e o prazer, mas exige que os subordine e os assimile à mediação de nossas normas morais que têm um objetivo central: a revolução e o partido.


Por Um Programa de Transição Moral

Temos assinalado sistematicamente neste trabalho que podemos ter alguns pontos em comum com o espontaneísmo no terreno moral. Aparentemente é uma contradição, mas o é somente para quem tem uma concepção formal e abstrata da moral, não para nós que acreditamos que ela seja relativa. Concretamente, não somente coincidimos em alguns momentos com o espontaneísmo no terreno político, como também no moral.

Isto obedece tanto a razões de método como de programa. Sabemos que a aplicação programática da teoria da revolução permanente é o programa de transição. Programa esse que é político, para a ação do movimento de massas, mas que também serve como técnica para qualquer ação como ocorre com a teoria que lhe deu origem, a da revolução permanente. A ação moral não é uma exceção.

O que caracteriza o programa de transição não é somente as tarefas mínimas, transicionais e máximas. Nem tampouco o caráter dessas consignas: democráticas, econômicas, políticas, de poder, militares, etc., mas sim que algumas são negativas e outras positivas. Há anos que levantamos este problema das consignas negativas e positivas. Como tantas outras questões teóricas nunca tive a possibilidade de explora-las a fundo e desenvolvê-las. Entretanto a idéia geral simples: há consigna de caráter negativo, vão contra algo, e outras positivas, por alguma coisa. Um exemplo: Abaixo Onganía, é negativa; Por uma Constituinte, é positiva. A que mais abarca é a negativa, por isso é a que muitas vezes provoca uma mobilização revolucionária ou multitudinária. No fundo não dá saída, somente abre o caminho para as soluções positivas.

No terreno moral existem não somente consignas mínimas e de transição como também negativas e positivas. Dizemos tudo isto justamente para compreendermos nossa posição frente ao espontaneísmo. Este é um fenômeno e uma consigna relativamente positiva no político, porque suas consignas vão contra os aparatos que controlam o movimento de massas e pela independência e livre mobilização deste. Portanto entram dentro de nosso programa de transição. O "lutemos independentemente dos grandes aparatos, lutemos e lutemos como bem queremos", é a essência programática o espontaneísmo, entra como uma consigna de transição relativamente correta dentro do movimento de massas num dado momento, quando estas começam ou já estão mobilizadas por cima dos grandes aparatos. Seria um pedantismo sectário que em nome de todo nosso programa de transição não compreendêssemos, apoiássemos e incorporássemos estas consignas e movimento ao nosso próprio programa e ação neste momento.
Moral de Chiqueiro ou Uma Forte Moral Partidária?

Todas estas considerações parecem muito gerais e conhecidas. Entretanto não é assim. Existem setores no partido hoje em dia, incluindo a direção, que opõem a esta moral partidária e revolucionária, sua moral de chiqueiro. Muito mais importante que cuidar da moral dos companheiros do partido, começando pelos que devem merecer maiores considerações, os presos e feridos, está o gozo espontâneo de sua própria individualidade, de seu desenvolvimento, suas experiências, de fazer tudo que tenham vontade, de não ser esquemático, ir para frente com tudo. O grave do caso é que não é uma posição teórica, mas todo um programa moral, pelo qual se faz grande campanha e toda a prática possível.

Como todo fenômeno é total. Nesta etapa de pressões da sociedade de consumo essa moral se reflete essencialmente no terreno sexual, numa moral de consumo sexual, porém suas implicações são muito maiores e profundas. A medida que a luta de classes se agudiza, que a perseguição policial nos alerte para a realidade de que vivemos em um mundo de implacável necessidade, que exige uma moral idêntica, aparecerão as outras manifestações desta moral do gozo ou chiqueiro. Os companheiros que assumem essa moral, do gozo, que pode ser sexual ou alimentar, também demonstrarão diante da própria policia seu amoralismo, sua moral de porcos e a falta de uma moral revolucionária.

Nosso partido tem uma moral oposta. Nossos companheiros, frente às torturas policiais, têm sido os primeiros, o exemplo não só em nosso país, mas em toda a América Latina. São muitas as histórias a esse respeito. Existem graves sintomas, no momento muito débeis, de que essa moral, justamente quando mais à necessitamos, começou a mudar. Já há exemplos, muito poucos, de que somos mais paradigmas de conduta moral frente a polícia. É a outra face desta moral de chiqueiro. O que temos desenvolvido neste trabalho é a faceta interna, para dentro do partido, a outra, devido a pouca perseguição, recém começa a se manifestar, que é a moral para enfrentar a repressão.

Porque a questão de fundo saber se alguns companheiros têm se dado conta que ao entrar para o partido entram em uma confraria de perseguidos, parias da sociedade, que estão contra todos os seus valores e falta de valores, por outros valores que consideramos muito mais sólidos, dinâmicos, ricos, estáveis e em desenvolvimento. Se trata de perguntar se sabem que os espera a morte , a mutilação, a perseguição, a tortura e que estão rodeados por companheiros que esperam, por sua concepção revolucionária, tranqüilamente por todas estas perspectivas. Se trata de saber se sabem que pouco tempo para o gozo e que este tem que ser conseguido como em uma cidade sitiada por um inimigo implacável, a que nos exigem ser sumamente cuidadosos, porque todos devem sacrificar-se para manter a moral alta de nossa confraria, sitiada, esfomeada, perseguida. Se trata, enfim, de saber se dão conta que queremos relações interpessoais entre aqueles que coincidem nesta guerra e nesta situação, porque senão se tornam sumamente perigosas porque podem atentar contra o desenvolvimento dessa luta implacável, que não dá chance. Se trata de saber se são conscientes de que não temos nada a ver com a moral dos porcos, das ovelhas e do gado, que nossa moral é uma moral límpida, revolucionária, que exige tudo do militante, e que às vezes em casos extremos, até a frustração de suas necessidades biológicas e sempre a máxima consideração para com o companheiro, o irmão de luta. Se trata, por último, de saber se se dão conta de que temos uma moral revolucionária.


Notas:

[2*] Jornal do POR Posadista

A Moral e a Atividade Revolucionária (Moral Bolche ou Moral Espontaneísta?) - Parte I - Nahuel Moreno

Primeira parte do livro de Nahuel Moreno extraído de: http://www.marxists.org/portugues/moreno/1969/moral/cap01.htm


Moral Bolche ou Moral Espontaneísta?

Meu contato com o partido, devido minha situação, tem sido durante estes meses através da correspondência. Não posso me queixar porque tem sido bastante intenso. Sem querer, levado pelo intercâmbio de cartas, fui me metendo no problema moral, desviando-me um tanto de meu projeto de escrever um trabalho sobre a situação peruana. É que vários dos companheiros e companheiras que me escreviam esboçavam ou defendiam posições sobre a moral que eu considerava alheias as nossas tradições e concepções.

"Há que ser honesto consigo mesmo", me escrevem, repetindo uma velha frase minha aprendida dos mestres; "tenho ânsias de viver e quero satisfaze-las"; "a primavera, o cheiro das flores, a conversa com as companheiras ou amigas fazem com que se possa passar qualquer coisa e tudo o que ocorrer está bem"; "não tenho que ter esquemas ou dogmas no problema sexual ou moral"; "nossa moral é fazer o que gostamos em qualquer momento".

Destas formulações teóricas passaram a dar-me todo um programa concreto de ação moral, "que louco é o companheiro tal que vive pensando em sua companheira presa, diz que cada vez a quer mais, quando a separação física por razões objetivas provoca inevitavelmente desamor, afastamento", "com minha companheira presa atuo de forma diferente, saio ou trato de sair com outras companheiras, assim consigo uma espera "ativa" e não "estática" etc., etc... Todas estas são citações textuais ou quase textuais, com ligeiras modificações para evitar sua identificação.

Antes da divisão "os combatentes" [1*] atacaram os companheiros da Zonal Norte por terem, segundo eles, essa moral. Naquele momento nos levantamos indignados contra tal infâmia e falsidade, que provinha justamente de dirigentes cuja moral pessoal era verdadeiramente repugnante, da pior que tenho visto em minha longa militância. Acreditava que essa polêmica com os combatentes havia aclarado o panorama. Parece que não é assim.

Na última escola de quadros tive a intenção de tocar neste tema, já que o considerava parte importante da educação militante. Por razões de tempo, me foi impossível fazê-lo. Creio que a grande quantidade de novos companheiros, a debilidade de sua formação, a falta de tradição marxista revolucionária, como o grave perigo de que companheiros de prestigio por serem ou haverem sido parte da direção nacional, tenham essas falsas posições e possam influir nos novos quadros partidários, exige que de uma vez por todas abordemos o problema. Sem dar muitas voltas direi que considero que existe todo um setor do partido que por um grave processo degenerativo, social, político, sua lumpenização, tem adotado posições sobre o problema moral que atentam contra a marcha e o fortalecimento de nossa organização. O tema toca, por outro lado, de forma muito mais profunda na realidade contemporânea. Vivemos a época mais revolucionaria da história, o salto da sociedade de classes, da pré-história humana para a sua história. Isso significa que estamos passando de formas de vida, costumes, relações econômicas, entre os sexos, das distintas esferas da atividade social arcaicas às novas. Porém estas últimas estão muito longe de se terem cristalizado, justamente porque estamos numa época de transição. Nestes períodos históricos nenhuma norma se fixa, se cristaliza; se derrubam umas, aparecem outras. A moral não uma exceção, pelo contrario, é um dos aspectos da vida que sofre uma maior comoção. Os velhos valores entram em crise antes que triunfem os novos e que os mesmos tenham se estruturado. Todas as épocas de mudanças revolucionária, nos tem mostrado uma situação similar de confusão moral, de amoralismo oficial, de choques entre distintas morais. O renascimento italiano com seus Papas, os Borgia, ou seus artistas, como Benvenutto Cellini, nos mostra um amoralismo que nos deixa estupefatos. A decadência do Império Romano, com suas orgias, seus imperadores "marido de todas mulheres e mulher de todos os maridos da corte" outra prova do que vínhamos dizendo. Que destas épocas tenham surgido as tremendas morais de Savonarola, Calvino, a primeira; o catolicismo dos primeiros séculos, a segunda, não faz mais que confirmar que na luta contra o amoralismo oficial, decadente, se foram estruturando uma nova moral, que refletia uma nova época e classe.

Os companheiros que captamos, são, principalmente, estudantes, vêem de uma sociedade em falência, repugnante, com pais separados ou que traem um ao outro; com amigos ou conhecidos que relatam orgias sexuais reais ou imaginarias; com filmes que se divertem em descrever todas as variantes de perversão sexual, com a leitura diária sobre a quantidade de maconha ou ácido lisérgico que consome a juventude norte-americana ou européia; com filmes pornográficos japoneses ou suecos que superam tudo o produzido na pré-guerra pelos franceses ou alemães; com pederastas ou lésbicas; com crimes ou assaltos vários; com delinqüentes públicos transformados em grandes personagens que gozam de todos os favores e prestígio social; com uma escala aristocrática onde as artistas de cinema e televisão, rodeadas de playboys, são supra sumo da moda, dos costumes, da moral; com uma frieza entre os sexos nos países avançados, onde se esta produzindo a liberação da mulher, que preocupa aos sociólogos; com a pílula como elemento fundamental na liberação da mulher. Estes companheiros chegam ao partido vindos de uma sociedade totalmente corrompida, sem valores de nenhuma espécie, onde a família, a amizade e as relações entre os sexos estão totalmente em crise. Isto não pode menos que refletir-se nas próprias filas partidárias, já que não vivemos enlatados a vácuo, mas sim dentro dessa sociedade.

Frente a esta situação se impõe a necessidade de precisarmos então que classe de moral temos, e inclusive se temos alguma.


Como Encaram Teórica e Praticamente Nossos Mestres o Problema Moral

O "Velho", em seu conhecido folheto "A Moral Deles e a Nossa" (ou Moral e Revolução) deu as linhas gerais da moral revolucionaria. Combatendo a concepção da pequena-burguesia, principalmente a intelectual, que sustentava e sustenta que há uma moral acima das classes que obriga a todos os homens a respeitar certos princípios, deveres morais, reivindicou a relatividade e o caráter de classe de nossa moral, como da moral em geral.

Nada de princípios absolutos, gerais, para a moral; a base da nossa é a revolução proletária. Tudo que a favoreça em nossa conduta é moral, entra dentro de nossos valores: tudo que a debilite ou vá diretamente contra a revolução, é imoral. Estes princípios nos obrigam a colocar o eterno problema dos meios e dos fins. Como sabemos que tal meio ou atitude moral serve à revolução? "Os fins justificam os meios" dizia a velha moral dos jesuítas. Trotsky respondia; "sim, sempre que os meios levem aos fins". Ou seja, entre fins e meios há uma dialética, já que nem todos os meios são viáveis, úteis. Mentir ao movimento de massas não serve para nada ainda que quem o faça tenha as melhores intenções, já que rebaixa o nível de compreensão dos fenômenos políticos e sociais pelos trabalhadores. É, portanto, não só um erro político, senão uma grave falta moral. Porém, um companheiro que tem uma missão dentro de um ambiente inimigo tem que mentir sistematicamente, porque sua mentira vai a favor do desenvolvimento do partido e da revolução. Se por exemplo, um companheiro despedido da Kaiser de Córdoba vem a Buenos Aires para buscar trabalho, por ter sido incluído nas listas negras da patronal cordobesa, logicamente não dirá a verdade aos novos patrões: "fui demitido da Kaiser porque era ativista sindical". Sua mentira é valida, estritamente moral.

Os intelectuais pequeno-burgueses assustados pelos que dizem que existe um principio moral sagrado, "não mentir", dizem: "portanto esse companheiro cordobés de vocês é um imoral de marca maior, vive mentindo a todos os patrões de Buenos Aires a quem pede trabalho".

Este principio moral situado por Trotsky: servir à revolução como critério básico deixa muito campo livre para a independência e desenvolvimento pessoal no campo das relações entre os sexos, a família e os outros companheiros. As diferenças apreciáveis na vida de nossos grandes mestres o demonstra. Não é segredo que Marx teve relações pessoais que alguns críticos modernos consideram de "moral vitoriana": fidelidade absoluta no matrimônio, relações exageradamente sérias com suas filhas, que noivaram e se casaram com todas as convenções da lei (inclusive a que se uniu livremente a seu companheiro inglês, que depois se suicidou, também o fez de forma bastante séria), aparentemente certa atitude depreciativa frente as relações de Engels com suas companheiras irlandesas, as duas irmãs, que nunca visitaram a família Marx (ainda que não me conste, me dizem que Bernstein, em um de seus livros, comenta que na casa de Marx eram muito mal vistas as relações deste com a irlandesa). Engels era o oposto de Marx. Em lugar de uma só noiva como este, que depois foi sua esposa, ainda com um bom lote (quando da revolução alemã de 48, chegou vários dias depois de combinado porque havia passado por Alsácia e Lorena a pé, onde "havia muitas mulheres lindas e bons vinhos" foi sua desculpa). Marx vivia assustado com as manias de Engels pela equitação e as " relações sociais". Os mexeriqueiros europeus, que também existem em grande quantidade, estão muito preocupados averiguando se andava com as duas irmãs ao mesmo tempo. O "Velho" comentava a correspondência dos dois amigos diz que surgem como maravilhas humanas, principalmente Engels. Eu compartilho desta opinião.

Entre Lenine e Trotsky há diferenças parecidas às existentes entre Engels e Marx respectivamente. Trotsky se casa duas vezes e tem relações sérias, quase "vitorianas", segundo os seus críticos europeus. Lenine, segundo insinua Deutsher e asseguram os fofoqueiros de turno, parece que teve algumas relações com suas ajudantes. Segundo os comentários que corriam em Moscou em fins da década de 20, o segredo da capitulação de sua magnífica companheira, Krupskaia, à Stalin, era a chantagem de que havia sido objeto por parte desse chacal: se não capitulasse a denunciaria como não tendo sido a companheira de Lenine e tiraria de sua manga alguns dos casos deste para ser reivindicada como tal. Por outro lado, Pola Negri, em suas memórias que li, não me contaram, relata que na Suíça, onde ela trabalhava em um cabaré ou algo parecido, havia estado com um homem de pequena estatura que foi a pessoa mais extraordinária que havia conhecido em toda sua vida. Essa pessoa era Lenine. Se isto for certo e não uma manobra publicitária de Pola Negri, duvido muito que a amizade entre ambos tenha sido justamente para jogar cartas.

Por um problema que Trotsky teve ao final de sua vida com sua companheira nos inteiramos do tipo de relação que tinham. Parece que o "Velho" e a senhora de Diego Rivera haviam se simpatizado em demasia, até provocar a indignação da Velha.

Isto provocou uma emocionante troca de cartas entre os dois Velhos: Don Leon lhe dizia em sua carta que ele jamais lhe havia pedido satisfação sobre as relações dela com seu secretário durante a guerra civil, apesar das presunções ou comentários de que tinham relações. Isto revela que Trotsky tinha a concepção de que cada um dos cônjuges era livre para fazer o que quisesse, sem ter que prestar contas ao outro: a independência pessoal mais absoluta. Deixando de lado que a Velha esclareceu o equivoco e a falsa versão ou presunção e que o Velho não recebeu mais a senhora de Diego Rivera, a posição que surge pela correspondência é contraditória, porque embora nela Trotsky afirma que nunca pediu prestação de contas, de fato nas duas cartas trocadas há, uma indireta e sutil intenção de prestação de contas, de estabelecer relações francas, verdadeiras, entre ambos e não da liberdade total absoluta e secreta.

Deste breve resumo, podemos tirar uma conclusão: que nossos mestres, dentro da moral geral que todos eles observaram no desenvolver da revolução, tiveram pronunciados matizes diferenciadas, inclusive contraditórios, na moral cotidiana com o outro sexo, a família e os companheiros, provocados por razões da época ou formação individual. A constatação deste fato pode nos levar a uma conclusão apressada e perigosa: que não há nenhuma relação entre a moral geral revolucionária e a que temos que empregar todos os dias em nossa vida de relação mais íntima. Dito de outra maneira, que não há normas ou linhas concretas em nossa moral, mas apenas generalidades.

Creio que pelo contrário, este é um terreno, como tantos outros, que não aprofundamos e que essa é a razão pela qual podemos tirar essa falsa conclusão. Não é casual que nesta etapa da revolução, como de nosso partido, comecemos a estudar o problema, tratando de solucionar, de descobrir, as leis que nos permitam retirar da lei geral de nossa moral, de que tudo o que ajuda à revolução e ao partido revolucionário é lícito, as normas justas de atuação cotidiana, principalmente em relação aos companheiros, nossas famílias e especialmente com o outro sexo.


O Que é a Moral?

Para avançar neste terreno, devemos começar por nos colocarmos de acordo em o que é a moral, o que significam os valores e deveres morais.

O homem vive em sociedade, formando parte de agrupamentos humanos, classes, grupos, famílias, nações, bairros. Essas estruturas sociais, para se manterem e se desenvolverem necessitam impor aos indivíduos que a formam, uma série de normas, obrigações, que garantam a conquista de objetivos como a solidez dessas estruturas. Essas normas que toda estrutura social impõe a seus indivíduos, são justamente as Morais. A ciência moderna, tende a dividir essas normas entre as mais abstratas, que estuda a ética, e as mais concretas, os deveres, que analisa uma nova ciência, a deontologia ou ciência dos deveres. Não quero me perder nos detalhes, que para o nosso caso são secundários. O importante é compreender o papel social fundamental que cumprem as normas sociais: o meio de garantir que o indivíduo, pressionado pelos valores e deveres de sua organização social, responda às necessidades desta.

Um exemplo: um sindicato é uma organização social, tem portanto, normas e deveres morais para com seus integrantes. Estas, entre outras, são as seguintes: acatar sempre o que os operários resolvam por maioria, ser solidário com todo pessoal em greve, não "furar greves" nunca. Estas normas garantem a solidez, desenvolvimento e conquista dos objetivos da organização sindical. Se não existissem ou se não se cumprissem, essa organização desapareceria em curto prazo. Estas normas morais se impõem por convencimentos dos indivíduos e por pressão moral e até física da organização social sobre eles. O que caracteriza é a pressão moral, ou seja, de opinião coletiva da organização.

Em torno deste último aspecto, surgem os pontos de contato e as diferenças entre o direito e a moral. Em um sentido, o direito é a moral mais um garrote, o do Estado ou qualquer outra superestrutura. Mas o direito é muito mais que isso, já que regulamenta muito mais relações que a moral. Enquanto esta apenas dá normas para a atuação individual dentro da organização, o jurídico dá leis ou resoluções que tratam de regulamentar todas as relações existentes na sociedade, entre as classes, os grupos, os indivíduos, de todos eles entre si, mas em benefício de uma classe e aplicado por um estado a serviço da mesma classe. Dai que o direito utiliza os meios diretamente compulsivos, a cadeia, as penalidades, próprios da força do estado, enquanto a moral utiliza a persuasão ou o repúdio moral, isto é, de opinião de grupo.

Algo semelhante ocorre com os costumes. Todo agrupamento tem seus hábitos de vida; se cumprimentam de tal forma, nós por exemplo, nos dizemos "como vai companheiro", outras organizações de esquerda "como vão camaradas". Fazem-se bailes ou almoços, ou ambas atividades de uma vez. Cada agrupamento social tem seus hábitos cotidianos de viver, são os costumes. Têm há ver com a pratica diária de existência desse agrupamento. Estes hábitos ou costumes cotidianos são fundamentais para a subsistência do agrupamento, mas não fazem à essência das relações, os costumes ou alguns deles, podem mudar sem afetar em nada o agrupamento. Também alguns indivíduos podem ser diferentes, não cumprimentam dizendo "como vai companheiro", mas sim, "como vão amigos e amigas", é contra o costume, mas não afeta em nada a estrutura do agrupamento, neste caso nosso partido. Os costumes são elemento espontâneo do agrupamento, tomado em sua média estatística. A moral funde suas raízes nos costumes, mas bem diferente, não é toda a vida cotidiana como esta última, mas um aspecto privilegiado desta, aquele aspecto que faz à sobrevivência da estrutura social de que se trata e, portanto, são normas estritas, severas, essenciais para serem aplicadas por indivíduos.

Aclaram-se assim as três escalas deste aspecto da vida social. - Os costumes é o espontâneo, o geral e o cotidiano da vida e práxis de todo agrupamento social. A moral são as regras, normas, deveres que garantem a sobrevivência, desenvolvimento e fins do agrupamento social, através dos indivíduos que o formam. O direito é uma superestrutura que tende a regulamentar todas as relações, não só as excepcionais e essenciais, como as morais, mas todas, desde as horas de reunião de um partido, até as relações entre as classes no direito público do estado burguês. Toda classe, organização social, tem então, seus costumes, moral e direito. Nosso partido, o partido bolchevique argentino, o PRT, não é uma exceção. Todos nós sabemos que temos nossos costumes, alguns parecem ter se esquecido que também temos uma moral e temos nosso direito (o estatuto).


A Crise da Moral Burguesa

A burguesia, em sua época de ascenso e plenitude, impôs uma sólida moral. A base dessa moral era dada pelas necessidades da acumulação primitiva capitalista. A célula fundamental dela era a família patriarcal burguesa, com muitos filhos e o domínio absoluto do pai, os máximos valores eram os familiares. O futuro, com seu afã de engrandecimento, condicionava todos os valores morais. A poupança, a economia, a obediência servil dos filhos e da mulher ao chefe da família, a acumulação de um capital antes de se casar, o que levava a que se casassem já maduros, o casamento acertado entre famílias para que as filhas se casassem o mais rápido possível, quase meninas, para que não fossem uma carga para o processo de acumulação, caracterizava esta moral. Como vemos, predominava a organização familiar e uma moral adequada a essa organização, cujo objetivo era a acumulação capitalista. Tudo era sacrificado pelo futuro, principalmente o presente. Os homens se casavam já maduros porque haviam sacrificado sua juventude para a acumulação da fortuna que lhes permitiria constituir um lar burguês, com a marcha acumulativa assegurada. Primeiro a fortuna, depois o casamento, era a regra moral. As meninas, para assegurar seu futuro, eram obrigadas a casar com velhos que poderiam ser seus pais ou avós, se lhes frustrava, por toda vida, suas possibilidades instintivas, para lhes assegurar um futuro econômico.

Entre essa moral oficial e as necessidades biológicas, produzia-se uma dicotomia, uma grave contradição, insolúvel dentro dos marcos estritos daquela. Dai que essa moral entrasse em contradição com o costume, era hipócrita, já que solucionava ou tentava solucionar suas contradições por meios ocultos e hipócritas. Para os homens: os prostíbulos; para os jovens, especialmente os da burguesia, as vedetes ou "malas gruas" como com ironia as definiam os franceses do fim do século, porque levantavam seus candidatos desde o palco, ou diretamente a amante cara. Para as pobres mulheres, condenadas a uma moral oficial masculina, a "traição" de seu velho esposo ou, se as circunstâncias o impedissem, o anamoramento romântico, "impossível", cheio de versos "cursi" que escondiam aparências mais realistas. Mas, em geral, a mulher burguesa esteve condenada sob esta moral a não satisfazer suas necessidades biológicas ou culturais, já que os cartões postais ou os versinhos do apaixonado do momento não podiam satisfazer essas necessidades prementes. No século passado, e em grande parte no presente, segundo os sexólogos, a maior parte das matronas da burguesia morriam sem haver conhecido o ato sexual integralmente e as que conseguiam eram uma exceção, que quase sempre se dava em uma idade relativamente madura, depois dos 30 anos.

Paralelamente a estes problemas morais e de costume, foi-se produzindo outros, à medida que a burguesia acumulava: a necessidade de gozar do conquistado. A conseqüência disto, foi que, das duas caras da moral burguesa, a pública e a restrita, a hipócrita e a oculta (o adultério, as amantes, os prostíbulos), o desenvolvimento capitalista foi dando proeminência a esta última. Isto significava que a necessidade de acumulação primitiva deixava lugar ao andamento normal, não opressivo dessa mesma acumulação. Poderíamos falar de duas morais burguesas, uma a de acumulação primitiva, outra, a da burguesia em seu apogeu. Na primeira domina o futuro, tudo ou quase tudo era sacrificado por ele. O presente se esconde e é solucionado de forma clandestina. Em seu apogeu, produz-se um bastardo equilíbrio entre o futuro e o presente, a hipocrisia se torna pública, e a burguesia aceita gozar o presente, sem renegar o futuro. Mas as graves contradições continuaram existindo.

Os grandes descobrimentos de Freud não podem ser explicados sem os enfocar como conseqüência da observação destas graves contradições da moral predominante de sua época, em Viena.

Freud utilizou a ciência para descobrir a hipocrisia dessa moral e o lado oculto dela, o biológico. Este século o da decadência da burguesia, com ela cai em pedaços sua moral, esta entra em uma crise tão brutal como o regime que a fundou. A família patriarcal burguesa da etapa de ascenso, desaparece, se rompe, para dar lugar a relações entre os sexos e os membros da família anárquica, crítica, onde o elemento fundamental é a transformação de cada indivíduo em desfrutador do mundo e do outro sexo. Esta moral reflete a passagem da acumulação capitalista desesperada à tentativa da burguesia de gozar o presente. É a putrefação do indivíduo burguês levado aos seus últimos extremos, o das relações pessoais e sexuais. Os setores mais cultos, rebeldes ou desclassificados da própria burguesia, apelam impudicamente a um giro ao biológico, o imediato, quer dizer, o abandono de toda moral, de toda perspectiva para o futuro. A psicanálise fica na moda nos anos 20, principalmente nos Estados Unidos. Todo o espontâneo e as necessidades biológicas encontram justificação e explicação na psicanálise. Tudo esta bem e permitido, o passado e o biológico, tudo é explicado e justificado. Uma classe sem futuro, logicamente teria que cair, como todas as classes que na história perderam toda sua perspectiva, em um amoralismo.

Mas a putrefação moral da burguesia teria que avançar ainda mais. Com o neocapitalismo, com o controle dos mercados pelos grandes monopólios que o caracterizam, pela manipulação dos consumidores através da propaganda, a perda da moral já é total, nem sequer é um amoralismo, já que se transforma em um consumo, em hábitos, reflexos condicionados e solucionados pelos grandes monopólios. Já a moral, ou falta de moral, nada tem a ver com pessoas de carne e osso, mas com objetos ou pessoas-objetos. Até as necessidades biológicas mais primárias são manejadas, manipuladas, pelos que controlam o mercado, que rebaixam assim a moral a um ramo a mais do mercado monopolista. A vida se torna aborrecida, a moral desapareceu, já não são deveres que os homens impõem a si mesmos, para defender uma estrutura social, mas reflexos condicionados, costumes, satisfação por esses reflexos, de necessidades biológicas ou sociais. Entramos em uma época de falta de moral ou de uma ética congelada.

A esta moral da burguesia em decadência, se combina, com seus aspectos característicos, a outra moral, que é sua sombra rebelde, em certo sentido seu rosto verdadeiro, a moral dos setores deslocados das grandes cidades.


A Moral Lumpen

Nas favelas desta etapa neocapitalista estão congregadas multidões que estão relativamente à margem do mercado capitalista, sua ligação com ele, com seus fetiches, é muito menor que a dos outros consumidores. Seu regime de vida é instável. São grandes concentrações de desclassificados, lumpens. Muitos deles se transformam em operários, outros não; mas o elemento determinante está dado por essa caracterização. Os companheiros que trabalharam sobre a greve portuária, conhecem na própria carne a verdade do que estamos dizendo. Que moral têm esses conglomerados?

Não necessitamos investigar muito, existe um livro magnífico que não só estudou uma família desse conglomerado, mas que retirou algumas conclusões significativas. Refiro-me a "Os Filhos de Sánchez" de Oscar Lewis; o autor, depois de assinalar que as conclusões podem ser aplicadas às grandes cidades, diz o seguinte: "outros aspectos incluem uma forte orientação para o tempo presente, com relativamente pouca capacidade de retardar seus desejos e de planejar para o futuro, um sentimento de resignação e de fatalismo baseado nas realidades de difícil situação de sua vida". Os membros da classe média, e isto inclui logicamente a maioria dos investigadores das ciências sociais, tendem a se concentrar nos aspectos da cultura da pobreza e tendem a associar valores negativos e características tais como a orientação centrada no momento presente, a orientação concreta versus a abstrata. Não pretendo idealizar nem romantizar a cultura da pobreza. Como disse alguém: "É mais fácil louvar a pobreza do que vive-la". No entanto, não devemos passar por cima de alguns dos aspectos positivos que podem surgir daí. Viver o presente pode desenvolver uma capacidade de espontaneidade, de desfrutamento do sensual, a aceitação dos impulsos, que freqüentemente esta tolhida em nosso homem da classe média, orientado para o futuro. O uso freqüente da violência significa uma saída fácil para a hostilidade, de modo que os que vivem na cultura da pobreza sofrem menos a repressão da classe média. Lewis deu um nome próprio da sociologia norte-americana a este fenômeno: cultura da pobreza, aparentemente não tem nada que ver com as categorias marxistas, é uma definição por lugar de moradia. Mas Lewis é um extraordinário observador além de estudioso. Isto o leva a fazer marxismo, e do bom; a "cultura da pobreza" - nos diz - "só teria aplicação nas pessoas que estejam no fundo da escala sócio-econômica, os trabalhadores mais pobres, os camponeses mais pobres, os cultivadores de plantações e essa grande massa heterogênea de pequenos artesãos e comerciantes, os quais em geral se classificam como "lumpen proletariado". E para que não nos restem dúvidas de que se trata da moral e cultura dos lumpens, nos esclarece, "gostaria de distinguir claramente entre o empobrecimento e a cultura da pobreza. Nem todos os pobres vivem nem desenvolvem necessariamente uma cultura da pobreza". E, rematando suas conclusões, nos diz: "Quando os pobres adquirem consciência de classe, se tornam membros de organizações sindicais ou quando adotam uma visão internacionalista do mundo, já não fazem parte da cultura da pobreza, ainda que continuem sendo desesperadamente pobres". Lewis não sabe que afiliados ao nosso partido, nossa internacional, existem "canalhas", chamando-os assim, já que não são imberbes militantes que estão na cultura da pobreza, na acepção de Lewis, que não têm nenhuma "capacidade de retardar seus desejos". Mas essa exceção não anula a correta definição do autor, que não tem porque conhecer os processos excepcionais e degenerativos.


A Rebelião Burguesa e Pequeno-Burguesa Contra a Sua Moral o Existencialismo e Espontaneísmo

Dado o objetivo específico do livro de Lewis, este não tira todas as conclusões gerais de algumas de suas observações mais interessantes: inclusive entra em contradição aparente com algumas delas. Lewis intui que a cultura da pobreza, da desclassificação, a lumpenização, com todos seus valores morais, não é própria somente do lumpen tradicional, mas que todas as classes podem lumpenizar. Por exemplo, sublinha "a cultura ou sub-cultura da pobreza nasce de uma diversidade de contextos históricos, mais comum que se desenvolva quando um sistema social estratificado e econômico atravessa um processo de desintegração ou de substituição por outro, como no caso da estratificação de feudalismo ao capitalismo, ou no transcurso da revolução industrial". Diretamente não liga neste caso a cultura da pobreza ao baixo nível econômico-social, mas a uma etapa de transição, que provoca desclassamento, ainda que ele não o diga assim.

Isto se vê confirmado pela contradição formal em que cai ao assinalar como opostas a cultura da pobreza, em nossos termos "lumpen", e a da classe média, mas de relance dá a melhor definição que conheço do existencialismo como corrente filosófico-social: "talvez esta realidade do momento (presente) seja a que os escritores existencialistas de classe média, tratam de recuperar tão desesperadamente, mas que a cultura da pobreza experimenta como um fenômeno natural e cotidiano".

É que Lewis não sabe que a classe média, durante a primeira guerra mundial, em alguns de seus extratos, de forma cada vez maior desde a segunda guerra mundial, encontra-se como que sem futuro, que a sociedade imperialista ou neo-capitalista a condena ao presente de uma vida automatizada pelos reflexos do mercado, ao irracionalismo da vida sob o capitalismo, ou seja, o condena a não ter futuro e portanto a não ter moral. Produz-se então, uma rebeldia dentro dos marcos burgueses contra os valores da burguesia em nome de suas próprias categorias. Tanto o sub-realismo como o existencialismo refletem essa situação sem saída de estratos muito importantes da pequena-burguesia. Mas para intelectuais pequeno-burgueses, no fim das contas, sua rebeldia é levar os princípios burgueses e pequeno-burgueses até suas últimas conseqüências. A liberdade individual como opção é uma das categorias morais principais do existencialismo, ou seja, o principio de fazer o que se quiser. A satisfação das necessidades mais primarias, o imediato, o biológico é a outra reivindicação, a vida, a existência. O individualismo é a terceira categoria. É uma filosofia e moral da pequena-burguesia lumpenizante, desclassificada, sem perspectiva, que se refugia ou busca desesperadamente no biológico e no individuo uma tábua de salvação. Sua moral é o amoralismo, já que ao colocar como suprema norma o satisfazer e optar individualmente, elimina-se o elemento funda mental de toda moral, a relação de necessidade entre o grupo e o indivíduo que forma parte dele. Este último pós-guerra explica o auge e o apogeu do existencialismo, quando a Europa capitalista ainda não havia conseguido se recuperar e o stalinismo frustrava a perspectiva revolucionária. Entre os dois fogos da decadência total da sociedade capitalista européia e o oportunismo dos grandes partidos de massas, surgiu uma terceira via, a do individualismo mais extremo, a do existencialismo, a da conceitualização filosófica e moral da rebeldia dessa pequena-burguesia, junto com seu desclassamento.

Porém este um fenômeno generalizado nas épocas de crises. Setores e mais setores destas classes dominantes ou em certo sentido privilegiadas, como a classe média, vão rebelando-se desde distintos níveis e partindo de categorias ou consignas das próprias classes dominantes em sua época de ascenso.

Porém sejamos claros, essa rebeldia chega a formular o aparato conceitual dos lumpens, redescobre a moral lumpen, sem a riqueza espontânea destes, com o pecado original de ser intelectualizada. Enquanto os lumpens são individualistas ao extremo, gozadores da vida e de todos os seus impulsos, vivedores do presente, que vivem optando "livremente" negando-se a aceitar o mundo da necessidade, ainda que este termina sempre se impondo, os manda para a prisão ou incendeia a favela, diretamente, sem programa, sem linha expressa, são assim porque o são e basta; os existencialistas fazem um programa e uma filosofia desse amoralismo e individualismo. É sua miséria e seu calcanhar de Aquiles elevar a uma religião o que nos lumpens é sua vida. Por outro lado é muito profundo o processo porque reflete a lumpenização de setores da pequena-burguesia produzida pelas próprias crises da sociedade burguesa.


O Espontaneísmo

A pequena-burguesia desclassada do último pós-guerra foi assimilada pelo "milagre europeu", ou seja, pelo neocapitalismo. Encontrou um futuro na "forma de vida norte americana", os automóveis, refrigerantes, apartamentos e férias. O existencialismo desapareceu, ficou como o sub-realismo da anterior guerra, relegado ao devaneio das curiosidades filosóficas ou morais.

Porém dentro do neocapitalismo, a pequena-burguesia o estudantado como reflexo de toda sociedade, iriam sofrer tanto ou mais, ainda que de forma diferente, que durante o pós-guerra. A alienação, a proletarização, a venda não somente de sua força de trabalho mas também sua personalidade, a falta de perspectivas científicas e humanas para os estudantes dentro do neocapitalismo, provocaram uma nova rebelião com características comuns e com diferenças pronunciadas com seus pais, avós, os sub-realistas e existencialistas, o espontaneísmo das grandes rebeliões estudantis do ano 68.

Antes de mais nada esta não foi de pequenos estratos, de intelectuais e outros setores de pouca significação numérica, mas de grandes massas estudantis, acompanhadas, às vezes, de setores da juventude operária, como em maio de 68 na França. É um movimento muito mais progressivo que os anteriores, porque não é somente uma rebelião individual levada aos extremos de atacar todos os tabus e valores presentes e passados da sociedade burguesa em nome de uma moral de desclassados, mas um movimento que tende a ser de massas.

Na realidade se deu o processo intelectual que sofreu Carlos Astrada [1N], o grande filósofo argentino. Este começou como um convencido existencialista para depois superar o existencialismo em um ponto; de individual o transformou em coletivo, de massas. Aceitava todas as categorias existencialistas, opção, existência ou vida, liberdade, porém negava a do indivíduo, ele acreditava que todas as categorias se davam ligadas aos grandes grupos humanos, inclusive as classes. Havia opção e existência das classes. Seu próximo passo foi afirmar que o determinante era o mundo da necessidade para dar o salto do existencialismo ao marxismo. Salto entre parêntesis, que nosso partido o ajudou a dar. Isto foi o que ocorreu com os intelectuais, os estudantes e setores da classe média dos grandes movimentos de 68. Aplicaram os conceitos de Astrada à realidade, isso é o espontaneísmo.

Esta passagem do existencialismo ao espontaneísmo só pode ser compreendida pela existência do neocapitalismo. Este, com seus grandes monopólios que controlam não só o mercado mas toda a vida contemporânea, com suas ganâncias políticas e sindicais, os grandes partidos e sindicatos que controlam o movimento de massas a serviço dos estados e dos grandes monopólios, ainda que se chamem comunistas, cuja função é castrar todo movimento ou ação das massas, provocou uma reação compreensível na juventude, o repúdio a todo intermediário ou organizador do movimento de massas, que estas façam espontaneamente o que queiram, a ação pela ação mesma. Que ainda não se tenham elevado a compreensão de que o que há que questionar são as organizações e os intermediários do movimento de massas, que se trata e se necessita de sindicatos, partidos, sovietes, guerrilhas revolucionárias que disputem esse papel de intermediários às organizações enfeudadas nos monopólios, é lastimável, mas um fato compreensível. O espontaneísmo é o repúdio a essas organizações traidoras sem haver ainda encontrado o caminho. Como tal é muito progressivo. Questiona as organizações oportunistas e reivindica as ações do movimento de massas.

No terreno moral, o espontaneísmo não é tão progressivo, ao contrário, é uma recaída no existencialismo, por uma razão simples: ao contrario da política que coordena e dá objetivo às ações do movimento de massas, a moral regulamenta as relações do individuo com seu grupo, sempre são normas para serem aplicadas por indivíduos. Dai que o espontaneísmo, a ação por ela mesma, no terreno moral, nos leva ao amoralismo, à moral de individualismo, das opções de "fazer o que tenhamos vontade", de não ter normas. Este "não ter normas" em política, neste momento de sufocante predomínio dos grandes aparatos burocráticos, é positivo; não o é tanto no terreno moral, ou pelo menos não é superior aos aspectos progressivos, de reivindicação da imediatez contra os tabus e normas da burguesia, que já tinham as morais anteriores surrealista e existencialistas. É uma reação a elas. Portanto, não supera os marcos de rebeldia dentro das próprias estruturas burguesas.

Uma prova conclusiva de tudo isso, de como a burguesia cai em predações e como o espontaneísmo moral, em última instância, é como definia Lenine o anarquismo, liberalismo burguês com 40 graus de febre, dado por um fato sintomático, o programa moral da ala esquerda da juventude conservadora britânica.

Li casualmente um artigo no "The Daily Telegraph" de 25 de setembro de 1969. O tema me pareceu em principio pouco interessante: "Como são os jovens conservadores?" por um tal de T.E. Utley. Depois de assinalar que é um "sério movimento de massas que cresce com imensa velocidade", continua em outra parte dizendo qual seu programa: "Há, por outro lado, minorias ruidosas, tal como a representada pela capacitada e estridente jovem parceria Erie e Lynda Chalker da juventude conservadora da Grande Londres"... Este jovens conservadores prepararam uma pauta de reivindicações (Bill of Right) com 15 liberdades que incluem "a liberdade de expressão sexual" e "liberdade de tomar drogas...". "Estes jovens conservadores exigem uma legislação liberal, de cujos aspectos muitos são a aplicação na esfera moral dos princípios econômicos". A prova conclusiva do que vimos dizendo: os jovens conservadores, levando ao absurdo as liberdades burguesas, chegam a ter um programa moral igual ao dos espontaneístas. Lamentavelmente, também igual ao programa moral pessoal de alguns companheiros relevantes do partido. Esta moral é irmã siamesa da cultura da pobreza. Nada disso quer dizer que de maneira absoluta este programa moral, inclusive a dos jovens conservadores, não possa ser útil à revolução em um momento determinado, como já veremos em outro capitulo deste trabalho. Mas, o que sim podemos afirmar já, é que se algum velho camarada ou algum dirigente tem esta mesma moral, nele é um processo claramente degenerativo, de uma moral bolche e prole para lumpen, onde se encontra com os setores desclassificados de todas as classes, portanto é ele, o desclassificado do movimento marxista, não por isso ou talvez por isso, seja o único repugnante e canalhesco.


A Moral Guerrilheira

Contra todas essas morais e políticas da decomposição de troca, da transformação, do vazio, da falta de política e de moral, levantou-se neste pós-guerra a moral guerrilheira, uma ética e consciência dos deveres que nos deve fazer meditar muitíssimo, porque é tão objetiva, ou seja, existente, como todas as que relatamos, que se pode contar e até tocar.

Apesar de que os espontaneístas reivindicam e defendem os movimentos guerrilheiros, estão há anos luz, no extremo oposto do programa e da moral guerrilheira, ainda que profundas razões de classe façam com que tenham pontos comuns, seu caráter não proletário.

A guerrilha não é uma luta esporádica, mas ao contrário, é uma guerra longa que exige uma disciplina e organização férreas. É a negação do espontaneísmo, justamente a máxima expressão do organizado, do anti-espontâneo. É uma guerra com milhares de combatentes, como tal tem uma moral adequada a essas necessidades. Sua moral é tão severa como sua organização e tão sacrificada como sua luta. Todo o imediato, o sexual, a alimentação, como todas as necessidades culturais imediatas ou mediatas, são sacrificadas às necessidades da luta armada, o fator decisivo que restringe ou medeia tudo, inclusive a moral.

O canalha que andasse fazendo espontaneísmo moral, que dissesse ou fizesse as monstruosidades que me escreveram, na guerrilha certamente seria fuzilado. Todos os desejos, necessidades, são subordinadas e inclusive adiadas pelas necessidades da luta guerrilheira. Podem se passar anos sem ter relações sexuais, acossados na montanha pelas forças inimigas e quando encontram as camponesas são proibidos de ter relações com elas. Podem estar mortos de fome, mas terão que agüentar essas necessidades fisiológicas de primeira ordem, em vez de roubar, saquear algo do camponês. Seu companheiro cairá ferido na emboscada inimiga, deverá ficar ao lado do companheiro para arrastá-lo enquanto esta vivo, para fora da emboscada com o risco da própria vida. A vida do companheiro vale muito mais que a dele, porque ele está são e pode se salvar e o companheiro ferido, mas a moral guerrilheira exige que nenhum guerrilheiro caia vivo em mãos do inimigo para evitar as torturas.

Esta moral guerrilheira levou até os últimos extremos a liquidação ou castração do imediato e do cultural, em beneficio do futuro, da luta, da guerrilha. Graças a este sentido do dever, como um de seus principais elemento, pode triunfar. Negou todas as necessidades humanas para impor a máxima necessidade, a da revolução e a guerra civil contra os exploradores.

Há elementos, ou às vezes uma linha sectária nesta moral guerrilheira, há reminiscências do puritanismo. Não é casual já que a moral guerrilheira sintetiza muitos elementos, superando-os, das morais anteriores progressivas, revolucionárias desde o cristianismo antigo, até o puritanismo, a negação do imediato e as outras necessidades humanas, em função da necessidade principal.

Desta moral podemos dizer o mesmo que dissemos de seu máximo expoente, Che Guevara, pode ter erros, tem erros, não é a solução equilibrada, total, mediada do problema, mas, essencialmente a máxima expressão objetiva, neste pós-guerra, de moral revolucionária. A única coexistente com a nossa, que ainda não tem maior peso objetivo.

Por fim, depois das canalhices habituais em um setor do partido, da falta de moral de todas as correntes burguesas, pequeno-burguesas e lumpens que estudamos, chegamos a um porto seguro, a uma "moral revolucionária", como a havia definido Trotsky: todas as ações estão super ditadas ao triunfo da revolução. Nossa moral é a negação de todas as outras, ainda que possam ter pontos comuns com algumas delas em determinados momentos, mas é a prima irmã da moral guerrilheira. Já pisamos no chão, entramos no caminho da revolução, de sua política, mística, teoria e moral. Já saímos das Catacumbas e isso é importante - Que bem fez o ar fresco!


Notas:

[1*] Refere-se uma fração do partido argentino naquela época que veio dar origem posterior ao PRT (Partido Revolucionario de los Trabajadores) e ao ERP.
[1N] Carlos Astrada nasceu em 26 de fevereiro de 1894 em Córdoba, Argentina, e morreu em Buenos Aires, em 23 de dezembro de 1970. Foi professor de Gnoseologia e Metafísica e Diretor do Instituto de Filosofia da Universidade de Buenos Aires.

Moral e Revolução - Parte 2 - Leon Trotsky

Retirado do arquivo marxista da internet disponível em: http://www.marxists.org/portugues/trotsky/1936/moral/cap02.htm


O Estalinismo é um Produto da Velha Sociedade

A Rússia empreendeu o mais grandioso salto para frente da História, salto que é a expressão das forças mais progressistas do país. Durante o atual período de reação, cuja amplitude é proporcional à da revolução, as forças da inércia tornam sua desforra. O stalinismo tornou-se a encarnação desta reação. A barbárie da velha Rússia, ressuscitada sobre novas bases sociais, assume uma feição ainda mais repugnante, porque agora tem de valer-se de uma hipocrisia sem precedentes na História.

Os liberais e social-democratas ocidentais, obrigados pela Revolução de Outubro e pôr em dúvida suas idéias envelhecidas, sentem renascer suas forças. A gangrena moral da burocracia soviética parece-lhes reabilitar o liberalismo. Vêmo-los reeditar os bolorentos aforismos do gênero: "cada ditadura traz em si os germes da própria dissolução", "Só a democracia assegura o desenvolvimento da personalidade", etc. Contrapor-se democracia a ditadura, com o intuito de condenar o regime socialista em nome do regime burguês, revela, do ponto de vista teórico, um espantoso manancial de ignorância e má fé. k. infeção do stalinismo, realidade histórica, contrapõe-se a democracia, abstração supra-histórica. Mas a democracia teve ela também uma historia, na qual os horrores também não estiveram ausentes. Para definir a burocracia soviética, nós tornamos emprestados da história da democracia burguesa os vocábulos "Termidor" e "bonapartismo", porque - tornem nota os atrasados do liberalismo - a democracia não se estabeleceu com métodos democráticos. Só pobres de espírito podem dar-se por satisfeitos com tais raciocínios sobre o bonapartismo "filho legítimo" dos jacobinos, castigo histórico pelos atentados infligidos à democracia, etc. Sem a destruição do feudalismo pelos métodos jacobinos, a democracia burguesa teria sido inconcebível. Opor a abstração "democracia" às etapas históricas reais - jacobinismo, termidor, bonapartismo - é tão falso como opor às dores do parto a tranqüilidade do recém-nascido.

O stalinismo, por sua vez, não é uma "ditadura abstrata", mas uma grandiosa reação burocrática contra a ditadura proletária num país atrasado e isolado. A Revolução de Outubro anulara os privilégios, declarara guerra às discriminações sociais, substituíra a burocracia pelo autogoverno dos trabalhadores, abolira a diplomacia secreta; esforçara-se para dar a mais completa transparência a todas as relações sociais. O stalinismo restaurou as formas mais ofensivas de privilégio, conferiu à desigualdade um caráter provocativo, sufocou com absolutismo policial a atividade espontânea das massas, fez da administração um monopólio da oligarquia do Kremlin, ressuscitou o fetichismo do poder sob formas que a própria monarquia absoluta não tivera sequer coragem de sonhar.

A reação social, qualquer que seja ela, é mascarar seus fins verdadeiros. Quanto mais brutal é a passagem da revolução à reação, mais a reação depende das tradições da revolução. Em outras palavras, mais a reação teme as massas, e mais é obrigada a recorrer à mentira e à impostura em sua luta contra os revolucionários. As falsificações e imposturas stalinistas não são fruto do "amoralismo" bolchevista; como todos os ventos importantes da História, são o produto duma luta social concreta, a mais pérfida e dura: a luta de uma nova aristocracia contra as massas que a levaram ao poder.

É preciso ter realmente uma total indigência intelectual e moral para identificar a moral reacionária e policial do stalinismo com a moral revolucionária do bolchevismo. O partido de Lênin deixou de existir desde longa data; as dificuldades internas e o imperialismo mundial o quebraram. A burocracia stalinista, que o sucedeu, representa um aparelho de transmissão do imperialismo. Na política mundial, a burocracia substituiu a luta de classe pela colaboração de classe, o internacionalismo pelo social-patriotismo(12). Para adaptar o partido dirigente às necessidades da reação, a burocracia "renovou" a composição do PC soviético com o extermínio dos revolucionários e o recrutamento de arrivistas.

Qualquer reação vencedora ressuscita, alimenta e reforça os elementos do passada histórico que a revolução golpeara sem conseguir aniquilar. Os métodos stalinistas levam à mais alta tensão - e portanto ao absurdo - todos os procedimentos de mentira, de brutalidade e de aviltamento que constituem o mecanismo do poder em qualquer sociedade dividida em classes, sem exclusão de democracia. O stalinismo é um conglomerado das monstruosidades do Estado assim como a história o criou; e é também sua mais funesta caricatura e a máscara mais repugnante. Quando os representantes da velha sociedade opõem de maneira sentenciosa à gangrena do stalinismo uma estéril abstração democrática, temos bem o direito de recomendar-lhe, como a toda a velha sociedade no espelho deformante do termidor soviético. 6 verdade que, pela audácia de seus crimes, a GPU supera de longe qualquer outro regime. isto, porém, é conseqüência da grandiosidade dos eventos que convulsionaram a Rússia sob a influência desmoralizante da era imperialista.


Moral e Revolução

Não faltam entre os liberais e radicais homens que, por terem assimilado os métodos materialistas de interpretação dos acontecimentos, se consideram marxistas. Isto, todavia, não impede que continuem sendo jornalistas, professores ou homens públicos burgueses. Não é preciso dizer que é impossível conceber-se o bolchevista sem o método materialista, na moral como em qualquer outro campo. Mas esse método não lhe serve apenas para interpretar os acontecimentos, serve-lhe também para construir o partido revolucionário do proletariado, tarefa que só pode ser cumprida num clima de absoluta independência em relação à burguesia e à sua moral. Ora, a opinião burguesa domina de fato, completamente, o movimento operário oficial, de William Green nos Estados Unidos a Garcia Oliver na Espanha, passando por Leon Blum e Maurice Thorez na França. O caráter reacionário da época atual encontra nesse fato sua expressão mais profunda.

O marxista revolucionário não pode enfrentar sua tarefa histórica sem ter rompido moralmente com a opinião pública da burguesia e de seus agentes no seio do proletariado. Esta ruptura exige coragem moral de calibre bem diferente daquela dos que andam berrando nas reuniões públicas: "abaixo Hitler, abaixo Franco!". E é precisamente esta ruptura decisiva, profundamente meditada, irrevogável, dos bolchevistas com a moral conservadora, seja da grande como da pequena burguesia, que incute um medo mortal aos palavreadores da democracia, aos profetas de salão, aos heróis de escrivaninhas. É nesse medo que se originam suas lamentações sobre o "amoralismo" dos bolchevistas.

Sua maneira de identificar a moral burguesa com a moral "em geral" demonstra-se talvez, com maior evidência, na extrema esquerda da pequena burguesia, mais exatamente nos partidos centralistas do chamado Bureau Socialista Internacional de Londres. Já que essa organização "reconhece" o programa da revolução proletária, nossas divergências e confrontas com ela parecem, a primeira vista, secundárias. Na realidade, sua "aceitação" do programa revolucionário não tem qualquer valor, já que não a obriga a nada. Os centristas "reconhecem" a revolução proletária como os kantianos reconhecem o imperativo categórico, isto é, como um princípio sagrado mas inaplicável na vida cotidiana. Na política prática, eles se unem aos piores inimigos da revolução, reformistas e stalinistas, para a luta contra nós. Seu pensamento é impregnado de duplicidade e hipocrisia. Se, de modo geral, não chegam a crimes clamorosos, é porque estão sempre no último plano da política. São, em certo sentido, os ladrões de galinhas da história. Exatamente por isso crêem-se enviados para regenerar o movimento operário coem uma nova moral.

Na extrema esquerda desta confraria de "esquerda" coloca-se um pequeno grupo, sem qualquer significação política, de emigrados alemães que publicam a revista Neuer Weg (Novo Caminho). Vamos nos abaixar um pouco e prestar atenção a estes críticos "revolucionários" do amoralismo bolchevista. O Neuer Weg, assumindo o tom de um elogio ambíguo, escreve que os bolchevistas se distinguem positivamente dos outros partidos pelo fato de que não têm hipocrisias: eles proclamam em voz alta o que os outros fazem escondido e, assim, aplicam, por exemplo, o princípio "os fins justificam os meios". Segundo Neuer Weg, esta regra "burguesa" é incompatível com um "sadio movimento socialista". "A mentira e coisas piores, não são meios consentidos na luta de classes, como ainda pensava Lênin". Ainda significa, nesse caso, que Lênin não teve tempo de desfazer-se de suas ilusões, porque morreu antes da descoberta do "novo caminho" (Neuer Weg).

Na expressão "a mentira e coisas piores", a segunda parte significa, evidentemente, a violência, o assassínio, etc, porque, em paridade de condições, a violência é pior que a mentira, e o assassínio é a forma extrema da violência. Chegamos assim à conclusão de que a mentira, a violência e o assassínio são incompatíveis com "um sadio movimento socialista".

Mas o que dizer da revolução? A guerra civil é a mais cruel das guerras. Não pode ser concebida sem violências exercidas sobre terceiros e, tendo-se em conta a técnica moderna, sem a morte de velhos e crianças. É preciso lembrar a Espanha? A única resposta que poderiam dar os "amigos" da Espanha republicana é que a guerra civil é preferível à escravidão fascista. Mas essa resposta absolutamente certa significa apenas que o fim (a democracia ou o socialismo) justifica, em certas circunstâncias, meios como a violência e o homicídio. E nem vale a pena falar da mentira! A guerra é tão inconcebível sem a mentira como uma máquina sem graxa. Com o único fim de proteger a assembléia das Côrtes das bombas fascistas, o governo de Barcelona enganou, várias vezes e deliberadamente, os jornalistas e a população. Poderia ter feito de outra maneira? Quem quer o fim - a vitória sobre Franco - têm que acentuar os meios: a guerra civil e seu acompanhamento de horrores e crimes.

Mas a mentira e a violência por acaso não são coisas condenáveis "em si mesmas"? Por certo, como é condenável a sociedade dividida em classes que as engendra. A sociedade sem antagonismos sociais será, evidentemente, sem mentira e sem violência. Mas não é possível lançar uma ponte para ela senão com métodos violentos. A própria revolução é o produto da sociedade dividida em classes, da qual ela leva necessariamente a marca. Do ponto de vista das "verdades eternas" a revolução é, naturalmente, "imoral". Mas isso significa apenas que a moral idealista é contra-revolucionária, isto é, encontra-se a serviço dos exploradores.

"Mas a guerra civil - dirá talvez o filósofo tomado de surpresa - é uma penosa exceção. Em tempos de paz um sadio movimento socialista deveria evitar a mentira e a violência". Esta não é mais que uma piedosa escapatória. Não existe uma nítida linha divisória entre luta de classes "pacífica" e revolução. Cada greve contém em germe todos os elementos da guerra civil. As duas partes contrapostas esforçam-se para assustar o adversário, dando uma imagem exagerada de seu grau de resolução e de seus recursos materiais. Graças a sua imprensa, seus agentes e espiões, os capitalistas procuram intimidar e desmoralizar os grevistas. Por seu lado, os piquetes de greve, quando a persuasão revela-se inoperante, são obrigados a recorrer à força. Vê-se assim que "a mentira e coisas piores" são inseparáveis da luta de classes, mesmo em sua forma embrionária. Resta acrescentar que as próprias noções de mentira e verdade nasceram das contradições sociais.


A Revolução e os Reféns

Stalin faz prender e fuzilar os filhos de seus adversários, que por sua vez foram fuzilados sob falsas acusações. As famílias servem-lhe de reféns para obrigar a voltar do estrangeiro aqueles diplomatas soviéticos tão audazes a ponto de por em dúvida a infalibilidade de Yagoda ou Yezov. Os moralistas de Neuer Weg lembram, a propósito disso, que "também Trotsky" valeu-se em 1919 de uma lei sobre os reféns. Vale a pena citar textualmente: "A prisão por parte de Stalin das famílias inocentes é uma barbaridade revoltante. Mas essa é uma ação bárbara também quanto ordenada por Trotsky (1919)". Eis a moral idealista em toda a sua beleza! Seus critérios são tão mentirosos quanto as próprias normas da democracia burguesa. Pressupõe, nos dois casos, uma igualdade onde não há sombra de igualdade.

Não vamos insistir sobre o fato de que o decreto de 1919, muito provavelmente, não fez fuzilar nenhum dos parentes dos oficiais, cujas traições nas custavam inúmeras vidas e ameaçavam sufocar a revolução. No fundo, não é disso que se trata. Se a revolução não tivesse manifestado, desde o começo, uma inútil generosidade, milhares de vidas teriam sido poupadas em seguida. Seja como for, assumo inteira responsabilidade pelo decreto de 1919. Foi uma medida necessária na luta contra os opressores. Esse decreto, como toda a guerra civil, que bem se poderia chamar com razão uma "barbaridade revoltante", não tem outra justificação histórica que o objetiva histórica da luta.

Deixemos a Emil Ludwig e seus similares a tarefa de elaborar-nos quadros de Abraão Lincoln com asinhas cor-de-rosa. A importância de Lincoln consiste no fato de que, para alcançar o grande fim histórico exigido pelo desenvolvimento do jovem povo americano, não recuou diante das medidas mais rigorosas, quando foram necessárias. A questão não é sequer saber quais dos beligerantes que infligiram ou padeceram as perdas mais graves. A história tem medidas diversas para as crueldades dos nortistas e sulistas na Guerra da Secessão. Que miseráveis eunucos não nos venham dizer que o escravagista que com q mentira e a violência agrilhoa um escravo, está, diante da moral, no mesmo plano que o escravo que com a mentira e a violência quebra seus grilhões!

Quando a Comuna de Paris foi afogada no sangue e a canalha reacionária de todos o mundo arrastou pelo pó sua bandeira, apareceram muitos filisteus democratas prontos a condenar, junto com a reação, os communards que tinham fuzilado sessenta e quatro reféns, entre os quais o arcebispo de Paris. Marx não hesitou um só instante em assumir a defesa dessa sanguinolenta ação da Comuna. Na circular do Conselho Geral da 'Internacional, Marx relembra - e a lava borbulha sob suas palavras - que a burguesia usou o sistema de reféns na luta contra os povos coloniais e na luta contra seu próprio povo. E em seguida às execuções sistemáticas dos Communards prisioneiros, pelos reacionários: "Para defender a vida de seus combatentes prisioneiros, não restava à Comuna senão recorrer ao método dos reféns, habitual aos prussianos. A vida dos reféns foi perdida e reperdida pelo fato que os versalheses continuavam fuzilando os prisioneiros. Teria sido possível poupar os reféns depois da horrível carnificina com que os pretorianos de MacMahon celebraram seu ingresso em Paris? O último contrapeso oposto à barbárie do governo burguês - a tomada de reféns - deveria transformar-se numa irrisão?"

Esta foi a linguagem de Marx a propósito da execução dos reféns, apesar de ter pelas costas, no Conselho da Internacional; um certo número de Fenner Brocway, Norman Thomas e outros semelhantes indivíduos à la Otto Bauer, A indignação do proletariado mundial diante das atrocidades cometidas pelos versalheses era ainda tão grande que os escrevinhadores reacionários preferiram ficar calados, esperando tempos melhores - tempos que, infelizmente, tardaram em chegar. Os moralistas pequeno-burgueses, unidos aos funcionários das trade-unions e aos palavreadores anarquistas só torpedearam a primeira Internacional quando a reação triunfou definitivamente.

Quando a Revolução de Outubro resistia às forças coligadas do imperialismo numa frente de oito mil quilômetros, os operários de todo o mundo seguiam essa luta com uma simpatia tão ardente que teria sido arriscado denunciar diante deles a tomada de reféns como uma "barbárie revoltante". Foram necessários a total degeneração do Estado soviético e o triunfo da reação em vários países para que os moralistas saíssem de suas tocas... e acorressem em socorro de Stalin. Com efeito, se as medidas repressivas adotadas para defender os privilégios da nova aristocracia têm o mesmo valor moral das medidas revolucionárias adotadas na luta libertadora, Stalin está plenamente justificado, a menos que... a revolução proletária seja condenada em bloco.

Os senhores moralistas, apesar de procurarem exemplos de imoralidade na guerra civil russa, são obrigados a fechar os olhos sobre o fato de a guerra civil na Espanha também ter restabelecido a lei dos reféns, pelo menos na época em que houve uma verdadeira revolução das massas. Se os detratores ainda não se permitiram condenar essa "barbaridade revoltante" dos operários espanhóis, é porque o solo da península ibérica ainda está muito quente sob seus pés. É muito mais cômodo, para eles, apelar para 1919. Já é História. Os velhos tiveram tempo de esquecer, os jovens ainda não tiveram tempo de aprender. Pela mesma razão, os fariseus de todos os matizes apeiam para Kronstadt e Machno(13). As secreções morais podem aqui ter livre curso !


A "Moral dos Hotentotes"

A história percorre estradas cruéis, é preciso convir com os moralistas. Mas que conclusão retirar disto para a atividade prática? Tolstoi aconselhava aos homens ignorar as convenções sociais e melhorar a si próprios. O Mahatma Gandhi aconselha beber leite de cabra. Infelizmente, os moralistas revolucionários do Neuer Weg não andam longe de tais receitas.

"Nós devemos - pregam - libertar-nos da moral dos hotentotes, segundo os quais é mau apenas aquilo que o inimigo faz". Admirável conselho! "Nos devemos libertar-nos..." Também Tolstoi recomendava libertar-nos do pecado da carne. As estatísticas não nos revelam que sua propaganda tenha tido sucesso. Nossos homúnculos centristas conseguiram elevar-se aos píncaros de uma moral acima das classes, numa sociedade dividida em classes. Mas já se passaram quase dois mil anos desde que foi dito: "amai vossos inimigos... Oferecei a outra face..." E todavia nem o próprio Papa de Roma conseguiu libertar-se do ódio para com seus inimigos. Satã, o inimigo do gênero humano, é deveras muito poderoso!

Aplicar diferentes critérios às ações dos exploradores e dos explorados seria, segundo esses homúnculos, colocar-se no nível da "moral dos hotentotes". Perguntemo-nos antes se cabe a "socialistas "professar um tal desprezo pelos hotentotes (povo da África meridional). Sua moral é de fato tão desprezível? Eis o que diz a enciclopédia britânica: "Nas relações políticas e sociais dão prova de muito tato e inteligência; são muito valorosos, belicosos e hospitaleiros; foram honestos e sinceros até que o contato com os brancos tornou-os suspeitos, vingativos e ladrões, isto é, até que não absorveram a maioria dos vícios dos europeus." Não se pode deixar de concluir que os missionários brancos, pregadores da moral eterna, contribuíram para a corrupção dos hotentotes.

Se contassem a um trabalhador hotentote que os operários, insurgidos em algum lugar do mundo, colheram de surpresa seus opressores, ele se alegraria. Ficaria, pelo contrário, desolado, ao saber que os opressores conseguiram enganar os oprimidos. O hotentote que os missionários não corromperam até a medula, jamais aceitará aplicar as mesmas normas de moral abstrata aos opressores e aos oprimidos. Pelo contrário, ser-lhe-á fácil compreender a explicação de que o objetivo destas normas é precisamente o de impedir a revolta dos oprimidos contra os opressores.

Coincidência edificante: para caluniar os bolchevistas, os missionários de Neuer Weg tiveram que caluniar contemporaneamente os hotentotes; e, em ambos os casos, a calúnia segue as pegadas da mentira oficial burguesa: contra os revolucionários e contra os povos de cor. Decididamente, nós preferimos os hotentotes a todos os missionários religiosos ou laicos!

Mas não valorizemos excessivamente o grau de consciência dos moralistas da Neuer Weg e de outros da mesma resma. Suas intenções não são assim tão más. É inconscientemente que servem de instrumento na engrenagem da reação. Numa época como a nossa, quando os partidos pequeno-burgueses agarram-se à burguesia ou à sua sombra, (política de "Frentes Populares"), paralisando o proletariado e abrindo caminho ao fascismo (Espanha, França), os bolchevistas, isto é, os marxistas revolucionários, são particularmente visados pela opinião pública burguesa. A mais forte pressão política de nossos dias exerce-se da direita para a esquerda. Em última instância, todo o peso da reação acumula-se sobre os ombros de uma pequena minoria revolucionária. Essa minoria chama-se IV Internacional. Eis o inimigo!

O stalinismo ocupa na engrenagem da reação muitas posições dominantes. De uma maneira ou de outra, todos os grupos da sociedade burguesa, anarquistas incluídos, correm em seu auxílio contra a revolução proletária. Enquanto isso, os democratas pequeno-burgueses tentam fazer recair, pelo menos em cinqüenta por cento, os odiosos crimes de seu aliado moscovita sobre a irredutível minoria revolucionária. Este é o significado do dito agora em moda: "Trotskismo e estalinismo são idênticos". Os adversários dos bolchevistas e dos hotentotes ajudam, assim, a reação a cobrir de calúnias o partido da revolução.


O "Amoralismo" de Lénine

Os "socialistas revolucionários" russos foram sempre homens dos mais morais; no fundo, não eram mais do que pura ética. O que não os impediu de enganar os camponeses durante a revolução. No órgão parisiense de Kerensky, este socialista ético que foi precursor de Stalin nas falsificações contra os bolchevistas, o velho "socialista revolucionário" Zenzinov escreve: "Lênin ensinou, como se sabe, que, para atingir o objetivo almejado, os bolchevistas podem, e às vezes devem, usar qualquer estratagema, como o silêncio e a dissimulação da verdade..." (Novaia Rossia, 17-2-38). E daí retira a conclusão ritual: o stalinismo é filho legítimo do leninismo.

Infortunadamente esse detrator moral não é sequer capaz de reproduzir honestamente uma citação. Lênin escreveu: "É necessário saber adaptar-se a tudo, a todos os sacrifícios e até, se necessário for, usar vários estratagemas, enganos, procedimentos ilegais, usar o silêncio, a dissimulação da verdade para penetrar nos sindicatos, permanecer neles, desenvolver neles a qualquer custo a anão comunista." A necessidade dos estratagemas e dos enganos, segundo a afirmação de Lênin, deriva do fato de que a burocracia reformista, entregando os operários ao capital, perseguia os revolucionários e chamava mesmo a polícia burguesa contra eles. "O engano e a dissimulação da verdade" não são, nesse caso, mais do que os instrumentos duma legítima defesa contra a perfídia duma burocracia reformista.

Em outros tempos, o partido de Zenzinov combateu na ilegalidade o velho regime e depois o bolchevismo. Em ambos às casos valeu-se de enganos, estratagemas, falsos passaportes, e outras formas de "dissimulação da verdade". Todos esses meios eram por eles considerados não apenas morais, mas até heróicos, porque correspondiam aos fins da democracia pequeno-burguesa. Mas a situação muda quando são os revolucionários proletários que se vêem obrigados a recorrer aos meios da ilegalidade contra essa democracia. A pedra de toque da moral desses senhores possui, como se vê, um caráter de classe!

O "amoralista" Lênin recomenda abertamente pela imprensa usar os enganos de guerra para com os dirigentes que traem o movimento operário. O 'moralista Zenzinov corta conscientemente este texto para enganar seus leitores. Este acusador tão moralista é, como de hábito, um astutozinho sem envergadura. Tinha razão Lênin ao repetir que é terrivelmente difícil encontrar um adversário de boa fé!

O operário que não esconde do capitalista a "verdade" sobre as intenções dos grevistas é um puro e simples traidor, que não merece senão o desprezo e o boicote. O soldado que comunica a "verdade" ao inimigo é punido como espião. O próprio Kerenski tentou acusar fraudulentamente os bolchevistas de ter comunicado a "verdade" aos chefes do estado-maior de Ludendorff. A "verdade sagrada" não é, pois, um fim em si? Ela é dominada por critérios imperativos que, a análise o demonstra, revestem-se de um caráter de classe.

Uma luta de morte não pode ser concebida sem astúcias de guerra; em outros termos, sem a mentira e o engano. Os proletários alemães não podem por acaso enganar a policia de Hitler? Os bolchevistas soviéticos, por acaso, faltariam à moral enganando a GPU? O honesto burguês aplaude a polícia quando esta consegue, pelo engano, capturar um criminoso. E o engano não seria permitido quando se trata de derrubar os criminosos do imperialismo?

Norman Thomas fala "do estranho amoralismo comunista que nada leva em conta senão o partido e seu poder" (Socialist Call, 12 de março de 1938). Ao dizer isto, Thomas confunde o atual Komintern, isto é a conspiração da burocracia stalinista contra a classe operária, com o partido bolchevista que encarnava o complô dos operários avançados contra a burguesia. Refutamos acima, suficientemente, esta identificação de todo desonesta. O stalinismo camufla-se com o culto do partido, mas na realidade destrói o partido e o arrasta pela lama. Mas é verdade que o partido é tudo para o bolchevista. Esta atitude do revolucionário para com a revolução surpreende e contraria o socialista de salão Thomas, que não é senão um burguês dotado de um "ideal" socialista. Aos olhos de Norman Thomas e de seus semelhantes, o partido não é outra coisa senão o instrumento das combinações eleitorais e similares. A vida privada do homem, suas relações, seus interesses, sua moral, estão fora do partido. Thomas olha com aversão, misturada ao estupor, o bolchevista para quem o partido é o instrumento da transformação revolucionária da sociedade, inclusive da moral dessa sociedade. Não poderia haver no revolucionário marxista contradição entre a moral pessoal e os interesses do partido, porque o partido abraça na sua consciência as tarefas e os fins mais elevados da humanidade. Seria, portanto, ingênuo supor que Thomas tem da moral uma noção mais elevada que os marxistas. O que ele tem é apenas uma idéia muito mais baixa do partido.

"Tudo o que nasce é digno de perecer" diz o dialético Hegel. O fim do partido bolchevista - um episódio da revolução mundial - não diminui a importância deste partido na história mundial. Na época de sua ascensão revolucionária, isso é, quando representava realmente a vanguarda proletária, era o partido mais honesto da história. Quando o pôde, naturalmente enganou as classes adversárias, mas disse a verdade aos trabalhadores, toda a verdade, nada mais do que a verdade. Só em virtude disso ganhou sua confiança, como nenhum outro partido no mundo.

Os assalariados das classes dominantes tratam o fundador deste partido como um imoral. Aos olhos dos operários conscientes, essa acusação é uma honra. Significa que Lênin recusava desdenhosamente submeter-se às normas morais estabelecidas pelos escravocratas para os escravos e que os próprios escravocratas nunca observam para uso próprio; significa que Lênin convidava o proletariado a estender a luta de classes ao plano da moral. Aquele que se inclina perante as regras estabelecidas pelo inimigo jamais vencerá!

O "amoralismo" de Lênin, isto é, sua recusa em admitir uma moral superior às classes, não impediu de permanecer toda a vida fiel a um mesmo ideal; de consagrar-se inteiramente à causa dos oprimidos, de mostrar-se extremamente escrupuloso na esfera das idéias e intrépido na ação, de não assumir nunca atitudes de superioridade em relação ao "simples operário", da mulher sem defesa, da criança. Não parece, nesse caso, que o "amoralismo" é a mais elevada forma da moral humana?


Um Episódio Edificante


Vale a pena referir aqui um episódio, em si de pequena importância, que todavia ilustra muito bem a diferença entre a nossa moral e a deles. Em 1935, numa carta a alguns amigos belgas, sustentava a tese segundo a qual um jovem partido revolucionário que tentasse criar seus "próprios sindicatos" marchava em direção ao suicídio. É preciso ir de encontro aos operários onde quer que eles estejam. Mas isso significa pagar as cotos para a manutenção de um aparelho oportunista? Evidentemente, respondia eu, o direito de minar os reformistas é preciso pagá-la. Mas os reformistas nos permitirão desenvolver contra eles um trabalho de desagregação? Evidentemente, respondia ainda, o trabalho de desagregação exige algumas precauções conspirativas. Os reformistas constituem a política da burguesia no seio da classe operária. É preciso saber agir sem sua permissão e apesar de suas proibições... Durante uma batida policial na casa do companheiro D., se não me engano por causa de um fornecimento de armas feito à Espanha operária, a polícia belga apoderou-se dessa minha carta. Alguns dias depois ela era publicada. A imprensa de Vandervelde, de De Man e de Spaak não economizou seus raios contra meu "maquiavelismo" e meu "jesuitismo". Mas quem eram meus censores? Desde longos anos presidente da Segunda Internacional, Vandervelde, há muito tempo, é o homem de confiança do capital belga (14). De Man, depois de ter por anos enobrecido o socialismo em maciços volumes, gratificando-o com uma moral idealista e encostando-se na escapatória da religião, aproveitou a primeira ocasião para enganar os operários e tornar-se um vulgar ministro da burguesia. O caso de Spaak é ainda mais clamoroso. Dezoito meses atrás, esse senhor, que pertencia à oposição socialista de esquerda, viera me pedir conselho sobre os métodos de luta a usar-se contra a burocracia de Vandervelde. Eu lhe exprimira as mesmas idéias que mais tarde formaram minha carta. Um ano após, ele renunciava aos espinhos para ficar com a rosa. Traindo seus amigos da oposição, tornava-se um dos mais cínicos ministros do capital belga." Nos sindicatos e em seu partido, esses senhores sufocam qualquer crítica, desmoralizam e corrompem sistematicamente os trabalhadores mais avançados, expelindo os indóceis não menos sistematicamente. Estes cavalheiros não se distinguem da GPU senão pelo fato de que, no momento, procedem sem derramamento de sangue; em sua qualidade de bons patriotas, reservam o sangue operário para a próxima guerra imperialista. E fique claro: é preciso ser um enviado do inferno, um "pretendente", um bolchevista, para dar aos operários revolucionários o conselho de observar na luta contra esses senhores as regras da conspiração!

Do ponto de vista da legalidade belga, minha carta não continha nada de delituoso. A policia de um país democrático tê-la-ia restituído ao destinatário pedindo desculpas. A imprensa de um partido socialista devia ter protestado contra uma batida organizada no interesse do general Franco. Os senhores socialistas, pelo contrário, não se melindraram em obter uma vantagem através de um serviço de sua polícia; sem a qual teriam perdido a ocasião favorável de demonstrar ainda uma vez a superioridade de sua moral sobre o amoralismo bolchevista.

Tudo é simbólica nesse episódio. Os socialistas belgas deram largas à sua indignação contra mim, no exato momento em que seus companheiros noruegueses guardavam-me sob chave, juntamente com minha mulher, para que não nos pudéssemos defender das acusações da GPU.(15) O governo norueguês sabia perfeitamente que as acusações de Moscou eram inventadas; o órgão oficioso da social-democracia norueguesa o escreveu claramente e com todas as letras desde o primeiro dia. Mas Moscou tocou no bolso dos armadores e comerciantes de peixe noruegueses, e os senhores social-democratas puseram-se logo de joelhos. O chefe do partido Martim Tramael é uma autoridade em matéria de moral; é um justo; não bebe, não fuma, é vegetariano, e no inverno toma banho de água gelada. O que não o impediu de, após ter-nos feito aprisionar por ordem da GPU, convidar o agente norueguês da GPU, Jacob Friese, um burguês sem honra nem consciência, a caluniar-me de maneira particular. Mas basta isso...

A moral destes senhores consiste em regras gerais e procedimentos oratórios destinados a mascarar seus interesses, seus apetites, seus temores. Em sua maioria, eles estão prontos a todas as baixezas - à abjuração, à perfídia, à traição - por ambição e lucro. Na sagrada esfera dos interesses pessoais, para eles o fim justifica qualquer meio. É por isso mesmo que necessitam de um código moral particular, prático e ao mesmo tempo elástico, como um bom par de suspensórios. Eles detestam quem quer que seja que revele perante as massas seus segredos profissionais. Em tempos de "paz", seu ódio exprime-se por meio de calúnias, vulgares ou "filosóficas". Quando os conflitos sociais assumem forma mais aguda, como aconteceu na Espanha, estes moralistas entram em acordo com a GPU para exterminar os revolucionários. Depois, para justificar-se,. repetem que "trotskismo e stalinismo são a mesma coisa".


Interdependência Dialética Entre Fins e Meios

O meio não pode ser justificado senão pelo fim. Mas também o fim precisa de justificação. Do ponto de vista do marxismo, que exprime os interesses históricos do proletariado, o fim está justificado se levar ao reforço do poder do homem sobre a natureza e à supressão do poder do homem sobre o homem.

Isto significa então que, para atingir este fim, tudo é permitido? - perguntará sarcasticamente o filisteu, demonstrando que não entendeu nada. E permitido, responderemos, tudo aquilo que leve realmente à libertação dos homens. Já que este fim não pode ser atingido senão por via revolucionária, a moral emancipadora do proletariado tem necessariamente um caráter revolucionário. Como aos dogmas da religião, esta moral se opõe a todos os fetiches do idealismo, gendarmes filosóficos da classe dominante. Ela deduz as normas de conduta das leis do desenvolvimento social, isto é, antes de tudo, da luta de classes, que é a lei das leis.

O moralista ainda insiste: Isto significa então ave, na luta de classes contra o capitalismo, são permissíveis todos os meios? A mentira, a falsificação, a traição, o assassínio, etc?

Respondemos: são admissíveis e obrigatórios apenas os meios que aumentam a coesão do proletariado, inflamam sua consciência com um ódio inextinguível para com toda forma de opressão, ensinam-lhe a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticas, dão-lhe plena consciência de sua missão histórica e aumentam sua coragem e sua abnegação. Donde se conclui, afinal, que nem todos os meios são válidos.

Quando dizemos que o fim justifica os meios, disto deriva para nós que o grande fim revolucionário repudia, entre estes meios, os procedimentos e os meios indignos que lançam uma parte da classe operária contra outra; ou que tentam fazer "a felicidade das massas" sem a sua organização, substituindo-as p !a adoração dos "chefes". Acima de qualquer outra coisa, a moral revolucionária condena irredutivelmente o servilismo para com a burguesia e o desprezo para com os trabalhadores, que ó uma das características mais arraigadas na mentalidade dos pedantes e dos moralistas pequeno-burgueses.

Estes critérios, é obvio, não definem o que é consentido ou não em cada situação determinada. Não existem respostas automáticas deste tipo. As questões da moral revolucionária confundem-se com as questões da estratégia e tática revolucionárias. Somente a experiência viva do movimento, iluminada pela teoria, pode dar a resposta certa a esses problemas.

O materialismo dialético não separa os fins dos meios. O fim é deduzido de maneira natural do dever histórico. Os meios estão organicamente subordinados ao fim. O fim imediato transforma-se no meio do fim ulterior.

Ferdinand Lassalle em seu drama Franz von Sickingen faz um de seus personagens dizer:


Não indiques apenas o fim,
mas mostra também o caminho
porque o fim e o caminho
tão unidos estão
que um muda com o outro
e com ele se move
- e cada novo caminho
revela um novo fim.

Os versos de Lassalle são bastante imperfeitos e, o que é pior, o próprio Lassalle, em sua conduta política prática, abandonou a norma que exprimia nestes termos: sabe-se que chegou inclusive a manter negociações secretas com Bismarck. Mas a interdependência entre fins e meios está expressa nestes versos. É preciso semear um grão de trigo se se quiser obter uma espiga de trigo.

O terrorismo individual é ou não admitido do ponto de vista da "moral pura"? Nesta forma abstrata, a pergunta é para nós totalmente desprovida de sentido. Os burgueses conservadores suíços ainda tributam elogios oficiais ao terrorista Guilherme Tell. As nossas simpatias estão sem reservas com os terroristas irlandeses, russos, polacos, hindus, que combatem um jugo político e nacional. Kirov, sátrapa brutal, não suscita em nós a mínima compaixão. E se viéssemos a saber que Nicolaiev o abateu conscientemente com o fim de vingar os operários cujos direitos Kirov espezinhava, nossas simpatias estariam sem reserva com o terrorista. Mas o elemento decisivo aos nossos olhos não é o móvel subjetivo, é a utilidade objetiva. Um tal meio pode-nos conduzir ao fim? Pelo que se refere ao terrorismo individual, a teoria e a experiência demonstram o contrário. Nós dizemos ao terrorista: "Não é possível substituir as massas; teu heroísmo só pode encontrar aplicação útil no seio do movimento de massas." Nas condições de uma guerra civil, o assassínio de certos opressores deixa de ser terrorismo individual. Se um revolucionário fizer saltar o general Franco e seu estado maior, duvido que este ato sustasse indignação moral mesmo entre os eunucos da social-democracia. Em tempos de guerra civil um ato deste gênero seria politicamente útil. Assim, na questão mais grave - a do homicídio - as normas morais absolutas são de todo inoperantes. O juízo moral está condicionado, como o juízo político, pelas necessidades internas da luta.

A emancipação dos operários não pode ser senão obra dos próprios operários. Não há, pois, crime pior do que enganar as massas, do que fazer passar as derrotas por vitórias e os inimigos por amigos, do que corrompei os chefes, do que inventar lendas, do que fabricar processos judiciais de impostura - enfim, do que fazer o que fazem os stalinistas. Estes meios podem servir apenas a um fim: prolongar o domínio duma camarilha condenada pela História. Não podem servir, porém, à emancipação das massas. Eis porque a IV Internacional sustenta contra o stalinismo uma luta de morte.

As massas, normalmente, não estão isentas de falhas. Não estamos inclinados a idealizá-las. Temo-las visto em múltiplas circunstâncias, em várias fases, em meio às vastas conclusões. Notamos suas fraquezas e suas qualidades. Qualidades: a decisão, a abnegação, o heroísmo que encontram sempre sua mais alta expressão nos períodos de ascenso revolucionário. Nestes momentos, os bolchevistas estão à cabeça das massas. Outro capítulo da história se abre quando se revelam as fraquezas dos oprimidos: heterogeneidade, insuficiência cultural, horizontes limitados. Cansadas, deprimidas, desiludidas, as massas perdem a confiança em si mesmas e cedem lugar a uma nova aristocracia. Neste período, os bolchevistas (os "trotskistas") encontram-se isolados das massas.

Na prática já percorremos dois ciclos análogos: 1897-1905, anos de afluxo; 1907-1913, anos de refluxo; 1917-1923, anos marcados por uma ascensão sem precedentes na história; depois um novo período de reação, que ainda não acabou. Graças a esses eventos, os "trotskistas" aprenderam a compreender o ritmo da história - em outros termos, a dialética da luta de classes. Aprenderam, parece que com sucesso, a subordinar a esse ritmo objetivo seus desígnios subjetivos e seus programas. Aprenderam a não desesperar, porque as leis da história não dependem de nossas inclinações individuais ou de nossos critérios morais. Aprenderam a subordinar suas inclinações individuais a estas leis. Aprenderam a não temer nem mesmo os inimigos mais poderosos, se a potência destes inimigos estiver em contradição com as exigências do desenvolvimento histórico. Sabem nadar contra a correnteza com a profunda convicção de que um novo fluxo histórico de renovada potência os levara a outra margem. Nem todos chegarão: alguns se afagarão ao longo do caminho. Mas participar desse movimento com os olhos bem abertos, com a máxima tensão da vontade, esta já é par si a suprema satisfação moral que pode ser dada a um ser pensante!

Coyocan, 16 de fevereiro 1938

P.S. Escrevia estas páginas sem saber que nestes dias meu filho lutava contra a morte. Dedico à sua memória este breve trabalho que, espero, teria sua aprovação: porque Leão Sedov era um autêntico revolucionário e desprezava os fariseus.


Notas:

(12) O Social-Patriotismo: denominação dada pelos bolcheviques e demais revolucionários internacionalistas à política dos partidos da II Internacional durante a 1ª Guerra Mundial.
(13) Machno foi um chefe anarquista dos camponeses ucranianos. Lutou às vezes contra os brancos, às vezes contra os vermelhos. Kronstadt era o nome da fortaleza naval de Petrogrado, fortemente revolucionária. Os seus marinheiros foram durante vários anos quase que a guarda pretoriana do regime soviético e estiveram entre seus mais decididos combatentes.
(14) GPU: Polícia política soviética. Quando começaram os processos de Moscovo, Trotsky acabara de ser expulso da França da "Frente Popular" e obtivera asilo na Noruega, onde o Partido Operário Social Democrata ganhara as eleições. Stalin necessitava do silêncio de seu adversário a qualquer preço. O governo soviético fez pressão sobre os armadores da frota pesqueira norueguesa da qual era importante cliente. Estes, por sua vez apertaram o governo "operário" que prendeu Trotsky e sua mulher incomunicáveis. Trotsky só pôde responder a Estaline quando Diego de Rivera lhe arranjou o asilo mexicano, concedido pelo presidente Cárdenas.
(15) Leão Sedov, organizador e militante da IV Internacional, foi assassinado em Paris pela GPU no hospital onde se encontrava internado.